Um - Junho, 1908
Era um dia de inverno amen
o. O sol começava a despontar entre pinheiros centenários e outras árvores menores. O frio ainda não se mostrava rigoroso, mas uma brisa leve fazia com que a sensação de frio se acentuasse. Antonio Dias havia acordado cedo naquele dia de final de junho. Pegou a lenha que estocava ao lado do fogão, acendeu o fogo. Pegando uma panela, foi até os fundos externos da casa, sentindo mais frio do que supunha. Encheu a panela com água, voltou para dentro da cozinha, colocando-a sobre o fogo que já estava crepitando. Retornou ao único quarto da casa para pegar um agasalho mais grosso. Em um canto, num colchão feito de palha de milho, dormia sua esposa Sibila e sua filha menor de dois anos, Bárbara. Num outro canto do mesmo quarto, porém num colchão menor, seus dois outros filhos jaziam inocentes adormecidos. Antonio se sentiu orgulhoso pela sua família. A casa era pequena, mas com a colheita que prometia ser boa naquele ano, construiria mais um quarto. Aqueles segundos pareciam preciosos para ele. Mas, como fosse despertar de um sonho, pegou seu agasalho, saindo do quarto.
Antonio Dias contava com 30 anos. Tinha orgulho de sua família, principalmente dos dois filhos homens. O mais velho, Mateus, já tinha 10 anos e o segundo Davi com 8. A pequena Bárbara viera muito tempo depois, mas também cresceria. Mateus já o ajudava na roça como Sibila. Davi ficava em casa para cuidar da irmã menor. Dessa forma Antonio conseguiu cultivar uma quantidade enorme de suas terras e teria uma boa colheita neste ano.
Abrindo a porta da frente da casa, Antonio se deparou com a visão de um pequeno jardim que sua mulher cultivava. Havia algumas rosas, mas a maioria das flores provinha do mato, onde Sibila vez ou outra achava algo para trazer e plantar ao redor da casa. Antonio achou estranho que naquele dia ele tivesse saído pela porta da frente. Normalmente sempre o fazia pelos fundos, já que precisava tratar dos animais. Depois quando terminasse, voltaria para a cozinha faria o café, acordaria os filhos e a esposa, para começarem um novo dia de trabalho. Gostou do sol despontando junto com o frio e o vento que soprava levemente. Faria um dia bonito, pensou Antonio, pois sempre o inverno trazia dias bonitos, porém frios. Também vez ou outra a chuva castigava, mas Antonio imaginava que Deus assim o fazia para que suas plantações pudessem se erguer e dar bons frutos.
Andou alguns metros, parando no meio do jardim de sua esposa. Alguns hibiscos numa cerca mal construída. Num canto contemplou a espada-dourada. Sibila dizia que espantava mal olhado. Uma palmeira também enfeitava o local e alguns pinheiros já altos próximos da estrada. Havia algum mato tomando conta de tudo. Precisava deixar um dia desses a mulher em casa para ela poder se dedicar ao seu jardim. Mas Antonio não tinha mais tempo. Foi para os fundos da casa para cuidar de seus afazeres. Tinha dois porcos. Na noite anterior havia separado aipim e milho. Jogou no chiqueiro e os animais gruniram para atacar sua alimentação. Esvaziou o coxo com a água suja e trouxe baldes que encheu com água limpa. Foi até o galinheiro, recolheu os ovos numa cesta pequena, jogando ao chão milho. Mais tarde Mateus abriria a porta para as galinhas ciscarem ao redor da casa. Providenciava para que as galinhas ficassem presas a noite, pois havia muitos bichos que poderiam dar cabo de sua criação. Foi ver seu cavalo. Era um animal bonito e forte. Mais tarde o deixaria próximo de onde iriam trabalhar para ele comer o seu capim. Por fim, as duas vacas. Apenas uma estava dando leite. A outra estava prenha. Seu amigo e vizinho de alguns quilômetros, deixou que o seu touro fizesse a monta de sua vaca. Antonio pegou um balde, passou água limpa nele e foi ordenhar a vaca. Assim que terminou, estava se encaminhando para entrar na cozinha pelos fundos. Como o dia estava se mostrando bonito demais, deu a volta pelo jardim. Queria novamente apreciar a vista de sua casa.
- Bom dia! – Antonio ouviu uma voz se pronunciar num tom alto e irritado. Havia muitos homens montados em seus cavalos e um quê de coisa ruim que se anunciava.
- Sim, é bom dia. – disse Antônio, num tom de ironia, o que não era próprio dele. O homem que estava a sua frente se anunciou.
- Meu nome é Pedro Vasquez. Sou da Companhia Brazil Railway...
- Da estrada de ferro. – completou Antonio.
- Essas terras pertencem a Companhia.
- Estou aqui há mais tempo que a Companhia. – Antonio apertou a mão na alça do balde, prevendo algo inesperado que poderia acontecer. Se sua mulher ouvisse a conversa devia ter acordado.
- O governo determinou que estas terras são da Companhia. – Pedro Vasquez permanecia sério e o único que falava. Vez ou outra um cavalo relinchava, mas o resto era apenas o toque do vento.
- Senhor Pedro Vasquez – Antonio foi cerimonioso, apesar de o homem rude ter a mesma idade que a sua. – Desça do cavalo, vamos entrar que preparo um café...
- Qual o seu nome?
- Antonio Dias.
- Muito bem Antonio Dias. Não tenho tempo a perder com café e conversa. Vim aqui para se certificar de que você e sua família saiam das terras da Companhia.
- Já disse que estas terras são minhas. Tenho documentos que comprovam isso.
Nesse momento Pedro Vasquez fez um sinal com as mãos. Os outros cavaleiros se adiantaram e pisaram nas espadas-douradas, deixando-as caídas e amassadas.
- Entre na casa, pegue sua esposa e filho se tiver, e não volte mais.
- Eu posso ir até o escritório da Companhia...
- Você não tem tempo Antonio Dias. As ordens que recebi são para ser cumpridas. Agora! – a última palavra soou mais alta, como uma ordem expressa.
- Se eu sair daqui, para onde vou?
- É problema seu.
- Eu tenho mulher e três filhos, senhor Vasquez. Não posso sair sem um lugar para acomodá-los.
Novamente Pedro Vasquez levantou a mão e agora apareceram armas nas mãos dos cavaleiros. Antonio ficou assustado. Apertou ainda mais a mão sobre a alça do balde. Brotou desespero em seu rosto.
- A Companhia vai dar outra casa e terras?
- Acho que você está surdo Dias! – Neste momento Vasquez pegou sua espingarda e deu um tiro, acertando no balde que Antonio segurava. Assim que a explosão fez um buraco, escorrendo o leite pelo buraco da arma, Antonio soltou o balde, o leite derramando sobre o capim crescido.
- Entre nesta merda de casa, pegue suas coisas, ponha numa carroça e vá embora. Não tenho o dia todo para expulsa-lo daqui.
Antonio teve ímpeto de saltar sobre o cavalo de Pedro Vasquez e dar-lhe uma boa lição. Mas, com certeza, os outros cavaleiros atirariam nele antes. Pensou na esposa e nos filhos, que deviam estar desesperados no interior da casa. Soltou um olhar de desaprovação para o senhor Vasquez e entrou na casa.
Encontrou a esposa e os filhos chorando. Bárbara estava no colo de Sibila. Os dois meninos próximos da mãe, com lágrimas e medo em seus rostos.
- O que vamos fazer? – perguntou Sibila. Mas Antonio não respondeu de imediato. Foi até o quarto, pegou suas duas armas. Deu uma ao filho mais velho e ficou com a outra.
- Vamos resistir. Eles não podem nos tirar daqui!
- Eu sabia que essa estrada de ferro era do demônio. Eu sabia!
- Não é hora para isso, mulher. Pare de chorar e faça com que Bárbara se cale.
Antonio não tratava a família desse modo. Mas ele não tinha tempo para cortesia e precisava agir. Ficou alguns minutos aguardando.
- Pai... – Mateus quis saber algo do pai, porém Antonio mandou que ele se calasse.
- Agora não Mateus. Preciso de silêncio para ouvir o que eles planejam.
- Querem nos matar – Sibila disse a frase num desespero. – Vamos embora Antonio. Depois a gente volta.
