Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Romanos 3:23
Como está escrito. Não há um justo, nem um sequer. Romanos 3:10- Tea gosta do papai? – Perguntava meu pai, enquanto meu rosto se franzia, num chororó que se vislumbrava. Meus olhos estavam úmidos e meu olhar não conseguia chegar aos de meu pai, já que eu estava no colo dele. Aléssio Vilotto, meu pai, tinha descendência italiana, com cara de mau, sempre com a barba por fazer. De estatura baixa, usava chapéu e possuía o rosto vincado pelo trabalho da roça, de sol a sol. Quando chegava da lavoura, tomava uma garrafa de cachaça, abusava de minha mãe e depois dormia como fosse um porco.
Eu nasci no dia da independência. Já tinha dois irmãos e vim num momento ruim. Mulher não era bem vinda, já que papai sempre preferia um filho homem para ajudar nos trabalhos da lavoura. Nasci numa casa simples de madeira, com as paredes feitas de tábuas grudadas uma nas outras, deixando gretas entre elas, e nos dias frios o vento gelava até os ossos. Eu nasci feia, com poucos cabelos. Havia uma mistura estranha em meu rosto. Algumas características masculinas, outras femininas. Nariz grande, orelhas de abano, olhos sem brilho, pouco peso e comprida. Meu pai disse que eu não serviria para nada, nem para o casamento. Já minha mãe me prometeu aos seus santos.
Logo em seguida ao meu nascimento, minha mãe Vanda ficou grávida novamente. Portanto, tive pouco menos de um ano de colo e atenção exclusiva de minha mãe. Depois disso, perambulava pela casa, quase sempre sozinha, ou quando meus dois irmãos chegavam do trabalho na roça, dando atenção de um minuto. Quando completei dois anos, tive como amigo um cachorro. Ele dormia no rancho, num ninho que se fez em cima de sacos velhos. Vez ou outra eu deitava ali com o animal, abraçada a ele e sentindo o calor dele. Quando meu pai me encontrava dormindo com o cachorro, pegava o animal e o surrava, até o pobre do cão sumir por dias seguidos.
Aos três anos ajudava minha mãe a cuidar de minha irmã Fátima. Minha mãe não podia, pois já estava para parir novamente. Assim, com quatro anos eu tinha como companhia duas irmãs e uma mãe se arrebentando no trabalho da casa e no período vespertino ajudava meu pai e meus dois irmãos mais velhos na lavoura. Meu pai plantava arroz. Era um trabalho pesado. Primeiro tinham que preparar a terra, revirando-a. Depois, os valos onde corria água eram limpos e tapumes em volta de pedaços enormes de terras precisavam ser arrumados, para que a água ficasse parada semanas, para em seguida semear o arroz. Minha mãe se queixava de dores nas pernas, já que permanecia na água e lodo grande parte do dia. Vinha completamente imunda para casa. Meus irmãos pareciam se divertir quando meu pai não estava por perto. Todos temiam o senhor Aléssio. Minha mãe também. Porém, minha mãe enfrentou meu pai numa ocasião. Disse que os dois meninos mais velhos precisavam ir para a escola. Meu pai não se convencia que a escola pudesse ensinar alguma coisa para os filhos e muito menos dar um futuro para eles. Depois da briga, no começo de um novo ano, ele disse para Macário, meu irmão mais velho, freqüentar a escola. A escola ficava a quase cinco quilômetros de nossa casa. Macário percorria todo o percurso a pé e quando voltava já no início da tarde, tinha que trabalhar na lavoura.
Vivíamos no interior de Massaranduba, município próximo a Blumenau. O lugar tinha sido colonizado por imigrantes poloneses e alemães. Alguns italianos apareceram por ali, mas a maioria se transferiu para o Rio Grande do Sul. Uma terra mais fria e melhor para o plantio da uva e sua conversão em vinho. Meu pai resolveu ficar ali mesmo e fez como os outros colonos. Além do arroz, havia toda uma atividade inerente de uma vida na roça. Plantava aipim, milho, verduras, além da criação de animais e galináceos. Havia leite em abundância e todos os derivados vindos dele.
O vizinho mais próximo ficava a mais de um quilômetro de distância. A terra de meu pai se encontrava numa pequena estrada, a mais de cinco quilômetros da principal. Nós éramos os últimos moradores daquela vila. A estrada acabava justamente na entrada de nossa casa. Depois dali, parte das terras pertencia a meu pai e o mato restante ninguém sabia quem era o dono. Vivíamos isolados e quase nunca aparecia ninguém para nos visitar. Não conhecia ninguém que não fosse de nossa família. Vez ou outra vinha alguém conversar com meu pai. Mas nessas ocasiões meu pai falava com o homem sem a presença de ninguém. Ouvia meu pai dizer para minha mãe que se tratava de um vizinho querendo emprestar alguma ferramenta.
- Tea gosta ficar no colo do papai? – Eu já sabia falar. Estava com cinco anos. Tentava procurar com os olhos alguém, mas nem meus irmãos e nem minha mãe estavam próximos. Ele estava sentado numa cadeira de madeira, próximo da mesa da cozinha. Eu pensava que papai queria me bater por alguma peraltice que eu havia cometido. Ou mesmo porque eu estivesse dormindo com o cachorro no rancho, mais uma vez.
- Tea gosta. – Foi o que consegui dizer. Meus olhos pareciam não enxergar nada, já que estavam cobertos de lágrimas. Minha visão ficou ofuscada e tremia toda vez que ele me apertava sobre seu colo. Alguma coisa me incomodava nesse ato. Em meus cinco anos, sabia que papai nunca fez carinho em filho algum. Nem sequer carregava os filhos ou mesmo os colocava em seu colo. Mas comigo foi diferente. Não porque ele gostasse de mim. Mas porque ele queria algo de mim. E eu não sabia o que.
- Papai quer que Tea pegue uma coisa. – Ele me colocou no chão. Fiquei parada frente a ele. Passei ambas as mãos sobre meu rosto e olhos para retirar as lágrimas que brotavam. Pensei que ele fosse me dar um presente, ou brinquedo quem sabe. Mas papai pegou minha mão pequena e posou sobre sua calça. Senti algo duro e quente. Somente isso. Ele pediu em seguida que eu passasse a mão sobre todo o local. Fiz isso devagar, sem pensar e nem imaginar o que estava acontecendo. De repente, vozes vindas de fora fizeram com que papai se levantasse e me desse um tabefe no meu rosto. Sai correndo da cozinha, sem lugar para me esconder. Fui parar no meio do mato, perto de um riacho.
Ele havia me batido. O que eu tinha feito para ele? Não era justo. Papai era malvado, pensei. Eu tinha feito tudo o que ele havia pedido. As lágrimas não vieram, mas sim, um sentimento de medo de meu pai. Não queria mais ficar sozinho com ele. Não sabia por quê. Foi a partir daquele dia que comecei a sentir raiva de meu próprio pai. Ele não era um pai carinhoso e quando foi me bateu sem que eu soubesse o que estava acontecendo. Fiquei próxima do rio por algum tempo. Quando voltei para casa, minha mãe havia feito um escândalo, dizendo que nunca mais maltratasse meu pai. Não respondi nada, pois não sabia o que dizer. Assim, meu martírio havia apenas iniciado.
Agora eu tinha dois irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. Cinco filhos e três mulheres. O desgosto de meu pai era imenso. Novamente minha mãe ficou grávida e meu pai esperava que dessa vez viesse um rapaz. Ainda bem que isso havia acontecido, pois meu pai não queria mais saber de filha que não tinha serventia nenhuma para ele. Carlo, meu irmão mais novo, nasceu bonito e com os cabelos um pouco crespos na cor castanha. Como eu era a mais velha das irmãs, cuidei do meu irmão, com a ajuda de Fátima e Túlia, minhas irmãs mais novas.
Achei engraçada a forma como meus pais davam os novos aos filhos. As meninas foi minha mãe que deu os nomes. Ela dizia, numa dessas conversas antes de dormir com os filhos, que quando era nova, ela não tinha trinta anos ainda, havia conhecido famílias que tinham filhos com os nomes de suas filhas. Já meu pai disse que nomes italianos de seus antepassados davam nomes aos seus filhos. Depois de Carlo, minha mãe ficou grávida de seu sétimo e último filho. Bento havia nascido com o rosto inchado e um pequeno corte no lábio superior. Ficou no hospital mais tempo do que todos. Havia algum problema. Ninguém conseguia explicar direito. Tinham que fazer uma operação nele. Mas depois de algumas semanas, Bento veio para casa e novamente às três filhas tomaram conta do irmão mais novo.
Naqueles dias que minha mãe havia ficado no hospital com meu irmão Bento, eu e minhas irmãs fazíamos o almoço e cuidávamos da casa. O hospital ficava distante, na cidade e meu pai reclamava o tempo todo que aquela criança podia ter morrido, já que estava causando despesa desnecessária. Nós não tínhamos como argumentar ou dizer qualquer coisa para ele. Meu pai apenas desabafava, já que nossa opinião a respeito não contava.
