CLAUSTRO LIBERTO
Palavras, leituras, impressões, literatura, livros, cinema, música...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Confusão!
Um guarda armado manda você cantar.
Você canta.
Ele manda que dance.
Você dança.
Manda fingir que é um porco.
Você finge.
Manda você lamber suas botas.
Você lambe.
Depois, ele lhe diz para "...........",
mas é uma palavra estrangeira que você não entende.
O que você faz?
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Nas sombras do pecado
Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Romanos 3:23
Como está escrito. Não há um justo, nem um sequer. Romanos 3:10- Tea gosta do papai? – Perguntava meu pai, enquanto meu rosto se franzia, num chororó que se vislumbrava. Meus olhos estavam úmidos e meu olhar não conseguia chegar aos de meu pai, já que eu estava no colo dele. Aléssio Vilotto, meu pai, tinha descendência italiana, com cara de mau, sempre com a barba por fazer. De estatura baixa, usava chapéu e possuía o rosto vincado pelo trabalho da roça, de sol a sol. Quando chegava da lavoura, tomava uma garrafa de cachaça, abusava de minha mãe e depois dormia como fosse um porco.
Eu nasci no dia da independência. Já tinha dois irmãos e vim num momento ruim. Mulher não era bem vinda, já que papai sempre preferia um filho homem para ajudar nos trabalhos da lavoura. Nasci numa casa simples de madeira, com as paredes feitas de tábuas grudadas uma nas outras, deixando gretas entre elas, e nos dias frios o vento gelava até os ossos. Eu nasci feia, com poucos cabelos. Havia uma mistura estranha em meu rosto. Algumas características masculinas, outras femininas. Nariz grande, orelhas de abano, olhos sem brilho, pouco peso e comprida. Meu pai disse que eu não serviria para nada, nem para o casamento. Já minha mãe me prometeu aos seus santos.
Logo em seguida ao meu nascimento, minha mãe Vanda ficou grávida novamente. Portanto, tive pouco menos de um ano de colo e atenção exclusiva de minha mãe. Depois disso, perambulava pela casa, quase sempre sozinha, ou quando meus dois irmãos chegavam do trabalho na roça, dando atenção de um minuto. Quando completei dois anos, tive como amigo um cachorro. Ele dormia no rancho, num ninho que se fez em cima de sacos velhos. Vez ou outra eu deitava ali com o animal, abraçada a ele e sentindo o calor dele. Quando meu pai me encontrava dormindo com o cachorro, pegava o animal e o surrava, até o pobre do cão sumir por dias seguidos.
Aos três anos ajudava minha mãe a cuidar de minha irmã Fátima. Minha mãe não podia, pois já estava para parir novamente. Assim, com quatro anos eu tinha como companhia duas irmãs e uma mãe se arrebentando no trabalho da casa e no período vespertino ajudava meu pai e meus dois irmãos mais velhos na lavoura. Meu pai plantava arroz. Era um trabalho pesado. Primeiro tinham que preparar a terra, revirando-a. Depois, os valos onde corria água eram limpos e tapumes em volta de pedaços enormes de terras precisavam ser arrumados, para que a água ficasse parada semanas, para em seguida semear o arroz. Minha mãe se queixava de dores nas pernas, já que permanecia na água e lodo grande parte do dia. Vinha completamente imunda para casa. Meus irmãos pareciam se divertir quando meu pai não estava por perto. Todos temiam o senhor Aléssio. Minha mãe também. Porém, minha mãe enfrentou meu pai numa ocasião. Disse que os dois meninos mais velhos precisavam ir para a escola. Meu pai não se convencia que a escola pudesse ensinar alguma coisa para os filhos e muito menos dar um futuro para eles. Depois da briga, no começo de um novo ano, ele disse para Macário, meu irmão mais velho, freqüentar a escola. A escola ficava a quase cinco quilômetros de nossa casa. Macário percorria todo o percurso a pé e quando voltava já no início da tarde, tinha que trabalhar na lavoura.