- Não e não! Se a Companhia quer minhas terras tem que pagar. Como o governo pode dar terras dos outros para a Companhia? Isso é coisa de jagunço ou de algum fazendeiro. Tá errado.
- Antonio, quantos eles são?
- Não sei. Mas um bando grande.
Ouviram barulho. Antonio notou que os cavalos estavam se movimentando. Suas janelas eram de madeira, portanto não conseguiam ver o que se passava. Mas algumas gretas entre as tábuas da parede faziam com que enxergasse. Pouca coisa, mas Antonio viu que os cavalos com seus cavaleiros estavam bem próximos das paredes da casa.
- Pai? – gritou Davi, chorando.
Ouviram um barulho forte. Houve uma batida numa das paredes da casa e a voz de Pedro Vasquez.
- Seu tempo acabou Antonio Dias. Ou você sai agora com suas coisas ou invadimos sua casa.
- Estou armado.
Antonio a esposa e filhos ouviram uma risada estridente. Depois vários cavaleiros riam junto com Vasquez.
Num minuto posterior, o silêncio tomou conta. Antonio sentiu apenas o vento cortar seu rosto pelas frestas. Olhou para a esposa, deu um meio sorriso, mas logo a seguir seu coração parecia querer pular fora de seu corpo, quando Mateus anunciou num grito.
- Fogo!
O inferno havia começado ali mesmo, pensou Sibila. Ela agarrou ainda mais seu bebê, que iniciou um choro contínuo. Foi até o quarto, juntou algumas coisas, ajudada por Davi que a seguia por todo lado. Mateus e Antonio tentaram apagar com panos e cobertores trazidos por Sibila. O relincho do cavalo se fez ouvir, como as galinhas se debatendo e os porcos grunindo. O fogo tomou conta do telhado e de uma parede lateral. Antonio olhou em desespero para os filhos e depois para Sibila.
- Vamos sair pelos fundos – ordenou ele.
Antonio deu um chute na porta, que se abriu, caindo ao chão.
- Corram para o mato. Depressa. Não olhem para trás. Apenas corram.
Antonio viu alguns cavaleiros rindo, postados nos fundos de sua casa. Deram tiros para o alto. Cada tiro que davam, parecia acertar o coração de Antonio. Ele vendo sua família fugir de sua própria casa, assaltada e destruída de sua habitação. Depois de muitos metros adiante, já próximos da mata, Antonio, com lágrimas nos olhos, ainda correndo, olhou para trás, vendo que o fogo já tinha consumido sua casa. Os cavaleiros ainda permaneciam no local, provavelmente ficariam vigiando por algum tempo. Talvez dias até. Passou o braço com sua blusa de lã sobre o rosto, para limpar as lágrimas que não queriam ceder. Olhou para sua família, a sua frente, agora caminhando, com a dor de uma faca cravada em seu coração a expulsar o sangue devagar e sempre. Teve um impulso de voltar a sua casa, a sua roça, mas antes de entrar na mata, viu os cavaleiros destruindo toda sua plantação. Talvez fosse melhor se tivesse morrido, pensou Antonio. Ele e toda sua família.
Dois
Era um dia de inverno amen
o. O sol começava a despontar entre pinheiros centenários e outras árvores menores. O frio ainda não se mostrava rigoroso, mas uma brisa leve fazia com que a sensação de frio se acentuasse. Antonio Dias havia acordado cedo naquele dia de final de junho. Pegou a lenha que estocava ao lado do fogão, acendeu o fogo. Pegando uma panela, foi até os fundos externos da casa, sentindo mais frio do que supunha. Encheu a panela com água, voltou para dentro da cozinha, colocando-a sobre o fogo que já estava crepitando. Retornou ao único quarto da casa para pegar um agasalho mais grosso. Em um canto, num colchão feito de palha de milho, dormia sua esposa Sibila e sua filha menor de dois anos, Bárbara. Num outro canto do mesmo quarto, porém num colchão menor, seus dois outros filhos jaziam inocentes adormecidos. Antonio se sentiu orgulhoso pela sua família. A casa era pequena, mas com a colheita que prometia ser boa naquele ano, construiria mais um quarto. Aqueles segundos pareciam preciosos para ele. Mas, como fosse despertar de um sonho, pegou seu agasalho, saindo do quarto.Antonio Dias contava com 30 anos. Tinha orgulho de sua família, principalmente dos dois filhos homens. O mais velho, Mateus, já tinha 10 anos e o segundo Davi com 8. A pequena Bárbara viera muito tempo depois, mas também cresceria. Mateus já o ajudava na roça como Sibila. Davi ficava em casa para cuidar da irmã menor. Dessa forma Antonio conseguiu cultivar uma quantidade enorme de suas terras e teria uma boa colheita neste ano.
Abrindo a porta da frente da casa, Antonio se deparou com a visão de um pequeno jardim que sua mulher cultivava. Havia algumas rosas, mas a maioria das flores provinha do mato, onde Sibila vez ou outra achava algo para trazer e plantar ao redor da casa. Antonio achou estranho que naquele dia ele tivesse saído pela porta da frente. Normalmente sempre o fazia pelos fundos, já que precisava tratar dos animais. Depois quando terminasse, voltaria para a cozinha faria o café, acordaria os filhos e a esposa, para começarem um novo dia de trabalho. Gostou do sol despontando junto com o frio e o vento que soprava levemente. Faria um dia bonito, pensou Antonio, pois sempre o inverno trazia dias bonitos, porém frios. Também vez ou outra a chuva castigava, mas Antonio imaginava que Deus assim o fazia para que suas plantações pudessem se erguer e dar bons frutos.
Andou alguns metros, parando no meio do jardim de sua esposa. Alguns hibiscos numa cerca mal construída. Num canto contemplou a espada-dourada. Sibila dizia que espantava mal olhado. Uma palmeira também enfeitava o local e alguns pinheiros já altos próximos da estrada. Havia algum mato tomando conta de tudo. Precisava deixar um dia desses a mulher em casa para ela poder se dedicar ao seu jardim. Mas Antonio não tinha mais tempo. Foi para os fundos da casa para cuidar de seus afazeres. Tinha dois porcos. Na noite anterior havia separado aipim e milho. Jogou no chiqueiro e os animais gruniram para atacar sua alimentação. Esvaziou o coxo com a água suja e trouxe baldes que encheu com água limpa. Foi até o galinheiro, recolheu os ovos numa cesta pequena, jogando ao chão milho. Mais tarde Mateus abriria a porta para as galinhas ciscarem ao redor da casa. Providenciava para que as galinhas ficassem presas a noite, pois havia muitos bichos que poderiam dar cabo de sua criação. Foi ver seu cavalo. Era um animal bonito e forte. Mais tarde o deixaria próximo de onde iriam trabalhar para ele comer o seu capim. Por fim, as duas vacas. Apenas uma estava dando leite. A outra estava prenha. Seu amigo e vizinho de alguns quilômetros, deixou que o seu touro fizesse a monta de sua vaca. Antonio pegou um balde, passou água limpa nele e foi ordenhar a vaca. Assim que terminou, estava se encaminhando para entrar na cozinha pelos fundos. Como o dia estava se mostrando bonito demais, deu a volta pelo jardim. Queria novamente apreciar a vista de sua casa.
- Bom dia! – Antonio ouviu uma voz se pronunciar num tom alto e irritado. Havia muitos homens montados em seus cavalos e um quê de coisa ruim que se anunciava.
- Sim, é bom dia. – disse Antônio, num tom de ironia, o que não era próprio dele. O homem que estava a sua frente se anunciou.
- Meu nome é Pedro Vasquez. Sou da Companhia Brazil Railway...
- Da estrada de ferro. – completou Antonio.
- Essas terras pertencem a Companhia.
- Estou aqui há mais tempo que a Companhia. – Antonio apertou a mão na alça do balde, prevendo algo inesperado que poderia acontecer. Se sua mulher ouvisse a conversa devia ter acordado.
- O governo determinou que estas terras são da Companhia. – Pedro Vasquez permanecia sério e o único que falava. Vez ou outra um cavalo relinchava, mas o resto era apenas o toque do vento.
- Senhor Pedro Vasquez – Antonio foi cerimonioso, apesar de o homem rude ter a mesma idade que a sua. – Desça do cavalo, vamos entrar que preparo um café...
- Qual o seu nome?
- Antonio Dias.