Quando mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, notei que ela havia feito um pequeno altar. Havia posto ali uma santa de barro, um terço, flores. Ajoelhava-se no chão e rezava. Também acendia uma vela, deixando-a bem próxima da santa de barro. Minha mãe nunca convidou meu pai para rezar com ela. Nem os filhos foram incentivados. Vez ou outra eu ficava ao lado dela. Ajoelhava e via os lábios de minha mãe se mexer. Eram rápidos. Um zunido vinha deles. Mas não entendia nada. Também não conseguia ficar ajoelhada muito tempo. Meus joelhos doíam. Então eu me levantava e ficava em frente a minha mãe, no pequeno espaço entre ela e seu altar. Minha mãe parava de mexer com os lábios e me olhava com seriedade. Eu me sentia expulsa dali. Saia para brincar com o cachorro ou com as minhas irmãs.
Nas semanas seguintes da volta de minha mãe para casa, ela parecia ter se tornado uma mulher estranha. Estava indiferente com os filhos e com o marido. Também em se tratando da casa e de seus afazeres, mamãe ficou num limbo. Seus olhos estavam sempre parados e contemplando o nada. Meu pai não notava esse tipo de coisas, pois as três filhas mulheres cuidavam para que tudo na casa fosse feito e com isso papai nada percebia. O diálogo entre eles nunca foi um forte. Nas noites de final de semana, que começava na sexta-feira, meu pai saia. Havia um bar a uma boa distância de nossa casa. Era freqüentado por colonos para jogar bocha, beber e encontrar os amigos. Na sua volta para casa, sempre de madrugada, ele mal conseguia entrar na casa. Muitas vezes eu com meus irmãos o carregávamos para dentro da casa e jogávamo-lo sobre a cama. Cheirava a bebida e ao palheiro, que nunca largava da boca. Mamãe não acordava ou fazia de conta que estava dormindo. Depois que mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, eles dormiam em quartos separados. Mamãe dizia que precisava se recuperar do parto e isso ficou como definitivo em suas vidas.
Fui surpreendida certo dia em que meu pai decretou que eu estava com idade para ajudá-lo na roça. Até então eu estava com uma vida boa e confortável em casa. Apesar de sempre estar ocupada com serviços domésticos, eu gostava de ficar com meus irmãos. Criei afinidade com meu irmão Carlo. Não sei explicar o porquê desta nossa ligação. O destino nos reservaria destinos opostos, porém extremamente ligados um no outro. Quanto eu brincava de boneca ele me ajudava e fazia de conta que era o pai delas. Minha única boneca era de pano, feita por minha mãe em sua máquina de costura. Carlo também cuidava dos arredores da casa. Em sua pouca idade, limpava o mato ao redor de pé de rosas e outras flores que minha mãe havia plantado. Quando fui pela primeira vez trabalhar na lavoura, chorei pelo afastamento que teria da casa e de minhas irmãs. Também, claro, por ficar distante de meu irmão Carlo.
Ajudei a carpir o mato de plantações de meu pai. A enxada que ele havia me dado era grande. Eu ainda pequena, parecia uma anã perante aquele instrumento de limpeza. O peso da enxada fazia com que eu me cansasse muito rapidamente. O sol me castigava e suava o tempo todo. Depois de terminar o serviço, voltava para casa, me lavava, jantava a mesa com todo mundo, ajudava minhas imãs a lavar a louça e logo em seguida me jogava na cama. No outro dia toda a rotina se repetia e assim todos os dias da semana. Descansávamos apenas no domingo e parecia um alívio ficar em casa, apesar de ajudar no almoço e limpeza.
Foi num dia de pouco sol, com nuvens encobrindo todo o céu, aconteceu o avanço de meu pai sobre mim. Eu estava sozinha, no meio de uma roça de aipim. Havia parado para descansar. Deixei a enxada de lado e sentei no chão. Brincava com alguns gravetos, jogando-os, ora empilhando ao meu lado. Como num assombro, de repente vi meu pai na minha frente. Fiquei com medo. Pensei que ele me bateria, já que não estava trabalhando. Mas ele disse para eu me levantar. Depois ele se abaixou, para ficar na minha altura. Deu-me um abraço e logo em seguida ele se deitou, me levando junto com ele. Não dizia nada. Pegava em meu corpo com suas mãos grossas e ásperas. Eu não gostava. Parecia que aquelas mãos me feriam ao invés de me agradarem. Ele levantou meu vestido e depois passou as mãos sobre minha calça comprida. A abaixou e então eu senti que as mãos de meu pai ficaram entre minhas pernas. Ele abaixou suas calças e deitou-se sobre mim. Eu estava sufocando, não conseguia respirar. Num repente, algo atingiu minha intimidade que, com medo, reprimi o grito e apenas lágrimas saiam do meu rosto. Não me permitia chorar. A vontade era imensa. Alguma coisa me rasgava. Sentia ardume e dor. Foram não mais que dois minutos. Meu pai se levantou e disse que aquilo seria nosso segredo. Quando ele se afastou, comecei a chorar. Não conseguia enxergar mais nada devido às lágrimas que encobriam meus olhos. Depois que cessei o choro e lágrimas, olhei entre minhas pernas. Havia sangue, suor e algo mais. Senti-me desesperada. O que meu pai tinha feito que houvesse saído sangue, me perguntava. O que faria? Será que teria que contar a minha mãe? Eu tinha muitas perguntas. Peguei uma parte da calça e passei sobre o local. Havia dor e ardia muito. Não conseguia ficar de pé. Permaneci sentada, às vezes me deitava no chão. Depois de um longo tempo, fiquei de pé, me limpei num córrego próximo. Joguei água sobre meu rosto, levantei a cabeça, fitando o céu. Fiquei imaginando se Deus aprovava aquilo que havia acontecido. Em meus sete anos de idade eu sabia que havia algo de errado. Talvez nem todos os pais fizessem aquilo com suas filhas. Mas agora não importava mais. Retirei o excesso de água do rosto, voltei ao trabalho. Quando retornei para casa, não encontrei meu pai. Já tarde da noite, ouvi vozes e um barulho. Meus irmãos estavam ajudando meu pai a entrar na casa. Ele estava bêbado e praticamente, inconsciente.
Aos oito anos fui estudar. A primeira coisa que aprendemos na escola foi rezar. Foi um momento glorioso. Dizer a Ave Maria e depois o Pai Nosso, todos ajoelhados, com as mãos em cruz e cabeça baixa em contrição. Acreditava que Deus havia entrado em meu corpo. Minha alma resplandecia de um torpor que me elevava de forma a ter finalmente encontrado a felicidade. Isso com oito anos de idade. Depois vieram outras disciplinas que me fizeram cair numa outra realidade. Gostava do português, porém as matérias exatas não queriam se fazer entender com minha cabeça. Voltava para casa infeliz. Quando acordava cedo para seguir para a escola, ficava contente por poder ficar longe de minha casa e encontrar outras pessoas e poder conversar e ouvir coisas diferentes.
Andava quase uma hora para chegar até a escola. Meu irmão mais velho, Macário, me acompanhava. Meu outro irmão, Aristeu freqüentava a escola na parte vespertina. O nosso material consistia num caderno e um lápis. Com o tempo, conseguia com que algumas colegas de escola me dessem outros materiais. Dessa forma consegui um outro caderno, uma caneta tinteiro usada e vários lápis de cor. As aulas de desenho não me empolgavam. Mas os de literatura pareciam que abriam minha cabeça para algo que desconhecia.
Logo aprendi a ler e escrever. Como os livros eram escassos, peguei a bíblia de minha mãe. Não compreendia quase nada do que lia. Mas as palavras eram bonitas e parecia que tinham alma quando lida em voz alta. Quando minha mãe descobriu que pegava a bíblia dela, brigou e disse para nunca mais tocar naquele livro santo. Certo dia, falei para uma das irmãs catequistas da escola, que também eram professoras, que gostaria de ganhar uma bíblia. Ela disse que conseguiria uma para mim. Seria usada. Não me importei. Quando semanas depois ela me deu a bíblia, foi como uma semente nova que havia brotado em mim. Levava o livro para todo lugar, inclusive na roça. Nas paradas ocasionais para descansar, lia o livro sagrado em voz alta, já que não havia ninguém por perto. Parecia que minha vida se enchia de felicidade.
Quando completei os quatro primeiros anos de escola, já era amiga das Irmãs professora e dizia a elas que um dia também seguiria o caminho delas. Havia certo ciúme de outras alunas, já que eu sempre estava conversando com uma das professoras Irmãs. Com isso, minha vida na escola começou a azedar de forma a ficar a maior parte do tempo sozinha. Ainda assim gostava de freqüentar a escola e começar as aulas com orações. A vida na casa de meus pais parecia que não existia. Esquecia que eles existiam. Quando estava em casa não me sentia feliz. Mas assim que recordava que no dia seguinte voltaria para a escola, me sentia animada e um sorriso leve fazia com que a situação ficasse mais branda. Encontraria novamente as pessoas e as Irmãs professoras e poderia ouvir suas vozes diferentes daquelas da minha família. Os finais de semana não eram tão agradáveis assim. Porém, quando havia alguma folga, me entocava no quarto lendo o livro sagrado ou andava pela roça lendo-o em voz alta, apenas para poder ouvir minha voz, com aquelas palavras que me pareciam mágicas.