Vivíamos no interior de Massaranduba, município próximo a Blumenau. O lugar tinha sido colonizado por imigrantes poloneses e alemães. Alguns italianos apareceram por ali, mas a maioria se transferiu para o Rio Grande do Sul. Uma terra mais fria e melhor para o plantio da uva e sua conversão em vinho. Meu pai resolveu ficar ali mesmo e fez como os outros colonos. Além do arroz, havia toda uma atividade inerente de uma vida na roça. Plantava aipim, milho, verduras, além da criação de animais e galináceos. Havia leite em abundância e todos os derivados vindos dele.
O vizinho mais próximo ficava a mais de um quilômetro de distância. A terra de meu pai se encontrava numa pequena estrada, a mais de cinco quilômetros da principal. Nós éramos os últimos moradores daquela vila. A estrada acabava justamente na entrada de nossa casa. Depois dali, parte das terras pertencia a meu pai e o mato restante ninguém sabia quem era o dono. Vivíamos isolados e quase nunca aparecia ninguém para nos visitar. Não conhecia ninguém que não fosse de nossa família. Vez ou outra vinha alguém conversar com meu pai. Mas nessas ocasiões meu pai falava com o homem sem a presença de ninguém. Ouvia meu pai dizer para minha mãe que se tratava de um vizinho querendo emprestar alguma ferramenta.
- Tea gosta ficar no colo do papai? – Eu já sabia falar. Estava com cinco anos. Tentava procurar com os olhos alguém, mas nem meus irmãos e nem minha mãe estavam próximos. Ele estava sentado numa cadeira de madeira, próximo da mesa da cozinha. Eu pensava que papai queria me bater por alguma peraltice que eu havia cometido. Ou mesmo porque eu estivesse dormindo com o cachorro no rancho, mais uma vez.
- Tea gosta. – Foi o que consegui dizer. Meus olhos pareciam não enxergar nada, já que estavam cobertos de lágrimas. Minha visão ficou ofuscada e tremia toda vez que ele me apertava sobre seu colo. Alguma coisa me incomodava nesse ato. Em meus cinco anos, sabia que papai nunca fez carinho em filho algum. Nem sequer carregava os filhos ou mesmo os colocava em seu colo. Mas comigo foi diferente. Não porque ele gostasse de mim. Mas porque ele queria algo de mim. E eu não sabia o que.
- Papai quer que Tea pegue uma coisa. – Ele me colocou no chão. Fiquei parada frente a ele. Passei ambas as mãos sobre meu rosto e olhos para retirar as lágrimas que brotavam. Pensei que ele fosse me dar um presente, ou brinquedo quem sabe. Mas papai pegou minha mão pequena e posou sobre sua calça. Senti algo duro e quente. Somente isso. Ele pediu em seguida que eu passasse a mão sobre todo o local. Fiz isso devagar, sem pensar e nem imaginar o que estava acontecendo. De repente, vozes vindas de fora fizeram com que papai se levantasse e me desse um tabefe no meu rosto. Sai correndo da cozinha, sem lugar para me esconder. Fui parar no meio do mato, perto de um riacho.
Ele havia me batido. O que eu tinha feito para ele? Não era justo. Papai era malvado, pensei. Eu tinha feito tudo o que ele havia pedido. As lágrimas não vieram, mas sim, um sentimento de medo de meu pai. Não queria mais ficar sozinho com ele. Não sabia por quê. Foi a partir daquele dia que comecei a sentir raiva de meu próprio pai. Ele não era um pai carinhoso e quando foi me bateu sem que eu soubesse o que estava acontecendo. Fiquei próxima do rio por algum tempo. Quando voltei para casa, minha mãe havia feito um escândalo, dizendo que nunca mais maltratasse meu pai. Não respondi nada, pois não sabia o que dizer. Assim, meu martírio havia apenas iniciado.