- Muito bem Antonio Dias. Não tenho tempo a perder com café e conversa. Vim aqui para se certificar de que você e sua família saiam das terras da Companhia.
- Já disse que estas terras são minhas. Tenho documentos que comprovam isso.
Nesse momento Pedro Vasquez fez um sinal com as mãos. Os outros cavaleiros se adiantaram e pisaram nas espadas-douradas, deixando-as caídas e amassadas.
- Entre na casa, pegue sua esposa e filho se tiver, e não volte mais.
- Eu posso ir até o escritório da Companhia...
- Você não tem tempo Antonio Dias. As ordens que recebi são para ser cumpridas. Agora! – a última palavra soou mais alta, como uma ordem expressa.
- Se eu sair daqui, para onde vou?
- É problema seu.
- Eu tenho mulher e três filhos, senhor Vasquez. Não posso sair sem um lugar para acomodá-los.
Novamente Pedro Vasquez levantou a mão e agora apareceram armas nas mãos dos cavaleiros. Antonio ficou assustado. Apertou ainda mais a mão sobre a alça do balde. Brotou desespero em seu rosto.
- A Companhia vai dar outra casa e terras?
- Acho que você está surdo Dias! – Neste momento Vasquez pegou sua espingarda e deu um tiro, acertando no balde que Antonio segurava. Assim que a explosão fez um buraco, escorrendo o leite pelo buraco da arma, Antonio soltou o balde, o leite derramando sobre o capim crescido.
- Entre nesta merda de casa, pegue suas coisas, ponha numa carroça e vá embora. Não tenho o dia todo para expulsa-lo daqui.
Antonio teve ímpeto de saltar sobre o cavalo de Pedro Vasquez e dar-lhe uma boa lição. Mas, com certeza, os outros cavaleiros atirariam nele antes. Pensou na esposa e nos filhos, que deviam estar desesperados no interior da casa. Soltou um olhar de desaprovação para o senhor Vasquez e entrou na casa.
Encontrou a esposa e os filhos chorando. Bárbara estava no colo de Sibila. Os dois meninos próximos da mãe, com lágrimas e medo em seus rostos.
- O que vamos fazer? – perguntou Sibila. Mas Antonio não respondeu de imediato. Foi até o quarto, pegou suas duas armas. Deu uma ao filho mais velho e ficou com a outra.
- Vamos resistir. Eles não podem nos tirar daqui!
- Eu sabia que essa estrada de ferro era do demônio. Eu sabia!
- Não é hora para isso, mulher. Pare de chorar e faça com que Bárbara se cale.
Antonio não tratava a família desse modo. Mas ele não tinha tempo para cortesia e precisava agir. Ficou alguns minutos aguardando.
- Pai... – Mateus quis saber algo do pai, porém Antonio mandou que ele se calasse.
- Agora não Mateus. Preciso de silêncio para ouvir o que eles planejam.
- Querem nos matar – Sibila disse a frase num desespero. – Vamos embora Antonio. Depois a gente volta.
- Não e não! Se a Companhia quer minhas terras tem que pagar. Como o governo pode dar terras dos outros para a Companhia? Isso é coisa de jagunço ou de algum fazendeiro. Tá errado.
- Antonio, quantos eles são?
- Não sei. Mas um bando grande.
Ouviram barulho. Antonio notou que os cavalos estavam se movimentando. Suas janelas eram de madeira, portanto não conseguiam ver o que se passava. Mas algumas gretas entre as tábuas da parede faziam com que enxergasse. Pouca coisa, mas Antonio viu que os cavalos com seus cavaleiros estavam bem próximos das paredes da casa.
- Pai? – gritou Davi, chorando.
Ouviram um barulho forte. Houve uma batida numa das paredes da casa e a voz de Pedro Vasquez.
- Seu tempo acabou Antonio Dias. Ou você sai agora com suas coisas ou invadimos sua casa.
- Estou armado.
Antonio a esposa e filhos ouviram uma risada estridente. Depois vários cavaleiros riam junto com Vasquez.
Num minuto posterior, o silêncio tomou conta. Antonio sentiu apenas o vento cortar seu rosto pelas frestas. Olhou para a esposa, deu um meio sorriso, mas logo a seguir seu coração parecia querer pular fora de seu corpo, quando Mateus anunciou num grito.
- Fogo!
O inferno havia começado ali mesmo, pensou Sibila. Ela agarrou ainda mais seu bebê, que iniciou um choro contínuo. Foi até o quarto, juntou algumas coisas, ajudada por Davi que a seguia por todo lado. Mateus e Antonio tentaram apagar com panos e cobertores trazidos por Sibila. O relincho do cavalo se fez ouvir, como as galinhas se debatendo e os porcos grunindo. O fogo tomou conta do telhado e de uma parede lateral. Antonio olhou em desespero para os filhos e depois para Sibila.
- Vamos sair pelos fundos – ordenou ele.
Antonio deu um chute na porta, que se abriu, caindo ao chão.
- Corram para o mato. Depressa. Não olhem para trás. Apenas corram.
Antonio viu alguns cavaleiros rindo, postados nos fundos de sua casa. Deram tiros para o alto. Cada tiro que davam, parecia acertar o coração de Antonio. Ele vendo sua família fugir de sua própria casa, assaltada e destruída de sua habitação. Depois de muitos metros adiante, já próximos da mata, Antonio, com lágrimas nos olhos, ainda correndo, olhou para trás, vendo que o fogo já tinha consumido sua casa. Os cavaleiros ainda permaneciam no local, provavelmente ficariam vigiando por algum tempo. Talvez dias até. Passou o braço com sua blusa de lã sobre o rosto, para limpar as lágrimas que não queriam ceder. Olhou para sua família, a sua frente, agora caminhando, com a dor de uma faca cravada em seu coração a expulsar o sangue devagar e sempre. Teve um impulso de voltar a sua casa, a sua roça, mas antes de entrar na mata, viu os cavaleiros destruindo toda sua plantação. Talvez fosse melhor se tivesse morrido, pensou Antonio. Ele e toda sua família.
Dois
Apesar do frio ameno que fazia, Pedro Sanches estava suando. Ele e outros trabalhadores estavam assentando dormentes na construção da estrada de ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande. Primeiro preparavam o terreno, depois assentavam as madeiras e por fim os trilhos. Um trabalho pesado e que rendia devido a grande quantidade de trabalhadores que estavam desenvolvendo o serviço. Sanches, como era conhecido, tinha pouco mais de 30 anos, alto, pele branca e sempre usava chapéu. Na verdade, era um costume de todos os homens usarem chapéu. O vento que estava brando, por vezes fazia com que Sanches sentisse um arrepio em seu corpo. Esperava não ficar doente, pois seria deixado de lado e não receberia o seu pagamento. Precisava de todos os réis que conseguisse, pois tinha mulher e filhos para sustentar. Eles não estavam ali com ele. Ficaram em São Paulo. Quando fora recrutado, Sanches disse ser solteiro e desimpedido de viajar. Precisa do serviço. Portanto, conversou com a mulher e disse que voltaria quando tivesse terminado o trabalho e com muito dinheiro.
Sanches soube que havia trabalhadores de várias partes do país. Segundo colegas seus de trabalho, falaram que até em prisões foram buscar homens fortes para que a estrada de ferro fosse construída. A Brazil Ralway prometia salários compensadores e corria o boato de que mais de 8 mil homens estavam agora assentando dormentes. Porém Sanches sabia que os trabalhos da construção da estrada de ferro haviam sido divididos em várias turmas. Cada uma dessas turmas tinha como responsável um taifeiro, ou feitor. Este taifeiro recebia um determinado trecho da ferrovia por empreitada e se responsabilizava pelo trabalho, pelos homens que ali estavam e pelo pagamento deles. Sanches sabia que esses taifeiros eram homens duros, malandros e muitas vezes maltratavam os trabalhadores.