A primeira lembrança de minha infância são as orações de minha mãe. Os lábios se mexendo com sofreguidão, um zumbido saindo de sua boca e olhos fixos em sua santa de barro à sua frente. Algumas vezes a imitava, porém depois ela me recriminava, dizendo que sua Nossa Senhora me amaldiçoava por esse ato. Sou o sexto filho de uma família com sete filhos. Somos quatro rapazes e três moças. Os homens sempre foram os mais cobrados, devido ao trabalho da roça. Mas, nem por isso, meu pai deixava as mulheres da casa fora do trabalho na lavoura.
Depois que comecei a andar e discernir as pessoas da minha família, havia algo em meu pai que me desafiava. Respeito misturado com medo. Seu modo de falar e tratar minha mãe e meus irmãos me amedrontava. Havia ainda a forma como ele se alimentava à mesa. Por fim, sua constante bebedeira demonstrava um ser repugnante. Mas era meu pai. Mas no fundo de minha alma, não queria que fosse. Ele demonstrava tudo o que eu rejeitava numa pessoa.
Já mais crescido, via meu pai convidar meus irmãos Macário e Aristeu para jogar bocha com ele. Certo dia, com cinco anos de idade, ele me convidou. Mas achei melhor ficar perto de minha mãe. Sentia-me mais seguro. Com isso, fez com que ele nunca mais me convidasse para lugar nenhum. Dizia que eu não prestava para a lavoura e muito menos para jogar bocha com ele. Sentia-me rejeitado. E isso fez com que um ódio prematuro começasse a vingar. Porém houve momentos bastante agradáveis em minha infância.
Tinha muita afinidade com minhas irmãs. Principalmente Túlia, dois anos mais velha e bonita como ela só. Também Fátima e Tea, que cuidava dos irmãos mais novos como fosse nossa própria mãe. A pequena distância que se fazia entre mim e meus dois irmãos mais velhos fizeram com que eu me aproximasse de minhas irmãs. Elas se mostravam carinhosas e me tratavam bem. Talvez elas vissem que meu pai me tratava como a elas e isso nos aproximava. Não havia raiva ou revolta dos filhos contra o próprio pai. Porém uma distância se fez, junto com o medo, que ficávamos isolados dele, e com isso, também de meus irmãos.
Descobríamos plantas e flores, próximo de nossa casa. Algumas delas plantávamos nos arredores da casa. Em outras ocasiões percorríamos todos os ninhos das galinhas, para ver quem conseguia trazer mais ovos. Ajudava nos afazeres da casa, como lavar louça e também, depois que as roupas estavam lavadas, ajudava a pendurá-las. Gostava quando mamãe se postava frente a sua santa e rezava. Achava bonito aquele ato, sem saber ao certo o seu significado. Dava a impressão de certa santidade. Apesar de ela brigar comigo vez ou outra, via aquela mulher além das possibilidades dela.
Aos cinco anos papai disse para acompanhar meus irmãos na roça. Fui com certa apreensão, já que me achava impotente para um trabalho daquela envergadura. Magro e alto demais para a minha idade, meu pai dizia que eu precisava começar a pagar pela comida e cama que dormia. Não sabia exatamente o que ele queria dizer com isso, mas essas palavras ficaram martelas em minha mente. Meus irmãos não tinham pena de mim. Davam enxada e diziam para carpir. Comecei a tirar o matagal e as plantações também. Não tinha me dito o que teria que carpir. Apanhei de meu pai por destruir um pedaço de suas plantações. Tive que aprender a diferenciar um pé de aipim do mato, como descobrir a cebola, a couve, cenoura e outras culturas que plantávamos para nossa sobrevivência.
Acredito que uma das conseqüências do medo que tinha do meu pai foi minha fala. Não conseguia pronunciar palavra sem atropelar nelas mesma. Engasgava de tal forma, que ficava vermelho e logo chorava. A cada dia que tinha mais consciência desse problema, preferia ficar calado a ver os outros zombando de mim. Principalmente meu pai e meus irmãos. Minha mãe vinha em minha defesa, mas também evitava qualquer atrito com seu marido. Já minhas irmãs compreendiam melhor esse pormenor de minha vida. Esse trauma ficou mais acentuado, quando aos sete anos fui para a escola. Havia certo terror em abrir a boca para responder a chamada ou falar qualquer coisa. O nervosismo se apoderava de mim de tal forma que me fechava cada dia mais. Eu sempre imaginei que seria uma pessoa expansiva e de alguma fama. Minha mente fervilhava com essa possibilidade sendo tirada de mim. Ademais, eu tinha somente sete anos de idade.
Na escola os alunos de minha sala caçoavam de mim. Um ódio crescendo tomava conta que desejava as piores coisas para aqueles colegas de escola. A situação chegou a tal ponto, que sofria até pelo caminho da escola. Tínhamos que passar por uma imensa curva, cheia de mato. Essa curva era conhecida por volta fria, já que nenhum sol chegava ao local. Quase sempre eu caminhava sozinho em direção a escola. Meus irmãos partiam mais cedo ou estudavam no período vespertino. Alguns alunos de minha classe me esperavam na volta fria para literalmente, me ferir. Havia um arbusto, de caule da cor rocha e firme, que passavam sobre minhas pernas, deixando uma marca sobre a pele, como fosse um aranhão. Além disso, sangrava e ardia. Chegava à escola, nessas ocasiões, chorando. Uma das Irmãs professoras se condoia por mim. Entrou na sala de aula exigindo que os causadores daquelas marcas em meu corpo se apresentassem. Como ninguém se delatava, eu apontei os três meninos. Eles foram castigados. Depois daquele dia, minha vida piorou. Eles faziam aquilo vestindo uma touca ou uma camisa qualquer sobre o rosto. Portanto, eu não tinha como confirmar se eram as mesmas pessoas ou não. Além disso, um outro grupo me parou certo dia e me deram uma surra de eu ficar naquele dia sem ir para a escola. No outro dia a professora pediu o porquê de minha falta. Disse a ela que estava doente.
Mesmo assim meu aprendizado foi bom. Tive momentos interessantes, já que gostava de freqüentar a escola ou invés de carpir a terra. Vez ou outra esquecia de minha gagueira e falava atropeladamente. Meu nervosismo nessas ocasiões sempre me deixava pior, já que meu rosto fica rubro e vez ou outra também chorava. A leitura me deixava pior ainda. Quando iniciamos o período de leitura em voz alta, meu sofrimento parecia se tornar pior. A professora insistia e quando os colegas de classe riam de mim, ela ralhava com eles e insistia para que eu continuasse a ler. De quando em vez ela perguntava se eu não tinha como parar de gaguejar. Eu não conseguia responder, já que não sabia o que dizer. Por isso mesmo fiz poucas amizades. Conversava com um ou outro, também algumas meninas, mas sempre sem entusiasmo. Preferia ficar mais sozinho a ter que aturar brincadeiras que me deixavam irado.
Meus pais nunca perguntavam nada da escola. Apenas em algumas ocasiões especiais, levava um bilhete para eles da professora. Alguma homenagem ou o resultado do final do ano. Mesmo assim, eles achavam uma situação chata ter que se deslocar até a escola e parar com suas atividades. Nas ocasiões de festas, meu pai e minha mãe tomavam banho, colocavam roupas limpas e acompanhadas dos filhos, se dirigiam para a escola. Essas festas, duas por ano, sempre religiosas, havia barracas com comida, pescaria e um churrasco com pão e maionese. Sentia-me envergonhado. Achava meus pais pessoas pouco refinadas. Não que eu fosse. Mas eu percebia como o comportamento deles me constrangia. Tanto assim, que ficava distante deles o máximo que podia. Zanzava pelas barracas, observando e vendo famílias felizes e melhor vestidas.
Por vezes, conversava com um primo meu. Acho que era de terceiro grau. Baixinho, cabelos curtos e com um rosto bonito, porém parecia que sempre queria chorar. Tinha minha idade e usava roupas melhores. Mesmo assim, parecia tão infeliz quanto eu me sentia. Caminhei próximo da igreja e o padre da paróquia local diz que queria conversar comigo.
- Por que você não brinca com os outros rapazes? – Não entendi a pergunta do padre. Será que ele havia percebido que eu andava o tempo todo sozinho?
- Não sei. – Minha resposta também fora estranha, já que o padre foi adiante com seu interrogatório. Além disso, as duas palavras saíram sem eu gaguejar.
- Você gosta de ficar sozinho, não é mesmo Carlo?
- Sim, padre. – Novamente consegui falar sem atropelos, mas meu nervosismo estava num crescendo.
- Já havia observado. Então fiquei pensando com meus botões. Será que você gostaria de entrar para um convento e se tornar um religioso?
Aquele padre queria que eu fosse padre! Mãe de Deus. Nunca! Meu pai também não deixaria, já que precisava de mim na roça.