Agora eu tinha dois irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. Cinco filhos e três mulheres. O desgosto de meu pai era imenso. Novamente minha mãe ficou grávida e meu pai esperava que dessa vez viesse um rapaz. Ainda bem que isso havia acontecido, pois meu pai não queria mais saber de filha que não tinha serventia nenhuma para ele. Carlo, meu irmão mais novo, nasceu bonito e com os cabelos um pouco crespos na cor castanha. Como eu era a mais velha das irmãs, cuidei do meu irmão, com a ajuda de Fátima e Túlia, minhas irmãs mais novas.
Achei engraçada a forma como meus pais davam os novos aos filhos. As meninas foi minha mãe que deu os nomes. Ela dizia, numa dessas conversas antes de dormir com os filhos, que quando era nova, ela não tinha trinta anos ainda, havia conhecido famílias que tinham filhos com os nomes de suas filhas. Já meu pai disse que nomes italianos de seus antepassados davam nomes aos seus filhos. Depois de Carlo, minha mãe ficou grávida de seu sétimo e último filho. Bento havia nascido com o rosto inchado e um pequeno corte no lábio superior. Ficou no hospital mais tempo do que todos. Havia algum problema. Ninguém conseguia explicar direito. Tinham que fazer uma operação nele. Mas depois de algumas semanas, Bento veio para casa e novamente às três filhas tomaram conta do irmão mais novo.
Naqueles dias que minha mãe havia ficado no hospital com meu irmão Bento, eu e minhas irmãs fazíamos o almoço e cuidávamos da casa. O hospital ficava distante, na cidade e meu pai reclamava o tempo todo que aquela criança podia ter morrido, já que estava causando despesa desnecessária. Nós não tínhamos como argumentar ou dizer qualquer coisa para ele. Meu pai apenas desabafava, já que nossa opinião a respeito não contava.
Quando mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, notei que ela havia feito um pequeno altar. Havia posto ali uma santa de barro, um terço, flores. Ajoelhava-se no chão e rezava. Também acendia uma vela, deixando-a bem próxima da santa de barro. Minha mãe nunca convidou meu pai para rezar com ela. Nem os filhos foram incentivados. Vez ou outra eu ficava ao lado dela. Ajoelhava e via os lábios de minha mãe se mexer. Eram rápidos. Um zunido vinha deles. Mas não entendia nada. Também não conseguia ficar ajoelhada muito tempo. Meus joelhos doíam. Então eu me levantava e ficava em frente a minha mãe, no pequeno espaço entre ela e seu altar. Minha mãe parava de mexer com os lábios e me olhava com seriedade. Eu me sentia expulsa dali. Saia para brincar com o cachorro ou com as minhas irmãs.
Nas semanas seguintes da volta de minha mãe para casa, ela parecia ter se tornado uma mulher estranha. Estava indiferente com os filhos e com o marido. Também em se tratando da casa e de seus afazeres, mamãe ficou num limbo. Seus olhos estavam sempre parados e contemplando o nada. Meu pai não notava esse tipo de coisas, pois as três filhas mulheres cuidavam para que tudo na casa fosse feito e com isso papai nada percebia. O diálogo entre eles nunca foi um forte. Nas noites de final de semana, que começava na sexta-feira, meu pai saia. Havia um bar a uma boa distância de nossa casa. Era freqüentado por colonos para jogar bocha, beber e encontrar os amigos. Na sua volta para casa, sempre de madrugada, ele mal conseguia entrar na casa. Muitas vezes eu com meus irmãos o carregávamos para dentro da casa e jogávamo-lo sobre a cama. Cheirava a bebida e ao palheiro, que nunca largava da boca. Mamãe não acordava ou fazia de conta que estava dormindo. Depois que mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, eles dormiam em quartos separados. Mamãe dizia que precisava se recuperar do parto e isso ficou como definitivo em suas vidas.