Algumas estações, entre os trechos, eram construídas com armazéns anexos da Companhia. Desta forma, para os trabalhadores adquirirem os mantimentos necessários a sua sobrevivência, compravam nos armazéns da Companhia. Sanches já presenciou muita briga nesses armazéns, pois eles sempre roubavam dos que trabalhavam para embolsar ainda mais os cofres da Companhia. Claro, os trabalhadores não tinham voz. Havia homens bem armados, fazendo de corpo de segurança, para eliminar focos de descontentamento que vez ou outra apareciam. Mas as brigas maiores que Sanches presenciou foram por falta de pagamento. Nesses conflitos Sanches presenciou até homem ser degolado pelos homens da Companhia. Mas isso acontecia vez ou outra. Falava-se também que havia um foragido de outra guerra, Sanches não se lembrava de qual, mas parecia ser do sul do país, que agora tinha virado bandido e que estava roubando os comboios que vinham com o pagamento dos trabalhadores da estrada de ferro.
Passando a mão sobre a testa e o rosto, e depois retirando o chapéu, Sanches notou o sinal sonoro para o almoço. Havia um descanso de 30 minutos para comerem e descansar. Voltou o chapéu à cabeça. Passou suas mãos sobre a roupa suja. Apesar de Sanches ser um homem alto, não era gordo nem magro. Porém forte, com olhos verdes e a pele já queimado pelo vento e sol. Estava na região já um ano, quando começou a estrada. Na verdade, conversando com o rapaz que servia a comida, Sanches soube que oficialmente haviam iniciado a construção em 02 de janeiro de 1907, ou um ano e meio antes. Miro o rapaz da cozinha, sempre aberto a qualquer diálogo e, principalmente a homens fortes como Sanches, dava um jeito de colocar mais comida no prato e falar tanto como uma mulher.
- Posso fazer um curativo no seu braço – dizia Miro, tocando o braço de Sanches, com um leve filete e sangue, já seco, no local. Estavam sentados, após todos terem se servido. Além deles dois, havia outros ao redor.
- Também preciso de curativo Miro. – dizia outro trabalhador, dando risada.
- Não trato de curativo pequeno, se é que me entende.
- Ta com saudade de mulher não é mesmo Sanches? – perguntou um homem já mais velho, com vinco no rosto e queimado de sol.
- Da minha mulher.
- Então, posso conseguir uma quase por nada.
- Miro pode ser tua mulher de graça Sanches – interveio um trabalhador.
- Até amanhã Miro – enquanto Sanches se retirava, Miro foi junto do trabalhador que fez a graça, simulando careta e trejeitos. Virou-se de sopetão, caminhando para seu trabalho na cozinha, com as risadas dos homens atrás dele.
Enquanto caminhava ao setor de seu trabalho, Sanches olhava a mata ao lado daqueles trilhos que começavam a formar a ferrovia. Não entendia até então nada de ferrovia e agora sabia que ainda não conseguia compreender tudo. Havia muitas perguntas que ainda estavam presas em sua garganta, mas que não ousava nem perguntar para Miro. Havia muitas reclamações sobre a Companhia. Sabia que era uma companhia dos Estados Unidos. Sabe deus onde esses Estados Unidos ficava, pensava Sanches com seus botões. Mas essa companhia de nome difícil parece que conseguiu fazer um bom negócio com o governo. Sanches soube que a Companhia tinha ganhado do governo 30 quilômetros quadrados de terras para a construção da ferrovia. Certo dia o cozinheiro Miro havia explicado melhor.
- São 15 quilômetros de cada lado da estrada de ferro. São deles.
- Mas deve ter gente morando ali, com casa e plantação.
- Ouvi dizer, Sanches, que o governo não quer saber. Deu para a Companhia, ou a Companhia exigiu como pagamento parece. Mas ainda vou saber direitinho essa história.
- E o governo dá novas terras e casas para essas pessoas que estão nestes 15 quilômetros dos dois lados?
- Dá nada! O governo disse para a Companhia expulsar eles e que eles se virassem.
- Não é justo.
- E o que é justo Sanches?
A última pergunta de Miro parecia ainda tocar em sua mente. A justiça ali parecia não existir. Ganhavam um bom dinheiro pelo trabalho. O melhor trabalhador ganhava até 4 mil réis por dia. Sanches ainda não tinha alcançado esse estágio, mas em breve pretendia ganhar essa quantia. Miro tinha lhe contado que ninguém da região pagava tanto por algum trabalho. Em geral, segundo Miro contou a Sanches, essa quantia ficava em trinta por cento menores que os trabalhadores da Companhia recebiam.
Enfim, o trabalho teve início. Sanches pegou um dormente com suas mãos grossas e calejadas. Ninguém usava luvas. A Companhia não fornecia e mesmo que o fizesse, refletiu Sanches, ninguém as usaria. Não sabiam utiliza-las e também atrapalharia mais o serviço do que ajudaria.
- Isso aqui não ta no nível. – Havia dito Johannes, um rapaz jovem, não mais que 18 anos. Ele trabalhava ao lado de Sanches, como seu companheiro, já que muitas vezes era preciso ter preciso ter alguém para ficar no outro lado do trilho para que o assentamento fosse feito corretamente. Todo o trabalho de assentar dormente e trilhos dependiam de muitos homens. Ninguém trabalhava sozinho. Mas Johannes foi designado como sendo seu par no trabalho. Conversava pouco. De pele morena, com um chapéu pequeno, porém com braços fortes e dentes brancos. Sanches soube que ele vinha de um lugar distante. Não sabia se tinha família ou se já estava casado. Mas Sanches já conseguiu tirar umas risadas de Johannes devido seu sotaque, que parecia ser nordestino.
- O pessoal que cuidou das pedras anda fazendo um serviço de porco.
- Veja Sanches, parece que alguns metros adiante estão abaixo do restante.
Os dois homens pararam o que estavam fazendo e foram olhar se era mesmo isso. Levaram consigo o nível e uma enxada.
- O que está acontecendo? – quis saber o capataz, um homem na faixa dos 50 anos, com uma barriga saliente.
- Senhor Martim, acho que esse terreno está alguns centímetros fora do nível. Veja o senhor mesmo.
- Isso não é trabalho seu Sanches.
- Mas os dormentes vão ficar fora de nível.
- Volte ao seu trabalho.
Sanches sabia que não adiantava discutir. Já houve em outras ocasiões briga e desentendimentos quanto a algum aspecto da obra. Johannes já estava com o dormente em mãos e não quis saber de discutir. Sanches sabia que Martim até tinha razão. Cada trabalhador queria ser um engenheiro com opiniões e discordando disso ou daquilo. Mas aquela inclinação até cego veria.
No final daquele dia, uma sexta-feira, haveria o pagamento. Um dia bom, já que o final de semana chegava com dinheiro e descanso. O tempo da escravidão havia acabado. Agora os trabalhadores descansavam no final da tarde de sábado e o domingo inteiro. Sempre havia alguém na obra, mas apenas para averiguações e muito pouco do trabalho pesado.
Ao anoitecer, no acampamento, todos os trabalhadores formavam fila para assinar o recibo e receber o seu dinheiro. Quando chegou a vez de Sanches, o capaz Martim falou:
- No próximo pagamento você ganhará como profissional.
- Obrigado senhor Martim.
Sanches explodiu por dentro. Ganharia o salário de um trabalhador profissional. E Sanches sabia por quê. Depois que ele e Johannes verificaram o desnível do terreno para o assentamento dos dormentes, Martim chamou o pessoal que havia feito o serviço e pediu que consertassem. Outros trabalhadores fariam o serviço assim mesmo, com o desnível do terreno. Mas depois dos testes que faziam com a máquina de trilho, tinham que arrebentar o que já tinha sido construído e refazer o serviço.
Sanches pegou a maior parte do dinheiro e colocou numa meia entre suas roupas de baixo. Sabia que havia muitos assaltos e roubos nessas ocasiões. Deixou algumas notas no seu bolso. Foi com Johannes ao mercado e comprou umas coisas para beliscar e também pagou para seu colega de trabalho uma bebida.
- O que você faz com seu dinheiro, Sanches?
- Guardo Johannes.
- Não tem medo de roubo?
- Todos têm medo de roubo Johannes. Mas guardo o meu num lugar inacessível para os outros. E você Johannes. Manda para alguém ou guarda?
- Guardo também. Mas não sei onde esconder direito o dinheiro.
- Bem, eu poderia lhe dar umas sugestões.
- Então fale Sanches.
Os dois homens já estavam fora da mercearia e estavam caminhando para o acampamento. A noite estava um breu. Eles viam homens caminhando para o lugarejo mais próximo. Quem sabe Calmon. Até os convidaram. Com certeza estavam atrás de mulher, bebida e encrenca, ponderou Sanches.