- Não! – Foi à única coisa que consegui pronunciar sem me engasgar todo. Será que ele sabia que eu não conseguia falar direito?
Deixei-o e fui em busca de minha família, que estava sentada em bancos improvisados, comendo alguma coisa. Sentia-me pegando fogo. Meu rosto devia estar vermelho e eu tremia todo. Não sei se de nervoso ou por ter falado com um padre e conseguido falar algumas frases. Sentei-me ao lado de minha irmã Tea. Ela parecia calada, já que todos os outros meus irmãos falavam pelos cotovelos. Minha mãe parecia contente e meu pai todo prosa, contando que pretendia se mudar para uma cidade maior. Fiquei interessado naquela conversa, mas não conseguia entender tudo. Fiquei sonhando como seria morar numa casa bonita, grande, sem aquela roça para cuidar e muito menos arrozais para plantar. A escola seria melhor, com professores diferentes e faria muitos novos amigos. Já via minha mãe com um vestido, deixando sua cintura marcada, perfumada, andando elegante de mãos dadas comigo. Fui desperto daquele sonho, quando Tea me disse que iríamos embora. Dei um sorriso, mas de satisfação. Dentro em pouco tempo ficaria longe daquele lugar.
Soube que naquele ano meu primo se mudou para outra cidade. Não sabia qual. Apenas que haviam vendido suas terras e foram morar na cidade. Mas minha família também se mudaria, pensei. Só que demorou dois anos para isso acontecer. Eu já estava no final da quarta série inicial de estudos e meu pai disse numa noite para aprontarmos todos nossos pertences que faríamos à mudança na semana seguinte. Fiquei feliz, mas minha mãe não. Ela gostava daquelas terras distantes e longe de todas as pessoas. Não sabia o motivo exato dessa mudança. Sempre pensei que meu pai jamais se mudaria dali. Em todo caso, apreciei essa decisão de meu pai.
Arrumamos nossas coisas em três carroças e seguimos com nossa mudança. Naquele dia acordamos numa madrugada fria. Quando o sol começou a se mostrar, já estávamos a caminho de nossa nova casa. Minha mãe havia preparado pão com queijo, lingüiça e também café com leite já com açúcar. Paramos duas vezes para comer e fazer as necessidades físicas no mato. Meu pai não cobrava dos cavalos e eles trotavam devagar, puxando uma carga pesada. Eu estava na última carroça, com Tea e meu irmão Aristeu com as rédeas, conduzindo os animais. No meio daquela tarde, paramos, pois uma parte de um armário havia caído na estrada. Meu pai soltou impropérios furiosos para todos. Macário, meu irmão mais velho e Aristeu o ajudaram e repor as madeiras sobre a carroça novamente. Em seguida continuamos devagar seguindo para nossa nova casa.
No final da tarde, passando por poucas casas e muito mato, chegamos à nova casa. Fiquei decepcionado. Nossa nova casa não ficava na cidade. Estava isolada, pois não consegui enxergar vizinho algum. Era toda de tijolos, com piso de tábuas grossas e um sótão. Havia muito mato em volta, com muitas arrozeiras nos fundos. Naquele dia, já noite, não conseguimos descarregar tudo. Ajeitamos o que foi possível mamãe preparou um jantar improvisado, com aipim, arroz e galinha frita. Depois nos acomodamos nos quartos. Havia quatro quartos. Eu fiquei com Bento num dos quartos, meus irmãos mais velhos em outro, as meninas no quarto do meio, e meus pais no quarto da frente. Os colchões de palha de arroz haviam sido jogados no chão e de tão cansados nos deitamos. Adormeci logo e somente acordei com as vozes de minha mãe e meu pai, um falava mal do outro num tom acima do normal. A partir daquele dia, minha mãe deixou meu pai no quarto sozinho. Ela dormiria no quarto das filhas.
Dois meses depois, ouvi minha mãe dizer para Tea que estava esperando outro filho. Os primeiros meses na nova casa foram difíceis. Precisávamos de armários para a cozinha, quartos, mesa, cadeiras. Nunca havia o suficiente. Também utensílios domésticos. Roupas e o serviço na roça nunca acabava. Também havia a escola. Minha mãe foi matricular os filhos na escola mais próxima, que ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Eu freqüentava as aulas no período da manhã, o que foi uma benção, achando que aprendia melhor. Morávamos na cidade de Guaramirim, no distrito de Guamiranga. Não havia ônibus e quando precisávamos se deslocar até a cidade, ou fazíamos o percurso a pé ou de carroça.
Mudamos-nos para Guamiranga em março de 1970. Eu estava com 11 anos e comecei a freqüentar a quinta série primária. As aulas pareciam mais interessantes, porém havia uma cobrança maior. Os quatro anos que passei nessa escola foram longos e pouco agradáveis. Talvez por minha culpa, já que não conseguia fazer amigos ou me enturmar com os meninos. Chorei no dia em que Tea foi embora da escola e de casa. Ela tinha sido prometida por minha mãe para Deus. Ela fora estudar com as freiras e só voltava no fim do ano. Com isso senti certa tristeza, mas logo passou, já que no final daquele ano de 1970 minha irmã Nina havia nascido. Minhas irmãs e eu cuidamos dela, já que minha mãe parecia não estar disposta por um longo período.
Quando chegava a casa, já cansado de andar, almoçava e em seguia meu pai e irmãos seguiam para a roça. Voltávamos para casa já noite. Lavávamos num tanque de cimento nos fundos da casa, trocávamos de roupa, jantávamos e alguns seguiam para o quarto e outros para a sala. Havia um pequeno rádio, movido à pilha, já que a energia elétrica ainda não havia chegado ao local. Conversávamos sobre as músicas, notícias, ríamos alto até meu pai gritar para que todos fossem dormir. Em outras ocasiões falávamos sobre a roça, a escola e vez ou outra meus dois irmãos mais velhos faziam encenações engraçadas de meu pai.
Meu problema com a fala continuava. Muitas vezes gostava de falar alguma coisa, esquecia que tropeçava nas palavras, não conseguindo terminar de falar o que gostaria. Com isso, ficava nervoso acima da conta, meu rosto tomava a cor de um tomate maduro e vez ou outra chorava. Meus irmãos também riam de mim e meu pai não agüentava esperar até eu terminar de tropeçar nas palavras, me mandava parar com aquilo e falar como homem. Com tudo isso, me sentia distante de meu pai e de meus irmãos.
No ano de 1973 completei 14 anos e cursava o último ano do ensino fundamental. Havia muitos rapazes que saiam de casa para trabalhar em Guaramirim ou mesmo em Jaraguá do Sul. Esta cidade ficava a 10 quilômetros da primeira e oferecia mais oportunidades para os jovens. Conversando com outros rapazes da escola ou mesmo somente ouvindo suas conversas, tomei a decisão de sair de casa, morar em alguma pensão e trabalhar em uma fábrica. Mas era preciso tomar coragem e contar para meu pai. Primeiro fui falar com mamãe. Ela disse que seria melhor, pois assim poderia me instruir melhor e não sofrer com o trabalho árduo da roça.
Meu pai continuava com o hábito de nas sextas-feiras e sábados sair para um jogo de bocha, num bar que havia pelas redondezas. Ele voltava para casa bêbado, mas agora que dormia sozinho, não mais maltratava minha mãe. Aproveitei uma ocasião, num sábado, antes de ele sair para seu jogo e bebida. Minha mãe estava por perto e disse a ele de minhas pretensões. Ele olhou para minha mãe, como se ela estivesse de conluio comigo. Não disse nada, o que estranhei. Porém, antes de fechar a porta falou tão rápido que pouco entendi o que ele havia dito. Algo como “eu não servir para a roça mesmo” e também uma insinuação que não havia entendido naquele momento: “quem sabe encontre sua turma”.
Fiquei entusiasmado com esse resultado. Teria minha liberdade e viveria num mundo e lugar melhores que a casa de meu pai. Também o fato de ficar distante dele me deixou feliz. Tea já estava longe de casa. Em suas visitas anuais, estava entusiasmada com a vida que lhe fora imposta. Eu tinha muitas dúvidas sobre o que aconteceria e dúvidas também quanto a questões pessoais. Sentia que eu não pertencia àquela família humilde, já que meus gostos e comportamento não se adequavam a nenhum dos meus irmãos. Por alguns dias fiquei matutando se eu era realmente filho deles. Quem sabe tinha sido trocado no hospital ou qualquer outra coisa que pudesse ter acontecido. Ainda assim, sentia por deixar minhas irmãs e mais precisamente Nina a mais nova delas.
Numa semana daquele ano aconteceu algo que até hoje não entendo ao certo como tudo se deu. Nina havia ficado doente e minha irmã Fátima cuidou dela. Elas ficaram num quarto sozinhas, já que ela estava febril e chorava muito. Minha mãe disse para que eu dormisse no quarto com Túlia. Como havia apenas um colchão grande com palha de milho seca, nos deitávamos juntos. Não sei precisar como tudo se deu. Mas nossos corpos, no meio da noite, ficaram grudados e senti que meu sexo se intumesceu. Ficava me esfregando no corpo de minha irmã, e por duas ocasiões ela permitiu que eu introduzisse meu membro em sua vagina. Foi um ato rápido e sem noção. Mas aconteceu e esse segredo ficou entre nós por toda nossa vida. Mas, de forma ainda estranha, continuou por toda minha vida me perturbando, até em minha orientação sexual.