Fui surpreendida certo dia em que meu pai decretou que eu estava com idade para ajudá-lo na roça. Até então eu estava com uma vida boa e confortável em casa. Apesar de sempre estar ocupada com serviços domésticos, eu gostava de ficar com meus irmãos. Criei afinidade com meu irmão Carlo. Não sei explicar o porquê desta nossa ligação. O destino nos reservaria destinos opostos, porém extremamente ligados um no outro. Quanto eu brincava de boneca ele me ajudava e fazia de conta que era o pai delas. Minha única boneca era de pano, feita por minha mãe em sua máquina de costura. Carlo também cuidava dos arredores da casa. Em sua pouca idade, limpava o mato ao redor de pé de rosas e outras flores que minha mãe havia plantado. Quando fui pela primeira vez trabalhar na lavoura, chorei pelo afastamento que teria da casa e de minhas irmãs. Também, claro, por ficar distante de meu irmão Carlo.
Ajudei a carpir o mato de plantações de meu pai. A enxada que ele havia me dado era grande. Eu ainda pequena, parecia uma anã perante aquele instrumento de limpeza. O peso da enxada fazia com que eu me cansasse muito rapidamente. O sol me castigava e suava o tempo todo. Depois de terminar o serviço, voltava para casa, me lavava, jantava a mesa com todo mundo, ajudava minhas imãs a lavar a louça e logo em seguida me jogava na cama. No outro dia toda a rotina se repetia e assim todos os dias da semana. Descansávamos apenas no domingo e parecia um alívio ficar em casa, apesar de ajudar no almoço e limpeza.
Foi num dia de pouco sol, com nuvens encobrindo todo o céu, aconteceu o avanço de meu pai sobre mim. Eu estava sozinha, no meio de uma roça de aipim. Havia parado para descansar. Deixei a enxada de lado e sentei no chão. Brincava com alguns gravetos, jogando-os, ora empilhando ao meu lado. Como num assombro, de repente vi meu pai na minha frente. Fiquei com medo. Pensei que ele me bateria, já que não estava trabalhando. Mas ele disse para eu me levantar. Depois ele se abaixou, para ficar na minha altura. Deu-me um abraço e logo em seguida ele se deitou, me levando junto com ele. Não dizia nada. Pegava em meu corpo com suas mãos grossas e ásperas. Eu não gostava. Parecia que aquelas mãos me feriam ao invés de me agradarem. Ele levantou meu vestido e depois passou as mãos sobre minha calça comprida. A abaixou e então eu senti que as mãos de meu pai ficaram entre minhas pernas. Ele abaixou suas calças e deitou-se sobre mim. Eu estava sufocando, não conseguia respirar. Num repente, algo atingiu minha intimidade que, com medo, reprimi o grito e apenas lágrimas saiam do meu rosto. Não me permitia chorar. A vontade era imensa. Alguma coisa me rasgava. Sentia ardume e dor. Foram não mais que dois minutos. Meu pai se levantou e disse que aquilo seria nosso segredo. Quando ele se afastou, comecei a chorar. Não conseguia enxergar mais nada devido às lágrimas que encobriam meus olhos. Depois que cessei o choro e lágrimas, olhei entre minhas pernas. Havia sangue, suor e algo mais. Senti-me desesperada. O que meu pai tinha feito que houvesse saído sangue, me perguntava. O que faria? Será que teria que contar a minha mãe? Eu tinha muitas perguntas. Peguei uma parte da calça e passei sobre o local. Havia dor e ardia muito. Não conseguia ficar de pé. Permaneci sentada, às vezes me deitava no chão. Depois de um longo tempo, fiquei de pé, me limpei num córrego próximo. Joguei água sobre meu rosto, levantei a cabeça, fitando o céu. Fiquei imaginando se Deus aprovava aquilo que havia acontecido. Em meus sete anos de idade eu sabia que havia algo de errado. Talvez nem todos os pais fizessem aquilo com suas filhas. Mas agora não importava mais. Retirei o excesso de água do rosto, voltei ao trabalho. Quando retornei para casa, não encontrei meu pai. Já tarde da noite, ouvi vozes e um barulho. Meus irmãos estavam ajudando meu pai a entrar na casa. Ele estava bêbado e praticamente, inconsciente.