- É melhor deixar sempre com você. Não há lugar seguro, sabe?
Johannes meneou a cabeça, não entendendo o que Sanches estava dizendo.
- Os bolsos é o primeiro lugar que os ladrões procuram. Talvez na meia da bota seria um bom lugar.
- É gostei. Mas vai sujar.
- Enleia o dinheiro num plástico Johannes. Assim não suja e nem molha nos dias de chuva. Mas também podia costurar um bolso na parte interna da calça. Um bom lugar também.
- E você guarda assim seu dinheiro Sanches?
A pergunta de Johannes o deixou intrigado. Poderia confiar em Johannes? Não sabia. Ou melhor, pouca coisa sabia a respeito daquele rapaz jovem e ambicioso. Se ele não tinha confiado nele para contar mais detalhes sobre sua vida, Sanches também imaginou que não poderia confiar inteiramente nele.
- Isso e outras mais. Mas agora quero descansar. Você vai pra cidade?
- Não. Acho que vou beber mais uma cerveja.
- Não exagere Johannes. Você é fraco para bebidas.
- Como você sabe?
- Basta observar ao redor. Boa noite.
Sanches foi para sua barraca, deixando o rapaz no escuro e sozinho. Os galpões eram improvisados ao longo da ferrovia, já que era o tipo de trabalho que todo dia estava mais distante do dormitório. Era um barracão grande. Alguns de lona, outros de madeira, que depois serviriam de depósito de material para a Companhia. Ou simplesmente abandonados e depois algum trabalhador o utilizava como moradia, até que um dia a Companhia vinha e tomava de volta que o que lhe pertencia. O interior do barracão estava com pouca gente, já que muitos ficariam fora a noite toda, gastando todo o dinheiro que haviam ganhado. Sanches foi logo se deitar. Sua cama ficava num canto e suas poucas coisas debaixo da cama ou sobre ela. Seu corpo grande rangeu o colchão fino de palha de milho sobre as tábuas que o sustentavam. Sentiu-se melhor, depois que tirou as botas e a roupa de trabalho. Dormia apenas com uma ceroula e nos dias mais frios punha um casaco velho. Não gostava muito de roupa sobre ele, principalmente cobertores. Logo fechou os olhos e pensou naquilo que o trabalhador havia falado sobre ele sentir falta de mulher. O rapaz tinha razão, refletiu Sanches. Ele precisava de uma mulher logo. Já não estava se agüentando em si de aflição e desejoso de possuir uma carne jovem e tenra. Ele soltou uma risada enquanto seus pensamentos se devaneavam sobre como o corpo possuía desejos que às vezes lhe pareciam incontroláveis. Sanches precisava mostrar-se fiel a esposa. O que nunca foi. Ele sabia que não era o santo e o homem correto como as pessoas pensavam dele. Mas tinha que mostrar o tempo todo isso para os trabalhadores, mesmo que ele fosse completamente diferente. Logo Sanches adormeceu, com seu sexo em estado de ereção. Não teve sonhos, porém no meio da noite fora despertado por barulho e tiros. Ele tentou vestir sua roupa, mas foi contido. Jogado sobre o colchão, alguém sobre ele, com um revólver apontado para sua cabeça, disse:
- Onde está seu dinheiro?
Três
Sanches soube que havia trabalhadores de várias partes do país. Segundo colegas seus de trabalho, falaram que até em prisões foram buscar homens fortes para que a estrada de ferro fosse construída. A Brazil Ralway prometia salários compensadores e corria o boato de que mais de 8 mil homens estavam agora assentando dormentes. Porém Sanches sabia que os trabalhos da construção da estrada de ferro haviam sido divididos em várias turmas. Cada uma dessas turmas tinha como responsável um taifeiro, ou feitor. Este taifeiro recebia um determinado trecho da ferrovia por empreitada e se responsabilizava pelo trabalho, pelos homens que ali estavam e pelo pagamento deles. Sanches sabia que esses taifeiros eram homens duros, malandros e muitas vezes maltratavam os trabalhadores.
Algumas estações, entre os trechos, eram construídas com armazéns anexos da Companhia. Desta forma, para os trabalhadores adquirirem os mantimentos necessários a sua sobrevivência, compravam nos armazéns da Companhia. Sanches já presenciou muita briga nesses armazéns, pois eles sempre roubavam dos que trabalhavam para embolsar ainda mais os cofres da Companhia. Claro, os trabalhadores não tinham voz. Havia homens bem armados, fazendo de corpo de segurança, para eliminar focos de descontentamento que vez ou outra apareciam. Mas as brigas maiores que Sanches presenciou foram por falta de pagamento. Nesses conflitos Sanches presenciou até homem ser degolado pelos homens da Companhia. Mas isso acontecia vez ou outra. Falava-se também que havia um foragido de outra guerra, Sanches não se lembrava de qual, mas parecia ser do sul do país, que agora tinha virado bandido e que estava roubando os comboios que vinham com o pagamento dos trabalhadores da estrada de ferro.
Passando a mão sobre a testa e o rosto, e depois retirando o chapéu, Sanches notou o sinal sonoro para o almoço. Havia um descanso de 30 minutos para comerem e descansar. Voltou o chapéu à cabeça. Passou suas mãos sobre a roupa suja. Apesar de Sanches ser um homem alto, não era gordo nem magro. Porém forte, com olhos verdes e a pele já queimado pelo vento e sol. Estava na região já um ano, quando começou a estrada. Na verdade, conversando com o rapaz que servia a comida, Sanches soube que oficialmente haviam iniciado a construção em 02 de janeiro de 1907, ou um ano e meio antes. Miro o rapaz da cozinha, sempre aberto a qualquer diálogo e, principalmente a homens fortes como Sanches, dava um jeito de colocar mais comida no prato e falar tanto como uma mulher.
- Posso fazer um curativo no seu braço – dizia Miro, tocando o braço de Sanches, com um leve filete e sangue, já seco, no local. Estavam sentados, após todos terem se servido. Além deles dois, havia outros ao redor.
- Também preciso de curativo Miro. – dizia outro trabalhador, dando risada.
- Não trato de curativo pequeno, se é que me entende.
- Ta com saudade de mulher não é mesmo Sanches? – perguntou um homem já mais velho, com vinco no rosto e queimado de sol.
- Da minha mulher.
- Então, posso conseguir uma quase por nada.
- Miro pode ser tua mulher de graça Sanches – interveio um trabalhador.
- Até amanhã Miro – enquanto Sanches se retirava, Miro foi junto do trabalhador que fez a graça, simulando careta e trejeitos. Virou-se de sopetão, caminhando para seu trabalho na cozinha, com as risadas dos homens atrás dele.
Enquanto caminhava ao setor de seu trabalho, Sanches olhava a mata ao lado daqueles trilhos que começavam a formar a ferrovia. Não entendia até então nada de ferrovia e agora sabia que ainda não conseguia compreender tudo. Havia muitas perguntas que ainda estavam presas em sua garganta, mas que não ousava nem perguntar para Miro. Havia muitas reclamações sobre a Companhia. Sabia que era uma companhia dos Estados Unidos. Sabe deus onde esses Estados Unidos ficava, pensava Sanches com seus botões. Mas essa companhia de nome difícil parece que conseguiu fazer um bom negócio com o governo. Sanches soube que a Companhia tinha ganhado do governo 30 quilômetros quadrados de terras para a construção da ferrovia. Certo dia o cozinheiro Miro havia explicado melhor.
- São 15 quilômetros de cada lado da estrada de ferro. São deles.
- Mas deve ter gente morando ali, com casa e plantação.
- Ouvi dizer, Sanches, que o governo não quer saber. Deu para a Companhia, ou a Companhia exigiu como pagamento parece. Mas ainda vou saber direitinho essa história.
- E o governo dá novas terras e casas para essas pessoas que estão nestes 15 quilômetros dos dois lados?
- Dá nada! O governo disse para a Companhia expulsar eles e que eles se virassem.
- Não é justo.
- E o que é justo Sanches?
A última pergunta de Miro parecia ainda tocar em sua mente. A justiça ali parecia não existir. Ganhavam um bom dinheiro pelo trabalho. O melhor trabalhador ganhava até 4 mil réis por dia. Sanches ainda não tinha alcançado esse estágio, mas em breve pretendia ganhar essa quantia. Miro tinha lhe contado que ninguém da região pagava tanto por algum trabalho. Em geral, segundo Miro contou a Sanches, essa quantia ficava em trinta por cento menores que os trabalhadores da Companhia recebiam.