Eu nasci no dia da independência. Já tinha dois irmãos e vim num momento ruim. Mulher não era bem vinda, já que papai sempre preferia um filho homem para ajudar nos trabalhos da lavoura. Nasci numa casa simples de madeira, com as paredes feitas de tábuas grudadas uma nas outras, deixando gretas entre elas, e nos dias frios o vento gelava até os ossos. Eu nasci feia, com poucos cabelos. Havia uma mistura estranha em meu rosto. Algumas características masculinas, outras femininas. Nariz grande, orelhas de abano, olhos sem brilho, pouco peso e comprida. Meu pai disse que eu não serviria para nada, nem para o casamento. Já minha mãe me prometeu aos seus santos.
Logo em seguida ao meu nascimento, minha mãe Vanda ficou grávida novamente. Portanto, tive pouco menos de um ano de colo e atenção exclusiva de minha mãe. Depois disso, perambulava pela casa, quase sempre sozinha, ou quando meus dois irmãos chegavam do trabalho na roça, dando atenção de um minuto. Quando completei dois anos, tive como amigo um cachorro. Ele dormia no rancho, num ninho que se fez em cima de sacos velhos. Vez ou outra eu deitava ali com o animal, abraçada a ele e sentindo o calor dele. Quando meu pai me encontrava dormindo com o cachorro, pegava o animal e o surrava, até o pobre do cão sumir por dias seguidos.
Aos três anos ajudava minha mãe a cuidar de minha irmã Fátima. Minha mãe não podia, pois já estava para parir novamente. Assim, com quatro anos eu tinha como companhia duas irmãs e uma mãe se arrebentando no trabalho da casa e no período vespertino ajudava meu pai e meus dois irmãos mais velhos na lavoura. Meu pai plantava arroz. Era um trabalho pesado. Primeiro tinham que preparar a terra, revirando-a. Depois, os valos onde corria água eram limpos e tapumes em volta de pedaços enormes de terras precisavam ser arrumados, para que a água ficasse parada semanas, para em seguida semear o arroz. Minha mãe se queixava de dores nas pernas, já que permanecia na água e lodo grande parte do dia. Vinha completamente imunda para casa. Meus irmãos pareciam se divertir quando meu pai não estava por perto. Todos temiam o senhor Aléssio. Minha mãe também. Porém, minha mãe enfrentou meu pai numa ocasião. Disse que os dois meninos mais velhos precisavam ir para a escola. Meu pai não se convencia que a escola pudesse ensinar alguma coisa para os filhos e muito menos dar um futuro para eles. Depois da briga, no começo de um novo ano, ele disse para Macário, meu irmão mais velho, freqüentar a escola. A escola ficava a quase cinco quilômetros de nossa casa. Macário percorria todo o percurso a pé e quando voltava já no início da tarde, tinha que trabalhar na lavoura.
Vivíamos no interior de Massaranduba, município próximo a Blumenau. O lugar tinha sido colonizado por imigrantes poloneses e alemães. Alguns italianos apareceram por ali, mas a maioria se transferiu para o Rio Grande do Sul. Uma terra mais fria e melhor para o plantio da uva e sua conversão em vinho. Meu pai resolveu ficar ali mesmo e fez como os outros colonos. Além do arroz, havia toda uma atividade inerente de uma vida na roça. Plantava aipim, milho, verduras, além da criação de animais e galináceos. Havia leite em abundância e todos os derivados vindos dele.
O vizinho mais próximo ficava a mais de um quilômetro de distância. A terra de meu pai se encontrava numa pequena estrada, a mais de cinco quilômetros da principal. Nós éramos os últimos moradores daquela vila. A estrada acabava justamente na entrada de nossa casa. Depois dali, parte das terras pertencia a meu pai e o mato restante ninguém sabia quem era o dono. Vivíamos isolados e quase nunca aparecia ninguém para nos visitar. Não conhecia ninguém que não fosse de nossa família. Vez ou outra vinha alguém conversar com meu pai. Mas nessas ocasiões meu pai falava com o homem sem a presença de ninguém. Ouvia meu pai dizer para minha mãe que se tratava de um vizinho querendo emprestar alguma ferramenta.
- Tea gosta ficar no colo do papai? – Eu já sabia falar. Estava com cinco anos. Tentava procurar com os olhos alguém, mas nem meus irmãos e nem minha mãe estavam próximos. Ele estava sentado numa cadeira de madeira, próximo da mesa da cozinha. Eu pensava que papai queria me bater por alguma peraltice que eu havia cometido. Ou mesmo porque eu estivesse dormindo com o cachorro no rancho, mais uma vez.
- Tea gosta. – Foi o que consegui dizer. Meus olhos pareciam não enxergar nada, já que estavam cobertos de lágrimas. Minha visão ficou ofuscada e tremia toda vez que ele me apertava sobre seu colo. Alguma coisa me incomodava nesse ato. Em meus cinco anos, sabia que papai nunca fez carinho em filho algum. Nem sequer carregava os filhos ou mesmo os colocava em seu colo. Mas comigo foi diferente. Não porque ele gostasse de mim. Mas porque ele queria algo de mim. E eu não sabia o que.
- Papai quer que Tea pegue uma coisa. – Ele me colocou no chão. Fiquei parada frente a ele. Passei ambas as mãos sobre meu rosto e olhos para retirar as lágrimas que brotavam. Pensei que ele fosse me dar um presente, ou brinquedo quem sabe. Mas papai pegou minha mão pequena e posou sobre sua calça. Senti algo duro e quente. Somente isso. Ele pediu em seguida que eu passasse a mão sobre todo o local. Fiz isso devagar, sem pensar e nem imaginar o que estava acontecendo. De repente, vozes vindas de fora fizeram com que papai se levantasse e me desse um tabefe no meu rosto. Sai correndo da cozinha, sem lugar para me esconder. Fui parar no meio do mato, perto de um riacho.
Ele havia me batido. O que eu tinha feito para ele? Não era justo. Papai era malvado, pensei. Eu tinha feito tudo o que ele havia pedido. As lágrimas não vieram, mas sim, um sentimento de medo de meu pai. Não queria mais ficar sozinho com ele. Não sabia por quê. Foi a partir daquele dia que comecei a sentir raiva de meu próprio pai. Ele não era um pai carinhoso e quando foi me bateu sem que eu soubesse o que estava acontecendo. Fiquei próxima do rio por algum tempo. Quando voltei para casa, minha mãe havia feito um escândalo, dizendo que nunca mais maltratasse meu pai. Não respondi nada, pois não sabia o que dizer. Assim, meu martírio havia apenas iniciado.
Agora eu tinha dois irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. Cinco filhos e três mulheres. O desgosto de meu pai era imenso. Novamente minha mãe ficou grávida e meu pai esperava que dessa vez viesse um rapaz. Ainda bem que isso havia acontecido, pois meu pai não queria mais saber de filha que não tinha serventia nenhuma para ele. Carlo, meu irmão mais novo, nasceu bonito e com os cabelos um pouco crespos na cor castanha. Como eu era a mais velha das irmãs, cuidei do meu irmão, com a ajuda de Fátima e Túlia, minhas irmãs mais novas.
Achei engraçada a forma como meus pais davam os novos aos filhos. As meninas foi minha mãe que deu os nomes. Ela dizia, numa dessas conversas antes de dormir com os filhos, que quando era nova, ela não tinha trinta anos ainda, havia conhecido famílias que tinham filhos com os nomes de suas filhas. Já meu pai disse que nomes italianos de seus antepassados davam nomes aos seus filhos. Depois de Carlo, minha mãe ficou grávida de seu sétimo e último filho. Bento havia nascido com o rosto inchado e um pequeno corte no lábio superior. Ficou no hospital mais tempo do que todos. Havia algum problema. Ninguém conseguia explicar direito. Tinham que fazer uma operação nele. Mas depois de algumas semanas, Bento veio para casa e novamente às três filhas tomaram conta do irmão mais novo.
Naqueles dias que minha mãe havia ficado no hospital com meu irmão Bento, eu e minhas irmãs fazíamos o almoço e cuidávamos da casa. O hospital ficava distante, na cidade e meu pai reclamava o tempo todo que aquela criança podia ter morrido, já que estava causando despesa desnecessária. Nós não tínhamos como argumentar ou dizer qualquer coisa para ele. Meu pai apenas desabafava, já que nossa opinião a respeito não contava.