Aos oito anos fui estudar. A primeira coisa que aprendemos na escola foi rezar. Foi um momento glorioso. Dizer a Ave Maria e depois o Pai Nosso, todos ajoelhados, com as mãos em cruz e cabeça baixa em contrição. Acreditava que Deus havia entrado em meu corpo. Minha alma resplandecia de um torpor que me elevava de forma a ter finalmente encontrado a felicidade. Isso com oito anos de idade. Depois vieram outras disciplinas que me fizeram cair numa outra realidade. Gostava do português, porém as matérias exatas não queriam se fazer entender com minha cabeça. Voltava para casa infeliz. Quando acordava cedo para seguir para a escola, ficava contente por poder ficar longe de minha casa e encontrar outras pessoas e poder conversar e ouvir coisas diferentes.
Andava quase uma hora para chegar até a escola. Meu irmão mais velho, Macário, me acompanhava. Meu outro irmão, Aristeu freqüentava a escola na parte vespertina. O nosso material consistia num caderno e um lápis. Com o tempo, conseguia com que algumas colegas de escola me dessem outros materiais. Dessa forma consegui um outro caderno, uma caneta tinteiro usada e vários lápis de cor. As aulas de desenho não me empolgavam. Mas os de literatura pareciam que abriam minha cabeça para algo que desconhecia.
Logo aprendi a ler e escrever. Como os livros eram escassos, peguei a bíblia de minha mãe. Não compreendia quase nada do que lia. Mas as palavras eram bonitas e parecia que tinham alma quando lida em voz alta. Quando minha mãe descobriu que pegava a bíblia dela, brigou e disse para nunca mais tocar naquele livro santo. Certo dia, falei para uma das irmãs catequistas da escola, que também eram professoras, que gostaria de ganhar uma bíblia. Ela disse que conseguiria uma para mim. Seria usada. Não me importei. Quando semanas depois ela me deu a bíblia, foi como uma semente nova que havia brotado em mim. Levava o livro para todo lugar, inclusive na roça. Nas paradas ocasionais para descansar, lia o livro sagrado em voz alta, já que não havia ninguém por perto. Parecia que minha vida se enchia de felicidade.
Quando completei os quatro primeiros anos de escola, já era amiga das Irmãs professora e dizia a elas que um dia também seguiria o caminho delas. Havia certo ciúme de outras alunas, já que eu sempre estava conversando com uma das professoras Irmãs. Com isso, minha vida na escola começou a azedar de forma a ficar a maior parte do tempo sozinha. Ainda assim gostava de freqüentar a escola e começar as aulas com orações. A vida na casa de meus pais parecia que não existia. Esquecia que eles existiam. Quando estava em casa não me sentia feliz. Mas assim que recordava que no dia seguinte voltaria para a escola, me sentia animada e um sorriso leve fazia com que a situação ficasse mais branda. Encontraria novamente as pessoas e as Irmãs professoras e poderia ouvir suas vozes diferentes daquelas da minha família. Os finais de semana não eram tão agradáveis assim. Porém, quando havia alguma folga, me entocava no quarto lendo o livro sagrado ou andava pela roça lendo-o em voz alta, apenas para poder ouvir minha voz, com aquelas palavras que me pareciam mágicas.
A primeira lembrança de minha infância são as orações de minha mãe. Os lábios se mexendo com sofreguidão, um zumbido saindo de sua boca e olhos fixos em sua santa de barro à sua frente. Algumas vezes a imitava, porém depois ela me recriminava, dizendo que sua Nossa Senhora me amaldiçoava por esse ato. Sou o sexto filho de uma família com sete filhos. Somos quatro rapazes e três moças. Os homens sempre foram os mais cobrados, devido ao trabalho da roça. Mas, nem por isso, meu pai deixava as mulheres da casa fora do trabalho na lavoura.
Depois que comecei a andar e discernir as pessoas da minha família, havia algo em meu pai que me desafiava. Respeito misturado com medo. Seu modo de falar e tratar minha mãe e meus irmãos me amedrontava. Havia ainda a forma como ele se alimentava à mesa. Por fim, sua constante bebedeira demonstrava um ser repugnante. Mas era meu pai. Mas no fundo de minha alma, não queria que fosse. Ele demonstrava tudo o que eu rejeitava numa pessoa.