Enfim, o trabalho teve início. Sanches pegou um dormente com suas mãos grossas e calejadas. Ninguém usava luvas. A Companhia não fornecia e mesmo que o fizesse, refletiu Sanches, ninguém as usaria. Não sabiam utiliza-las e também atrapalharia mais o serviço do que ajudaria.
- Isso aqui não ta no nível. – Havia dito Johannes, um rapaz jovem, não mais que 18 anos. Ele trabalhava ao lado de Sanches, como seu companheiro, já que muitas vezes era preciso ter preciso ter alguém para ficar no outro lado do trilho para que o assentamento fosse feito corretamente. Todo o trabalho de assentar dormente e trilhos dependiam de muitos homens. Ninguém trabalhava sozinho. Mas Johannes foi designado como sendo seu par no trabalho. Conversava pouco. De pele morena, com um chapéu pequeno, porém com braços fortes e dentes brancos. Sanches soube que ele vinha de um lugar distante. Não sabia se tinha família ou se já estava casado. Mas Sanches já conseguiu tirar umas risadas de Johannes devido seu sotaque, que parecia ser nordestino.
- O pessoal que cuidou das pedras anda fazendo um serviço de porco.
- Veja Sanches, parece que alguns metros adiante estão abaixo do restante.
Os dois homens pararam o que estavam fazendo e foram olhar se era mesmo isso. Levaram consigo o nível e uma enxada.
- O que está acontecendo? – quis saber o capataz, um homem na faixa dos 50 anos, com uma barriga saliente.
- Senhor Martim, acho que esse terreno está alguns centímetros fora do nível. Veja o senhor mesmo.
- Isso não é trabalho seu Sanches.
- Mas os dormentes vão ficar fora de nível.
- Volte ao seu trabalho.
Sanches sabia que não adiantava discutir. Já houve em outras ocasiões briga e desentendimentos quanto a algum aspecto da obra. Johannes já estava com o dormente em mãos e não quis saber de discutir. Sanches sabia que Martim até tinha razão. Cada trabalhador queria ser um engenheiro com opiniões e discordando disso ou daquilo. Mas aquela inclinação até cego veria.
No final daquele dia, uma sexta-feira, haveria o pagamento. Um dia bom, já que o final de semana chegava com dinheiro e descanso. O tempo da escravidão havia acabado. Agora os trabalhadores descansavam no final da tarde de sábado e o domingo inteiro. Sempre havia alguém na obra, mas apenas para averiguações e muito pouco do trabalho pesado.
Ao anoitecer, no acampamento, todos os trabalhadores formavam fila para assinar o recibo e receber o seu dinheiro. Quando chegou a vez de Sanches, o capaz Martim falou:
- No próximo pagamento você ganhará como profissional.
- Obrigado senhor Martim.
Sanches explodiu por dentro. Ganharia o salário de um trabalhador profissional. E Sanches sabia por quê. Depois que ele e Johannes verificaram o desnível do terreno para o assentamento dos dormentes, Martim chamou o pessoal que havia feito o serviço e pediu que consertassem. Outros trabalhadores fariam o serviço assim mesmo, com o desnível do terreno. Mas depois dos testes que faziam com a máquina de trilho, tinham que arrebentar o que já tinha sido construído e refazer o serviço.
Sanches pegou a maior parte do dinheiro e colocou numa meia entre suas roupas de baixo. Sabia que havia muitos assaltos e roubos nessas ocasiões. Deixou algumas notas no seu bolso. Foi com Johannes ao mercado e comprou umas coisas para beliscar e também pagou para seu colega de trabalho uma bebida.
- O que você faz com seu dinheiro, Sanches?
- Guardo Johannes.
- Não tem medo de roubo?
- Todos têm medo de roubo Johannes. Mas guardo o meu num lugar inacessível para os outros. E você Johannes. Manda para alguém ou guarda?
- Guardo também. Mas não sei onde esconder direito o dinheiro.
- Bem, eu poderia lhe dar umas sugestões.
- Então fale Sanches.
Os dois homens já estavam fora da mercearia e estavam caminhando para o acampamento. A noite estava um breu. Eles viam homens caminhando para o lugarejo mais próximo. Quem sabe Calmon. Até os convidaram. Com certeza estavam atrás de mulher, bebida e encrenca, ponderou Sanches.
- É melhor deixar sempre com você. Não há lugar seguro, sabe?
Johannes meneou a cabeça, não entendendo o que Sanches estava dizendo.
- Os bolsos é o primeiro lugar que os ladrões procuram. Talvez na meia da bota seria um bom lugar.
- É gostei. Mas vai sujar.
- Enleia o dinheiro num plástico Johannes. Assim não suja e nem molha nos dias de chuva. Mas também podia costurar um bolso na parte interna da calça. Um bom lugar também.
- E você guarda assim seu dinheiro Sanches?
A pergunta de Johannes o deixou intrigado. Poderia confiar em Johannes? Não sabia. Ou melhor, pouca coisa sabia a respeito daquele rapaz jovem e ambicioso. Se ele não tinha confiado nele para contar mais detalhes sobre sua vida, Sanches também imaginou que não poderia confiar inteiramente nele.
- Isso e outras mais. Mas agora quero descansar. Você vai pra cidade?
- Não. Acho que vou beber mais uma cerveja.
- Não exagere Johannes. Você é fraco para bebidas.
- Como você sabe?
- Basta observar ao redor. Boa noite.
Sanches foi para sua barraca, deixando o rapaz no escuro e sozinho. Os galpões eram improvisados ao longo da ferrovia, já que era o tipo de trabalho que todo dia estava mais distante do dormitório. Era um barracão grande. Alguns de lona, outros de madeira, que depois serviriam de depósito de material para a Companhia. Ou simplesmente abandonados e depois algum trabalhador o utilizava como moradia, até que um dia a Companhia vinha e tomava de volta que o que lhe pertencia. O interior do barracão estava com pouca gente, já que muitos ficariam fora a noite toda, gastando todo o dinheiro que haviam ganhado. Sanches foi logo se deitar. Sua cama ficava num canto e suas poucas coisas debaixo da cama ou sobre ela. Seu corpo grande rangeu o colchão fino de palha de milho sobre as tábuas que o sustentavam. Sentiu-se melhor, depois que tirou as botas e a roupa de trabalho. Dormia apenas com uma ceroula e nos dias mais frios punha um casaco velho. Não gostava muito de roupa sobre ele, principalmente cobertores. Logo fechou os olhos e pensou naquilo que o trabalhador havia falado sobre ele sentir falta de mulher. O rapaz tinha razão, refletiu Sanches. Ele precisava de uma mulher logo. Já não estava se agüentando em si de aflição e desejoso de possuir uma carne jovem e tenra. Ele soltou uma risada enquanto seus pensamentos se devaneavam sobre como o corpo possuía desejos que às vezes lhe pareciam incontroláveis. Sanches precisava mostrar-se fiel a esposa. O que nunca foi. Ele sabia que não era o santo e o homem correto como as pessoas pensavam dele. Mas tinha que mostrar o tempo todo isso para os trabalhadores, mesmo que ele fosse completamente diferente. Logo Sanches adormeceu, com seu sexo em estado de ereção. Não teve sonhos, porém no meio da noite fora despertado por barulho e tiros. Ele tentou vestir sua roupa, mas foi contido. Jogado sobre o colchão, alguém sobre ele, com um revólver apontado para sua cabeça, disse:
- Onde está seu dinheiro?
Três
- Pra onde a gente vai marido? – perguntou Sibila.
Antonio Dias estava sentado numa clareira, com um graveto nas mãos e o chapéu ao seu lado. Os dois meninos estavam brincando perto de uma árvore e a mulher segurava a filha no colo. A pergunta de Sibila precisava de uma resposta, mas Antonio não sabia qual a resposta dar para a mulher e muito menos para si mesmo. O seu mundo havia acabado! Se ele estivesse sozinho não haveria problema, mas ele tinha três filhos e uma mulher para cuidar. O dia já estava no seu final. Andaram mata adentro por alguns quilômetros, até a mulher se cansar e os filhos pedirem por água e comida. Encontraram um riacho onde mataram a sede. Comeram algumas frutas e Antonio conseguiu matar um coelho. Acendeu o fogo com os fósforos que abasteciam seu palheiro e assaram o coelho. Foi pouco pelo que já tinham, mas naquele momento era o que podia dispor.