Quando mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, notei que ela havia feito um pequeno altar. Havia posto ali uma santa de barro, um terço, flores. Ajoelhava-se no chão e rezava. Também acendia uma vela, deixando-a bem próxima da santa de barro. Minha mãe nunca convidou meu pai para rezar com ela. Nem os filhos foram incentivados. Vez ou outra eu ficava ao lado dela. Ajoelhava e via os lábios de minha mãe se mexer. Eram rápidos. Um zunido vinha deles. Mas não entendia nada. Também não conseguia ficar ajoelhada muito tempo. Meus joelhos doíam. Então eu me levantava e ficava em frente a minha mãe, no pequeno espaço entre ela e seu altar. Minha mãe parava de mexer com os lábios e me olhava com seriedade. Eu me sentia expulsa dali. Saia para brincar com o cachorro ou com as minhas irmãs.
Nas semanas seguintes da volta de minha mãe para casa, ela parecia ter se tornado uma mulher estranha. Estava indiferente com os filhos e com o marido. Também em se tratando da casa e de seus afazeres, mamãe ficou num limbo. Seus olhos estavam sempre parados e contemplando o nada. Meu pai não notava esse tipo de coisas, pois as três filhas mulheres cuidavam para que tudo na casa fosse feito e com isso papai nada percebia. O diálogo entre eles nunca foi um forte. Nas noites de final de semana, que começava na sexta-feira, meu pai saia. Havia um bar a uma boa distância de nossa casa. Era freqüentado por colonos para jogar bocha, beber e encontrar os amigos. Na sua volta para casa, sempre de madrugada, ele mal conseguia entrar na casa. Muitas vezes eu com meus irmãos o carregávamos para dentro da casa e jogávamo-lo sobre a cama. Cheirava a bebida e ao palheiro, que nunca largava da boca. Mamãe não acordava ou fazia de conta que estava dormindo. Depois que mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, eles dormiam em quartos separados. Mamãe dizia que precisava se recuperar do parto e isso ficou como definitivo em suas vidas.
Fui surpreendida certo dia em que meu pai decretou que eu estava com idade para ajudá-lo na roça. Até então eu estava com uma vida boa e confortável em casa. Apesar de sempre estar ocupada com serviços domésticos, eu gostava de ficar com meus irmãos. Criei afinidade com meu irmão Carlo. Não sei explicar o porquê desta nossa ligação. O destino nos reservaria destinos opostos, porém extremamente ligados um no outro. Quanto eu brincava de boneca ele me ajudava e fazia de conta que era o pai delas. Minha única boneca era de pano, feita por minha mãe em sua máquina de costura. Carlo também cuidava dos arredores da casa. Em sua pouca idade, limpava o mato ao redor de pé de rosas e outras flores que minha mãe havia plantado. Quando fui pela primeira vez trabalhar na lavoura, chorei pelo afastamento que teria da casa e de minhas irmãs. Também, claro, por ficar distante de meu irmão Carlo.
Ajudei a carpir o mato de plantações de meu pai. A enxada que ele havia me dado era grande. Eu ainda pequena, parecia uma anã perante aquele instrumento de limpeza. O peso da enxada fazia com que eu me cansasse muito rapidamente. O sol me castigava e suava o tempo todo. Depois de terminar o serviço, voltava para casa, me lavava, jantava a mesa com todo mundo, ajudava minhas imãs a lavar a louça e logo em seguida me jogava na cama. No outro dia toda a rotina se repetia e assim todos os dias da semana. Descansávamos apenas no domingo e parecia um alívio ficar em casa, apesar de ajudar no almoço e limpeza.
Foi num dia de pouco sol, com nuvens encobrindo todo o céu, aconteceu o avanço de meu pai sobre mim. Eu estava sozinha, no meio de uma roça de aipim. Havia parado para descansar. Deixei a enxada de lado e sentei no chão. Brincava com alguns gravetos, jogando-os, ora empilhando ao meu lado. Como num assombro, de repente vi meu pai na minha frente. Fiquei com medo. Pensei que ele me bateria, já que não estava trabalhando. Mas ele disse para eu me levantar. Depois ele se abaixou, para ficar na minha altura. Deu-me um abraço e logo em seguida ele se deitou, me levando junto com ele. Não dizia nada. Pegava em meu corpo com suas mãos grossas e ásperas. Eu não gostava. Parecia que aquelas mãos me feriam ao invés de me agradarem. Ele levantou meu vestido e depois passou as mãos sobre minha calça comprida. A abaixou e então eu senti que as mãos de meu pai ficaram entre minhas pernas. Ele abaixou suas calças e deitou-se sobre mim. Eu estava sufocando, não conseguia respirar. Num repente, algo atingiu minha intimidade que, com medo, reprimi o grito e apenas lágrimas saiam do meu rosto. Não me permitia chorar. A vontade era imensa. Alguma coisa me rasgava. Sentia ardume e dor. Foram não mais que dois minutos. Meu pai se levantou e disse que aquilo seria nosso segredo. Quando ele se afastou, comecei a chorar. Não conseguia enxergar mais nada devido às lágrimas que encobriam meus olhos. Depois que cessei o choro e lágrimas, olhei entre minhas pernas. Havia sangue, suor e algo mais. Senti-me desesperada. O que meu pai tinha feito que houvesse saído sangue, me perguntava. O que faria? Será que teria que contar a minha mãe? Eu tinha muitas perguntas. Peguei uma parte da calça e passei sobre o local. Havia dor e ardia muito. Não conseguia ficar de pé. Permaneci sentada, às vezes me deitava no chão. Depois de um longo tempo, fiquei de pé, me limpei num córrego próximo. Joguei água sobre meu rosto, levantei a cabeça, fitando o céu. Fiquei imaginando se Deus aprovava aquilo que havia acontecido. Em meus sete anos de idade eu sabia que havia algo de errado. Talvez nem todos os pais fizessem aquilo com suas filhas. Mas agora não importava mais. Retirei o excesso de água do rosto, voltei ao trabalho. Quando retornei para casa, não encontrei meu pai. Já tarde da noite, ouvi vozes e um barulho. Meus irmãos estavam ajudando meu pai a entrar na casa. Ele estava bêbado e praticamente, inconsciente.
Aos oito anos fui estudar. A primeira coisa que aprendemos na escola foi rezar. Foi um momento glorioso. Dizer a Ave Maria e depois o Pai Nosso, todos ajoelhados, com as mãos em cruz e cabeça baixa em contrição. Acreditava que Deus havia entrado em meu corpo. Minha alma resplandecia de um torpor que me elevava de forma a ter finalmente encontrado a felicidade. Isso com oito anos de idade. Depois vieram outras disciplinas que me fizeram cair numa outra realidade. Gostava do português, porém as matérias exatas não queriam se fazer entender com minha cabeça. Voltava para casa infeliz. Quando acordava cedo para seguir para a escola, ficava contente por poder ficar longe de minha casa e encontrar outras pessoas e poder conversar e ouvir coisas diferentes.
Andava quase uma hora para chegar até a escola. Meu irmão mais velho, Macário, me acompanhava. Meu outro irmão, Aristeu freqüentava a escola na parte vespertina. O nosso material consistia num caderno e um lápis. Com o tempo, conseguia com que algumas colegas de escola me dessem outros materiais. Dessa forma consegui um outro caderno, uma caneta tinteiro usada e vários lápis de cor. As aulas de desenho não me empolgavam. Mas os de literatura pareciam que abriam minha cabeça para algo que desconhecia.
Logo aprendi a ler e escrever. Como os livros eram escassos, peguei a bíblia de minha mãe. Não compreendia quase nada do que lia. Mas as palavras eram bonitas e parecia que tinham alma quando lida em voz alta. Quando minha mãe descobriu que pegava a bíblia dela, brigou e disse para nunca mais tocar naquele livro santo. Certo dia, falei para uma das irmãs catequistas da escola, que também eram professoras, que gostaria de ganhar uma bíblia. Ela disse que conseguiria uma para mim. Seria usada. Não me importei. Quando semanas depois ela me deu a bíblia, foi como uma semente nova que havia brotado em mim. Levava o livro para todo lugar, inclusive na roça. Nas paradas ocasionais para descansar, lia o livro sagrado em voz alta, já que não havia ninguém por perto. Parecia que minha vida se enchia de felicidade.
Quando completei os quatro primeiros anos de escola, já era amiga das Irmãs professora e dizia a elas que um dia também seguiria o caminho delas. Havia certo ciúme de outras alunas, já que eu sempre estava conversando com uma das professoras Irmãs. Com isso, minha vida na escola começou a azedar de forma a ficar a maior parte do tempo sozinha. Ainda assim gostava de freqüentar a escola e começar as aulas com orações. A vida na casa de meus pais parecia que não existia. Esquecia que eles existiam. Quando estava em casa não me sentia feliz. Mas assim que recordava que no dia seguinte voltaria para a escola, me sentia animada e um sorriso leve fazia com que a situação ficasse mais branda. Encontraria novamente as pessoas e as Irmãs professoras e poderia ouvir suas vozes diferentes daquelas da minha família. Os finais de semana não eram tão agradáveis assim. Porém, quando havia alguma folga, me entocava no quarto lendo o livro sagrado ou andava pela roça lendo-o em voz alta, apenas para poder ouvir minha voz, com aquelas palavras que me pareciam mágicas.