Já mais crescido, via meu pai convidar meus irmãos Macário e Aristeu para jogar bocha com ele. Certo dia, com cinco anos de idade, ele me convidou. Mas achei melhor ficar perto de minha mãe. Sentia-me mais seguro. Com isso, fez com que ele nunca mais me convidasse para lugar nenhum. Dizia que eu não prestava para a lavoura e muito menos para jogar bocha com ele. Sentia-me rejeitado. E isso fez com que um ódio prematuro começasse a vingar. Porém houve momentos bastante agradáveis em minha infância.
Tinha muita afinidade com minhas irmãs. Principalmente Túlia, dois anos mais velha e bonita como ela só. Também Fátima e Tea, que cuidava dos irmãos mais novos como fosse nossa própria mãe. A pequena distância que se fazia entre mim e meus dois irmãos mais velhos fizeram com que eu me aproximasse de minhas irmãs. Elas se mostravam carinhosas e me tratavam bem. Talvez elas vissem que meu pai me tratava como a elas e isso nos aproximava. Não havia raiva ou revolta dos filhos contra o próprio pai. Porém uma distância se fez, junto com o medo, que ficávamos isolados dele, e com isso, também de meus irmãos.
Descobríamos plantas e flores, próximo de nossa casa. Algumas delas plantávamos nos arredores da casa. Em outras ocasiões percorríamos todos os ninhos das galinhas, para ver quem conseguia trazer mais ovos. Ajudava nos afazeres da casa, como lavar louça e também, depois que as roupas estavam lavadas, ajudava a pendurá-las. Gostava quando mamãe se postava frente a sua santa e rezava. Achava bonito aquele ato, sem saber ao certo o seu significado. Dava a impressão de certa santidade. Apesar de ela brigar comigo vez ou outra, via aquela mulher além das possibilidades dela.
Aos cinco anos papai disse para acompanhar meus irmãos na roça. Fui com certa apreensão, já que me achava impotente para um trabalho daquela envergadura. Magro e alto demais para a minha idade, meu pai dizia que eu precisava começar a pagar pela comida e cama que dormia. Não sabia exatamente o que ele queria dizer com isso, mas essas palavras ficaram martelas em minha mente. Meus irmãos não tinham pena de mim. Davam enxada e diziam para carpir. Comecei a tirar o matagal e as plantações também. Não tinha me dito o que teria que carpir. Apanhei de meu pai por destruir um pedaço de suas plantações. Tive que aprender a diferenciar um pé de aipim do mato, como descobrir a cebola, a couve, cenoura e outras culturas que plantávamos para nossa sobrevivência.
Acredito que uma das conseqüências do medo que tinha do meu pai foi minha fala. Não conseguia pronunciar palavra sem atropelar nelas mesma. Engasgava de tal forma, que ficava vermelho e logo chorava. A cada dia que tinha mais consciência desse problema, preferia ficar calado a ver os outros zombando de mim. Principalmente meu pai e meus irmãos. Minha mãe vinha em minha defesa, mas também evitava qualquer atrito com seu marido. Já minhas irmãs compreendiam melhor esse pormenor de minha vida. Esse trauma ficou mais acentuado, quando aos sete anos fui para a escola. Havia certo terror em abrir a boca para responder a chamada ou falar qualquer coisa. O nervosismo se apoderava de mim de tal forma que me fechava cada dia mais. Eu sempre imaginei que seria uma pessoa expansiva e de alguma fama. Minha mente fervilhava com essa possibilidade sendo tirada de mim. Ademais, eu tinha somente sete anos de idade.