Sibila conseguiu reunir, antes de a casa arder em chamas, algumas roupas num lençol. Com a saída do sol e a mata ao seu redor, o frio parecia aumentar de tamanho. Ele poderia agüentar, pensou Antonio, mas seus filhos não saberiam até quando poderiam viver da privação de roupas quentes e comida.
- Vamos passar a noite aqui. – determinou ele.
- No relento?
- Mateus? – chamou Antonio pelo filho mais velho. Ele pegou seu facão que estava na bota, quando calçou pela manhã. Andou alguns metros na mata, trouxe uns tocos de árvores menores e algumas folhas de palmeiras. Fez uma pequena barraca improvisada com esse material e colocou a família ali.
- E você Antonio? – perguntou a mulher.
- Vou ficar aqui fora vigiando. Além dos soldados, pode haver algum bicho por aqui.
- Não pensei nisso. Mas você precisa dormir. Como vai fazer amanhã?
- Deixe o Mateus dormir um pouco. Depois chamo ele para ficar uma hora aqui de vigia.
Ela concordou. Antonio estava agora com seu chapéu, para que o sereno não caísse direto sobre sua cabeça. Estava com um casaco que ainda agüentaria o frio por algum tempo. Mas ele sabia que sem se movimentar, o corpo ficaria com a temperatura menor, o frio bateria também sobre ele. Ouvia uivos e vários sons vindos da floresta escura e sem qualquer claridade. Ainda alguns últimos galhos crepitavam na fogueira que haviam acendido. Mas Antonio sabia que fogo no meio do escuro poderia atrair algum homem perdido ou mesmo os muitos ladrões que rondavam sempre na mata.
O tempo passava devagar. Ele já estava se acostumando com o barulho da mata e ficou contente por ver sua família que dormia na tranqüilidade momentânea. Porém, seus pensamentos retornavam a todo instante naqueles homens que invadiram sua casa e expulsaram sua família. Tocaram fogo na casa, destruindo suas plantações e nem deu tempo de ver o que havia acontecido com seus animais. Ele estava pensando em retornar e reconstruir. Seria uma possibilidade. Mas o medo e a forma como o expulsaram, sem dar chances para eles arrumarem suas coisas, os homens a mando da Companhia não queriam saber para onde ele fosse. Não era justo! Antonio queria gritar e protestar. Poderia ir até a Companhia e pedir que dessem a ele novas terras e construíssem uma nova casa. Mas sabia que a possibilidade disso acontecer eram nulas.
Antonio, vez ou outra, já tinha ouvido falar que aquelas terras o governo tinha dado para a Companhia que estava construindo a estrada de ferro. Mas nunca acreditou. Nem mesmo levou a sério quando alguém se referia na forma como haviam expulsado alguém. Sempre achava que era mais uma história, das tantas, pensou ele, que sempre contavam naquele sertão de Deus. Mas agora essa história estava acontecendo com ele. Uma realidade distante da qual sempre imaginou para si e sua família.
O sono se apossou de Antonio, apesar do frio que ficou mais forte na madrugada. Ele foi desperto pela manhã pelo filho Mateus. Nos primeiros segundos não conseguiu compreender onde estava ou que estava se passando. Mas logo a seguir o turbilhão da revolta se apossou de Antonio novamente. Não havia leite, pão ou café. Não tinha qualquer alimento que pudesse oferecer aos filhos e a esposa. Ouviu uma tosse. Viu a esposa aconchegar a filha pequena em seu colo, tentando fazer com que a menina parecesse de chorar. Havia alguma névoa na mata. Tudo estava úmido e o frio parecia ser maior naquele momento.
Antonio chamou o filho Mateus e providenciavam lenha seca. A seguir conseguiram ascender o fogo e a família ficou reunida à volta das chamas. Antonio foi com o filho pela mata procurar alimento. Encontrou um pé de banana. Colhei algumas frutas, mas estas ainda não estavam maduras. Mesmo assim poderiam ser mastigadas ou cozidas. Se houvesse uma panela para isso, pensou.. Depois prosseguiu com o filho, encontrando outras frutas. Verdes ou maduras demais. Voltou com o filho para o acampamento improvisado. Os raios de sol tentavam entrar pelas árvores dentro da floresta. Ainda tímidos, tinham que transpor também a névoa daquela manhã de inverno. Antonio tentou conter as lágrimas. Num dia desses, poderia trabalhar muito em suas terras. Mas agora não as tinha e se lamentava por isso.
Ofereceu aos membros da família o que tinha conseguido como alimento. Depois, junto com os dois filhos, juntou o que possuíam, e seguiram pela mata. Sem destino aparente. Mas Antonio começava a delinear um objetivo. Tinha algum conhecimento da mata e onde ela daria em seu final. Encontrariam uma estrada secundária. Seguiriam mais dois dias de viagem e encontrariam a estrada principal onde havia alguns colonos com suas fazendas. Encontraria algum conhecido seu e pediria abrigo até decidir o que faria depois. Parava vez ou outra na caminhada, pois a mulher se sentia cansada. Apesar de ela também ter trabalhado na roça e ser forte, havia um misto de cansaço físico e mental. Além disso, sua filha os atrasava. Todos a carregavam por algum tempo. Antonio tinha que seguir na frente, já que precisava desbastar a mata para abrir caminho para passarem.
No final da tarde conseguiram chegar a estrada secundária. O que se via lembrava pouco de uma estrada. Era, sim, um corredor estreito entre a mata, onde viajantes cortavam caminho, normalmente montados em cavalos. Mas Antonio sabia que seria melhor andar por ali do que seguir sem rumo pela mata fechada e cheia de perigos maiores. O sol já estava se escondendo e a luz do dia daria lugar ao breu da noite. Teria que pensar onde acampariam com segurança naquela noite. Antonio fitava os dois lados. Seguiriam para o norte. Eles andavam alguns metros para poder encontrar uma clareira ou quem sabe uma caverna de pedras. Mas a seguir o medo novamente tomou conta de Antonio. Ele e sua família ouviram cavalos trotando e em alta velocidade. Poderiam ser os soldados. Mas agora eles não tinham nada mais a perder, a não ser a vida. Antonio entrou na mata. A mulher e os filhos o seguiram com dificuldade. Mas não tiveram sorte. Ouviram o silêncio das patas dos cavalos, porém vozes de homens dando ordens.
Antonio parou e um frio na espinha o percorreu quando seu filho Davi chamou por ele. Voltando pela mata cheia de empecilhos, constatou que um homem tinha agarrado seu filho e este se debatia. Viu dois outros homens alcançados sua mulher. Esta caiu e sua filha de dois anos gritou quando atingiu o chão. Antonio chegou perto, olhou para os dois homens e se atirou sobre eles. Conseguiu atingi-los, já que estavam próximos. Os três homens caíram e começaram uma luta corporal. Antonio fora dominado rapidamente, já que havia brigado pouco na vida. Logo os dois homens pegaram o cinto de suas calças e amarravam os braços e pernas de Antonio. Este se debatia, vendo que aqueles homens pareciam ter prazer naquilo. Antonio ouviu o choro da filha e um grito de Mateus. Tentou enxergar alguma coisa, mas o mato não deixava. Aqueles homens não estavam mais ali com ele. Antonio sentiu novamente seu coração ficar apertado e lágrimas rolavam de seus olhos. Ouviu os filhos gritarem e o choro da filha persistia. Debatendo-se, Antonio feriu seu rosto numa pedra e num soco que havia recebido de um daqueles seus algozes. Parou de respirar por alguns segundos quando ouviu a voz de sua mulher.
- Deixe meus filhos em paz.
Depois um homem falou.
- Não queremos seus filhos. Queremos você.
Antonio soltou um grito na noite que se avizinhava.