A primeira lembrança de minha infância são as orações de minha mãe. Os lábios se mexendo com sofreguidão, um zumbido saindo de sua boca e olhos fixos em sua santa de barro à sua frente. Algumas vezes a imitava, porém depois ela me recriminava, dizendo que sua Nossa Senhora me amaldiçoava por esse ato. Sou o sexto filho de uma família com sete filhos. Somos quatro rapazes e três moças. Os homens sempre foram os mais cobrados, devido ao trabalho da roça. Mas, nem por isso, meu pai deixava as mulheres da casa fora do trabalho na lavoura.
Depois que comecei a andar e discernir as pessoas da minha família, havia algo em meu pai que me desafiava. Respeito misturado com medo. Seu modo de falar e tratar minha mãe e meus irmãos me amedrontava. Havia ainda a forma como ele se alimentava à mesa. Por fim, sua constante bebedeira demonstrava um ser repugnante. Mas era meu pai. Mas no fundo de minha alma, não queria que fosse. Ele demonstrava tudo o que eu rejeitava numa pessoa.
Já mais crescido, via meu pai convidar meus irmãos Macário e Aristeu para jogar bocha com ele. Certo dia, com cinco anos de idade, ele me convidou. Mas achei melhor ficar perto de minha mãe. Sentia-me mais seguro. Com isso, fez com que ele nunca mais me convidasse para lugar nenhum. Dizia que eu não prestava para a lavoura e muito menos para jogar bocha com ele. Sentia-me rejeitado. E isso fez com que um ódio prematuro começasse a vingar. Porém houve momentos bastante agradáveis em minha infância.
Tinha muita afinidade com minhas irmãs. Principalmente Túlia, dois anos mais velha e bonita como ela só. Também Fátima e Tea, que cuidava dos irmãos mais novos como fosse nossa própria mãe. A pequena distância que se fazia entre mim e meus dois irmãos mais velhos fizeram com que eu me aproximasse de minhas irmãs. Elas se mostravam carinhosas e me tratavam bem. Talvez elas vissem que meu pai me tratava como a elas e isso nos aproximava. Não havia raiva ou revolta dos filhos contra o próprio pai. Porém uma distância se fez, junto com o medo, que ficávamos isolados dele, e com isso, também de meus irmãos.
Descobríamos plantas e flores, próximo de nossa casa. Algumas delas plantávamos nos arredores da casa. Em outras ocasiões percorríamos todos os ninhos das galinhas, para ver quem conseguia trazer mais ovos. Ajudava nos afazeres da casa, como lavar louça e também, depois que as roupas estavam lavadas, ajudava a pendurá-las. Gostava quando mamãe se postava frente a sua santa e rezava. Achava bonito aquele ato, sem saber ao certo o seu significado. Dava a impressão de certa santidade. Apesar de ela brigar comigo vez ou outra, via aquela mulher além das possibilidades dela.
Aos cinco anos papai disse para acompanhar meus irmãos na roça. Fui com certa apreensão, já que me achava impotente para um trabalho daquela envergadura. Magro e alto demais para a minha idade, meu pai dizia que eu precisava começar a pagar pela comida e cama que dormia. Não sabia exatamente o que ele queria dizer com isso, mas essas palavras ficaram martelas em minha mente. Meus irmãos não tinham pena de mim. Davam enxada e diziam para carpir. Comecei a tirar o matagal e as plantações também. Não tinha me dito o que teria que carpir. Apanhei de meu pai por destruir um pedaço de suas plantações. Tive que aprender a diferenciar um pé de aipim do mato, como descobrir a cebola, a couve, cenoura e outras culturas que plantávamos para nossa sobrevivência.
Acredito que uma das conseqüências do medo que tinha do meu pai foi minha fala. Não conseguia pronunciar palavra sem atropelar nelas mesma. Engasgava de tal forma, que ficava vermelho e logo chorava. A cada dia que tinha mais consciência desse problema, preferia ficar calado a ver os outros zombando de mim. Principalmente meu pai e meus irmãos. Minha mãe vinha em minha defesa, mas também evitava qualquer atrito com seu marido. Já minhas irmãs compreendiam melhor esse pormenor de minha vida. Esse trauma ficou mais acentuado, quando aos sete anos fui para a escola. Havia certo terror em abrir a boca para responder a chamada ou falar qualquer coisa. O nervosismo se apoderava de mim de tal forma que me fechava cada dia mais. Eu sempre imaginei que seria uma pessoa expansiva e de alguma fama. Minha mente fervilhava com essa possibilidade sendo tirada de mim. Ademais, eu tinha somente sete anos de idade.
Na escola os alunos de minha sala caçoavam de mim. Um ódio crescendo tomava conta que desejava as piores coisas para aqueles colegas de escola. A situação chegou a tal ponto, que sofria até pelo caminho da escola. Tínhamos que passar por uma imensa curva, cheia de mato. Essa curva era conhecida por volta fria, já que nenhum sol chegava ao local. Quase sempre eu caminhava sozinho em direção a escola. Meus irmãos partiam mais cedo ou estudavam no período vespertino. Alguns alunos de minha classe me esperavam na volta fria para literalmente, me ferir. Havia um arbusto, de caule da cor rocha e firme, que passavam sobre minhas pernas, deixando uma marca sobre a pele, como fosse um aranhão. Além disso, sangrava e ardia. Chegava à escola, nessas ocasiões, chorando. Uma das Irmãs professoras se condoia por mim. Entrou na sala de aula exigindo que os causadores daquelas marcas em meu corpo se apresentassem. Como ninguém se delatava, eu apontei os três meninos. Eles foram castigados. Depois daquele dia, minha vida piorou. Eles faziam aquilo vestindo uma touca ou uma camisa qualquer sobre o rosto. Portanto, eu não tinha como confirmar se eram as mesmas pessoas ou não. Além disso, um outro grupo me parou certo dia e me deram uma surra de eu ficar naquele dia sem ir para a escola. No outro dia a professora pediu o porquê de minha falta. Disse a ela que estava doente.
Mesmo assim meu aprendizado foi bom. Tive momentos interessantes, já que gostava de freqüentar a escola ou invés de carpir a terra. Vez ou outra esquecia de minha gagueira e falava atropeladamente. Meu nervosismo nessas ocasiões sempre me deixava pior, já que meu rosto fica rubro e vez ou outra também chorava. A leitura me deixava pior ainda. Quando iniciamos o período de leitura em voz alta, meu sofrimento parecia se tornar pior. A professora insistia e quando os colegas de classe riam de mim, ela ralhava com eles e insistia para que eu continuasse a ler. De quando em vez ela perguntava se eu não tinha como parar de gaguejar. Eu não conseguia responder, já que não sabia o que dizer. Por isso mesmo fiz poucas amizades. Conversava com um ou outro, também algumas meninas, mas sempre sem entusiasmo. Preferia ficar mais sozinho a ter que aturar brincadeiras que me deixavam irado.
Meus pais nunca perguntavam nada da escola. Apenas em algumas ocasiões especiais, levava um bilhete para eles da professora. Alguma homenagem ou o resultado do final do ano. Mesmo assim, eles achavam uma situação chata ter que se deslocar até a escola e parar com suas atividades. Nas ocasiões de festas, meu pai e minha mãe tomavam banho, colocavam roupas limpas e acompanhadas dos filhos, se dirigiam para a escola. Essas festas, duas por ano, sempre religiosas, havia barracas com comida, pescaria e um churrasco com pão e maionese. Sentia-me envergonhado. Achava meus pais pessoas pouco refinadas. Não que eu fosse. Mas eu percebia como o comportamento deles me constrangia. Tanto assim, que ficava distante deles o máximo que podia. Zanzava pelas barracas, observando e vendo famílias felizes e melhor vestidas.
Por vezes, conversava com um primo meu. Acho que era de terceiro grau. Baixinho, cabelos curtos e com um rosto bonito, porém parecia que sempre queria chorar. Tinha minha idade e usava roupas melhores. Mesmo assim, parecia tão infeliz quanto eu me sentia. Caminhei próximo da igreja e o padre da paróquia local diz que queria conversar comigo.
- Por que você não brinca com os outros rapazes? – Não entendi a pergunta do padre. Será que ele havia percebido que eu andava o tempo todo sozinho?
- Não sei. – Minha resposta também fora estranha, já que o padre foi adiante com seu interrogatório. Além disso, as duas palavras saíram sem eu gaguejar.
- Você gosta de ficar sozinho, não é mesmo Carlo?
- Sim, padre. – Novamente consegui falar sem atropelos, mas meu nervosismo estava num crescendo.
- Já havia observado. Então fiquei pensando com meus botões. Será que você gostaria de entrar para um convento e se tornar um religioso?
Aquele padre queria que eu fosse padre! Mãe de Deus. Nunca! Meu pai também não deixaria, já que precisava de mim na roça.
- Não! – Foi à única coisa que consegui pronunciar sem me engasgar todo. Será que ele sabia que eu não conseguia falar direito?