Na escola os alunos de minha sala caçoavam de mim. Um ódio crescendo tomava conta que desejava as piores coisas para aqueles colegas de escola. A situação chegou a tal ponto, que sofria até pelo caminho da escola. Tínhamos que passar por uma imensa curva, cheia de mato. Essa curva era conhecida por volta fria, já que nenhum sol chegava ao local. Quase sempre eu caminhava sozinho em direção a escola. Meus irmãos partiam mais cedo ou estudavam no período vespertino. Alguns alunos de minha classe me esperavam na volta fria para literalmente, me ferir. Havia um arbusto, de caule da cor rocha e firme, que passavam sobre minhas pernas, deixando uma marca sobre a pele, como fosse um aranhão. Além disso, sangrava e ardia. Chegava à escola, nessas ocasiões, chorando. Uma das Irmãs professoras se condoia por mim. Entrou na sala de aula exigindo que os causadores daquelas marcas em meu corpo se apresentassem. Como ninguém se delatava, eu apontei os três meninos. Eles foram castigados. Depois daquele dia, minha vida piorou. Eles faziam aquilo vestindo uma touca ou uma camisa qualquer sobre o rosto. Portanto, eu não tinha como confirmar se eram as mesmas pessoas ou não. Além disso, um outro grupo me parou certo dia e me deram uma surra de eu ficar naquele dia sem ir para a escola. No outro dia a professora pediu o porquê de minha falta. Disse a ela que estava doente.
Mesmo assim meu aprendizado foi bom. Tive momentos interessantes, já que gostava de freqüentar a escola ou invés de carpir a terra. Vez ou outra esquecia de minha gagueira e falava atropeladamente. Meu nervosismo nessas ocasiões sempre me deixava pior, já que meu rosto fica rubro e vez ou outra também chorava. A leitura me deixava pior ainda. Quando iniciamos o período de leitura em voz alta, meu sofrimento parecia se tornar pior. A professora insistia e quando os colegas de classe riam de mim, ela ralhava com eles e insistia para que eu continuasse a ler. De quando em vez ela perguntava se eu não tinha como parar de gaguejar. Eu não conseguia responder, já que não sabia o que dizer. Por isso mesmo fiz poucas amizades. Conversava com um ou outro, também algumas meninas, mas sempre sem entusiasmo. Preferia ficar mais sozinho a ter que aturar brincadeiras que me deixavam irado.
Meus pais nunca perguntavam nada da escola. Apenas em algumas ocasiões especiais, levava um bilhete para eles da professora. Alguma homenagem ou o resultado do final do ano. Mesmo assim, eles achavam uma situação chata ter que se deslocar até a escola e parar com suas atividades. Nas ocasiões de festas, meu pai e minha mãe tomavam banho, colocavam roupas limpas e acompanhadas dos filhos, se dirigiam para a escola. Essas festas, duas por ano, sempre religiosas, havia barracas com comida, pescaria e um churrasco com pão e maionese. Sentia-me envergonhado. Achava meus pais pessoas pouco refinadas. Não que eu fosse. Mas eu percebia como o comportamento deles me constrangia. Tanto assim, que ficava distante deles o máximo que podia. Zanzava pelas barracas, observando e vendo famílias felizes e melhor vestidas.
Por vezes, conversava com um primo meu. Acho que era de terceiro grau. Baixinho, cabelos curtos e com um rosto bonito, porém parecia que sempre queria chorar. Tinha minha idade e usava roupas melhores. Mesmo assim, parecia tão infeliz quanto eu me sentia. Caminhei próximo da igreja e o padre da paróquia local diz que queria conversar comigo.
- Por que você não brinca com os outros rapazes? – Não entendi a pergunta do padre. Será que ele havia percebido que eu andava o tempo todo sozinho?
- Não sei. – Minha resposta também fora estranha, já que o padre foi adiante com seu interrogatório. Além disso, as duas palavras saíram sem eu gaguejar.
- Você gosta de ficar sozinho, não é mesmo Carlo?
- Sim, padre. – Novamente consegui falar sem atropelos, mas meu nervosismo estava num crescendo.
- Já havia observado. Então fiquei pensando com meus botões. Será que você gostaria de entrar para um convento e se tornar um religioso?
Aquele padre queria que eu fosse padre! Mãe de Deus. Nunca! Meu pai também não deixaria, já que precisava de mim na roça.