Antonio Dias estava sentado numa clareira, com um graveto nas mãos e o chapéu ao seu lado. Os dois meninos estavam brincando perto de uma árvore e a mulher segurava a filha no colo. A pergunta de Sibila precisava de uma resposta, mas Antonio não sabia qual a resposta dar para a mulher e muito menos para si mesmo. O seu mundo havia acabado! Se ele estivesse sozinho não haveria problema, mas ele tinha três filhos e uma mulher para cuidar. O dia já estava no seu final. Andaram mata adentro por alguns quilômetros, até a mulher se cansar e os filhos pedirem por água e comida. Encontraram um riacho onde mataram a sede. Comeram algumas frutas e Antonio conseguiu matar um coelho. Acendeu o fogo com os fósforos que abasteciam seu palheiro e assaram o coelho. Foi pouco pelo que já tinham, mas naquele momento era o que podia dispor.
Sibila conseguiu reunir, antes de a casa arder em chamas, algumas roupas num lençol. Com a saída do sol e a mata ao seu redor, o frio parecia aumentar de tamanho. Ele poderia agüentar, pensou Antonio, mas seus filhos não saberiam até quando poderiam viver da privação de roupas quentes e comida.
- Vamos passar a noite aqui. – determinou ele.
- No relento?
- Mateus? – chamou Antonio pelo filho mais velho. Ele pegou seu facão que estava na bota, quando calçou pela manhã. Andou alguns metros na mata, trouxe uns tocos de árvores menores e algumas folhas de palmeiras. Fez uma pequena barraca improvisada com esse material e colocou a família ali.
- E você Antonio? – perguntou a mulher.
- Vou ficar aqui fora vigiando. Além dos soldados, pode haver algum bicho por aqui.
- Não pensei nisso. Mas você precisa dormir. Como vai fazer amanhã?
- Deixe o Mateus dormir um pouco. Depois chamo ele para ficar uma hora aqui de vigia.
Ela concordou. Antonio estava agora com seu chapéu, para que o sereno não caísse direto sobre sua cabeça. Estava com um casaco que ainda agüentaria o frio por algum tempo. Mas ele sabia que sem se movimentar, o corpo ficaria com a temperatura menor, o frio bateria também sobre ele. Ouvia uivos e vários sons vindos da floresta escura e sem qualquer claridade. Ainda alguns últimos galhos crepitavam na fogueira que haviam acendido. Mas Antonio sabia que fogo no meio do escuro poderia atrair algum homem perdido ou mesmo os muitos ladrões que rondavam sempre na mata.
O tempo passava devagar. Ele já estava se acostumando com o barulho da mata e ficou contente por ver sua família que dormia na tranqüilidade momentânea. Porém, seus pensamentos retornavam a todo instante naqueles homens que invadiram sua casa e expulsaram sua família. Tocaram fogo na casa, destruindo suas plantações e nem deu tempo de ver o que havia acontecido com seus animais. Ele estava pensando em retornar e reconstruir. Seria uma possibilidade. Mas o medo e a forma como o expulsaram, sem dar chances para eles arrumarem suas coisas, os homens a mando da Companhia não queriam saber para onde ele fosse. Não era justo! Antonio queria gritar e protestar. Poderia ir até a Companhia e pedir que dessem a ele novas terras e construíssem uma nova casa. Mas sabia que a possibilidade disso acontecer eram nulas.
Antonio, vez ou outra, já tinha ouvido falar que aquelas terras o governo tinha dado para a Companhia que estava construindo a estrada de ferro. Mas nunca acreditou. Nem mesmo levou a sério quando alguém se referia na forma como haviam expulsado alguém. Sempre achava que era mais uma história, das tantas, pensou ele, que sempre contavam naquele sertão de Deus. Mas agora essa história estava acontecendo com ele. Uma realidade distante da qual sempre imaginou para si e sua família.
O sono se apossou de Antonio, apesar do frio que ficou mais forte na madrugada. Ele foi desperto pela manhã pelo filho Mateus. Nos primeiros segundos não conseguiu compreender onde estava ou que estava se passando. Mas logo a seguir o turbilhão da revolta se apossou de Antonio novamente. Não havia leite, pão ou café. Não tinha qualquer alimento que pudesse oferecer aos filhos e a esposa. Ouviu uma tosse. Viu a esposa aconchegar a filha pequena em seu colo, tentando fazer com que a menina parecesse de chorar. Havia alguma névoa na mata. Tudo estava úmido e o frio parecia ser maior naquele momento.
Antonio chamou o filho Mateus e providenciavam lenha seca. A seguir conseguiram ascender o fogo e a família ficou reunida à volta das chamas. Antonio foi com o filho pela mata procurar alimento. Encontrou um pé de banana. Colhei algumas frutas, mas estas ainda não estavam maduras. Mesmo assim poderiam ser mastigadas ou cozidas. Se houvesse uma panela para isso, pensou.. Depois prosseguiu com o filho, encontrando outras frutas. Verdes ou maduras demais. Voltou com o filho para o acampamento improvisado. Os raios de sol tentavam entrar pelas árvores dentro da floresta. Ainda tímidos, tinham que transpor também a névoa daquela manhã de inverno. Antonio tentou conter as lágrimas. Num dia desses, poderia trabalhar muito em suas terras. Mas agora não as tinha e se lamentava por isso.
Ofereceu aos membros da família o que tinha conseguido como alimento. Depois, junto com os dois filhos, juntou o que possuíam, e seguiram pela mata. Sem destino aparente. Mas Antonio começava a delinear um objetivo. Tinha algum conhecimento da mata e onde ela daria em seu final. Encontrariam uma estrada secundária. Seguiriam mais dois dias de viagem e encontrariam a estrada principal onde havia alguns colonos com suas fazendas. Encontraria algum conhecido seu e pediria abrigo até decidir o que faria depois. Parava vez ou outra na caminhada, pois a mulher se sentia cansada. Apesar de ela também ter trabalhado na roça e ser forte, havia um misto de cansaço físico e mental. Além disso, sua filha os atrasava. Todos a carregavam por algum tempo. Antonio tinha que seguir na frente, já que precisava desbastar a mata para abrir caminho para passarem.
No final da tarde conseguiram chegar a estrada secundária. O que se via lembrava pouco de uma estrada. Era, sim, um corredor estreito entre a mata, onde viajantes cortavam caminho, normalmente montados em cavalos. Mas Antonio sabia que seria melhor andar por ali do que seguir sem rumo pela mata fechada e cheia de perigos maiores. O sol já estava se escondendo e a luz do dia daria lugar ao breu da noite. Teria que pensar onde acampariam com segurança naquela noite. Antonio fitava os dois lados. Seguiriam para o norte. Eles andavam alguns metros para poder encontrar uma clareira ou quem sabe uma caverna de pedras. Mas a seguir o medo novamente tomou conta de Antonio. Ele e sua família ouviram cavalos trotando e em alta velocidade. Poderiam ser os soldados. Mas agora eles não tinham nada mais a perder, a não ser a vida. Antonio entrou na mata. A mulher e os filhos o seguiram com dificuldade. Mas não tiveram sorte. Ouviram o silêncio das patas dos cavalos, porém vozes de homens dando ordens.
Antonio parou e um frio na espinha o percorreu quando seu filho Davi chamou por ele. Voltando pela mata cheia de empecilhos, constatou que um homem tinha agarrado seu filho e este se debatia. Viu dois outros homens alcançados sua mulher. Esta caiu e sua filha de dois anos gritou quando atingiu o chão. Antonio chegou perto, olhou para os dois homens e se atirou sobre eles. Conseguiu atingi-los, já que estavam próximos. Os três homens caíram e começaram uma luta corporal. Antonio fora dominado rapidamente, já que havia brigado pouco na vida. Logo os dois homens pegaram o cinto de suas calças e amarravam os braços e pernas de Antonio. Este se debatia, vendo que aqueles homens pareciam ter prazer naquilo. Antonio ouviu o choro da filha e um grito de Mateus. Tentou enxergar alguma coisa, mas o mato não deixava. Aqueles homens não estavam mais ali com ele. Antonio sentiu novamente seu coração ficar apertado e lágrimas rolavam de seus olhos. Ouviu os filhos gritarem e o choro da filha persistia. Debatendo-se, Antonio feriu seu rosto numa pedra e num soco que havia recebido de um daqueles seus algozes. Parou de respirar por alguns segundos quando ouviu a voz de sua mulher.
- Deixe meus filhos em paz.
Depois um homem falou.
- Não queremos seus filhos. Queremos você.
Antonio soltou um grito na noite que se avizinhava.
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