Deixei-o e fui em busca de minha família, que estava sentada em bancos improvisados, comendo alguma coisa. Sentia-me pegando fogo. Meu rosto devia estar vermelho e eu tremia todo. Não sei se de nervoso ou por ter falado com um padre e conseguido falar algumas frases. Sentei-me ao lado de minha irmã Tea. Ela parecia calada, já que todos os outros meus irmãos falavam pelos cotovelos. Minha mãe parecia contente e meu pai todo prosa, contando que pretendia se mudar para uma cidade maior. Fiquei interessado naquela conversa, mas não conseguia entender tudo. Fiquei sonhando como seria morar numa casa bonita, grande, sem aquela roça para cuidar e muito menos arrozais para plantar. A escola seria melhor, com professores diferentes e faria muitos novos amigos. Já via minha mãe com um vestido, deixando sua cintura marcada, perfumada, andando elegante de mãos dadas comigo. Fui desperto daquele sonho, quando Tea me disse que iríamos embora. Dei um sorriso, mas de satisfação. Dentro em pouco tempo ficaria longe daquele lugar.
Soube que naquele ano meu primo se mudou para outra cidade. Não sabia qual. Apenas que haviam vendido suas terras e foram morar na cidade. Mas minha família também se mudaria, pensei. Só que demorou dois anos para isso acontecer. Eu já estava no final da quarta série inicial de estudos e meu pai disse numa noite para aprontarmos todos nossos pertences que faríamos à mudança na semana seguinte. Fiquei feliz, mas minha mãe não. Ela gostava daquelas terras distantes e longe de todas as pessoas. Não sabia o motivo exato dessa mudança. Sempre pensei que meu pai jamais se mudaria dali. Em todo caso, apreciei essa decisão de meu pai.
Arrumamos nossas coisas em três carroças e seguimos com nossa mudança. Naquele dia acordamos numa madrugada fria. Quando o sol começou a se mostrar, já estávamos a caminho de nossa nova casa. Minha mãe havia preparado pão com queijo, lingüiça e também café com leite já com açúcar. Paramos duas vezes para comer e fazer as necessidades físicas no mato. Meu pai não cobrava dos cavalos e eles trotavam devagar, puxando uma carga pesada. Eu estava na última carroça, com Tea e meu irmão Aristeu com as rédeas, conduzindo os animais. No meio daquela tarde, paramos, pois uma parte de um armário havia caído na estrada. Meu pai soltou impropérios furiosos para todos. Macário, meu irmão mais velho e Aristeu o ajudaram e repor as madeiras sobre a carroça novamente. Em seguida continuamos devagar seguindo para nossa nova casa.
No final da tarde, passando por poucas casas e muito mato, chegamos à nova casa. Fiquei decepcionado. Nossa nova casa não ficava na cidade. Estava isolada, pois não consegui enxergar vizinho algum. Era toda de tijolos, com piso de tábuas grossas e um sótão. Havia muito mato em volta, com muitas arrozeiras nos fundos. Naquele dia, já noite, não conseguimos descarregar tudo. Ajeitamos o que foi possível mamãe preparou um jantar improvisado, com aipim, arroz e galinha frita. Depois nos acomodamos nos quartos. Havia quatro quartos. Eu fiquei com Bento num dos quartos, meus irmãos mais velhos em outro, as meninas no quarto do meio, e meus pais no quarto da frente. Os colchões de palha de arroz haviam sido jogados no chão e de tão cansados nos deitamos. Adormeci logo e somente acordei com as vozes de minha mãe e meu pai, um falava mal do outro num tom acima do normal. A partir daquele dia, minha mãe deixou meu pai no quarto sozinho. Ela dormiria no quarto das filhas.
Dois meses depois, ouvi minha mãe dizer para Tea que estava esperando outro filho. Os primeiros meses na nova casa foram difíceis. Precisávamos de armários para a cozinha, quartos, mesa, cadeiras. Nunca havia o suficiente. Também utensílios domésticos. Roupas e o serviço na roça nunca acabava. Também havia a escola. Minha mãe foi matricular os filhos na escola mais próxima, que ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Eu freqüentava as aulas no período da manhã, o que foi uma benção, achando que aprendia melhor. Morávamos na cidade de Guaramirim, no distrito de Guamiranga. Não havia ônibus e quando precisávamos se deslocar até a cidade, ou fazíamos o percurso a pé ou de carroça.
Mudamos-nos para Guamiranga em março de 1970. Eu estava com 11 anos e comecei a freqüentar a quinta série primária. As aulas pareciam mais interessantes, porém havia uma cobrança maior. Os quatro anos que passei nessa escola foram longos e pouco agradáveis. Talvez por minha culpa, já que não conseguia fazer amigos ou me enturmar com os meninos. Chorei no dia em que Tea foi embora da escola e de casa. Ela tinha sido prometida por minha mãe para Deus. Ela fora estudar com as freiras e só voltava no fim do ano. Com isso senti certa tristeza, mas logo passou, já que no final daquele ano de 1970 minha irmã Nina havia nascido. Minhas irmãs e eu cuidamos dela, já que minha mãe parecia não estar disposta por um longo período.
Quando chegava a casa, já cansado de andar, almoçava e em seguia meu pai e irmãos seguiam para a roça. Voltávamos para casa já noite. Lavávamos num tanque de cimento nos fundos da casa, trocávamos de roupa, jantávamos e alguns seguiam para o quarto e outros para a sala. Havia um pequeno rádio, movido à pilha, já que a energia elétrica ainda não havia chegado ao local. Conversávamos sobre as músicas, notícias, ríamos alto até meu pai gritar para que todos fossem dormir. Em outras ocasiões falávamos sobre a roça, a escola e vez ou outra meus dois irmãos mais velhos faziam encenações engraçadas de meu pai.
Meu problema com a fala continuava. Muitas vezes gostava de falar alguma coisa, esquecia que tropeçava nas palavras, não conseguindo terminar de falar o que gostaria. Com isso, ficava nervoso acima da conta, meu rosto tomava a cor de um tomate maduro e vez ou outra chorava. Meus irmãos também riam de mim e meu pai não agüentava esperar até eu terminar de tropeçar nas palavras, me mandava parar com aquilo e falar como homem. Com tudo isso, me sentia distante de meu pai e de meus irmãos.
No ano de 1973 completei 14 anos e cursava o último ano do ensino fundamental. Havia muitos rapazes que saiam de casa para trabalhar em Guaramirim ou mesmo em Jaraguá do Sul. Esta cidade ficava a 10 quilômetros da primeira e oferecia mais oportunidades para os jovens. Conversando com outros rapazes da escola ou mesmo somente ouvindo suas conversas, tomei a decisão de sair de casa, morar em alguma pensão e trabalhar em uma fábrica. Mas era preciso tomar coragem e contar para meu pai. Primeiro fui falar com mamãe. Ela disse que seria melhor, pois assim poderia me instruir melhor e não sofrer com o trabalho árduo da roça.
Meu pai continuava com o hábito de nas sextas-feiras e sábados sair para um jogo de bocha, num bar que havia pelas redondezas. Ele voltava para casa bêbado, mas agora que dormia sozinho, não mais maltratava minha mãe. Aproveitei uma ocasião, num sábado, antes de ele sair para seu jogo e bebida. Minha mãe estava por perto e disse a ele de minhas pretensões. Ele olhou para minha mãe, como se ela estivesse de conluio comigo. Não disse nada, o que estranhei. Porém, antes de fechar a porta falou tão rápido que pouco entendi o que ele havia dito. Algo como “eu não servir para a roça mesmo” e também uma insinuação que não havia entendido naquele momento: “quem sabe encontre sua turma”.
Fiquei entusiasmado com esse resultado. Teria minha liberdade e viveria num mundo e lugar melhores que a casa de meu pai. Também o fato de ficar distante dele me deixou feliz. Tea já estava longe de casa. Em suas visitas anuais, estava entusiasmada com a vida que lhe fora imposta. Eu tinha muitas dúvidas sobre o que aconteceria e dúvidas também quanto a questões pessoais. Sentia que eu não pertencia àquela família humilde, já que meus gostos e comportamento não se adequavam a nenhum dos meus irmãos. Por alguns dias fiquei matutando se eu era realmente filho deles. Quem sabe tinha sido trocado no hospital ou qualquer outra coisa que pudesse ter acontecido. Ainda assim, sentia por deixar minhas irmãs e mais precisamente Nina a mais nova delas.
Numa semana daquele ano aconteceu algo que até hoje não entendo ao certo como tudo se deu. Nina havia ficado doente e minha irmã Fátima cuidou dela. Elas ficaram num quarto sozinhas, já que ela estava febril e chorava muito. Minha mãe disse para que eu dormisse no quarto com Túlia. Como havia apenas um colchão grande com palha de milho seca, nos deitávamos juntos. Não sei precisar como tudo se deu. Mas nossos corpos, no meio da noite, ficaram grudados e senti que meu sexo se intumesceu. Ficava me esfregando no corpo de minha irmã, e por duas ocasiões ela permitiu que eu introduzisse meu membro em sua vagina. Foi um ato rápido e sem noção. Mas aconteceu e esse segredo ficou entre nós por toda nossa vida. Mas, de forma ainda estranha, continuou por toda minha vida me perturbando, até em minha orientação sexual.

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