- Não! – Foi à única coisa que consegui pronunciar sem me engasgar todo. Será que ele sabia que eu não conseguia falar direito?
Deixei-o e fui em busca de minha família, que estava sentada em bancos improvisados, comendo alguma coisa. Sentia-me pegando fogo. Meu rosto devia estar vermelho e eu tremia todo. Não sei se de nervoso ou por ter falado com um padre e conseguido falar algumas frases. Sentei-me ao lado de minha irmã Tea. Ela parecia calada, já que todos os outros meus irmãos falavam pelos cotovelos. Minha mãe parecia contente e meu pai todo prosa, contando que pretendia se mudar para uma cidade maior. Fiquei interessado naquela conversa, mas não conseguia entender tudo. Fiquei sonhando como seria morar numa casa bonita, grande, sem aquela roça para cuidar e muito menos arrozais para plantar. A escola seria melhor, com professores diferentes e faria muitos novos amigos. Já via minha mãe com um vestido, deixando sua cintura marcada, perfumada, andando elegante de mãos dadas comigo. Fui desperto daquele sonho, quando Tea me disse que iríamos embora. Dei um sorriso, mas de satisfação. Dentro em pouco tempo ficaria longe daquele lugar.
Soube que naquele ano meu primo se mudou para outra cidade. Não sabia qual. Apenas que haviam vendido suas terras e foram morar na cidade. Mas minha família também se mudaria, pensei. Só que demorou dois anos para isso acontecer. Eu já estava no final da quarta série inicial de estudos e meu pai disse numa noite para aprontarmos todos nossos pertences que faríamos à mudança na semana seguinte. Fiquei feliz, mas minha mãe não. Ela gostava daquelas terras distantes e longe de todas as pessoas. Não sabia o motivo exato dessa mudança. Sempre pensei que meu pai jamais se mudaria dali. Em todo caso, apreciei essa decisão de meu pai.
Arrumamos nossas coisas em três carroças e seguimos com nossa mudança. Naquele dia acordamos numa madrugada fria. Quando o sol começou a se mostrar, já estávamos a caminho de nossa nova casa. Minha mãe havia preparado pão com queijo, lingüiça e também café com leite já com açúcar. Paramos duas vezes para comer e fazer as necessidades físicas no mato. Meu pai não cobrava dos cavalos e eles trotavam devagar, puxando uma carga pesada. Eu estava na última carroça, com Tea e meu irmão Aristeu com as rédeas, conduzindo os animais. No meio daquela tarde, paramos, pois uma parte de um armário havia caído na estrada. Meu pai soltou impropérios furiosos para todos. Macário, meu irmão mais velho e Aristeu o ajudaram e repor as madeiras sobre a carroça novamente. Em seguida continuamos devagar seguindo para nossa nova casa.
No final da tarde, passando por poucas casas e muito mato, chegamos à nova casa. Fiquei decepcionado. Nossa nova casa não ficava na cidade. Estava isolada, pois não consegui enxergar vizinho algum. Era toda de tijolos, com piso de tábuas grossas e um sótão. Havia muito mato em volta, com muitas arrozeiras nos fundos. Naquele dia, já noite, não conseguimos descarregar tudo. Ajeitamos o que foi possível mamãe preparou um jantar improvisado, com aipim, arroz e galinha frita. Depois nos acomodamos nos quartos. Havia quatro quartos. Eu fiquei com Bento num dos quartos, meus irmãos mais velhos em outro, as meninas no quarto do meio, e meus pais no quarto da frente. Os colchões de palha de arroz haviam sido jogados no chão e de tão cansados nos deitamos. Adormeci logo e somente acordei com as vozes de minha mãe e meu pai, um falava mal do outro num tom acima do normal. A partir daquele dia, minha mãe deixou meu pai no quarto sozinho. Ela dormiria no quarto das filhas.
Dois meses depois, ouvi minha mãe dizer para Tea que estava esperando outro filho. Os primeiros meses na nova casa foram difíceis. Precisávamos de armários para a cozinha, quartos, mesa, cadeiras. Nunca havia o suficiente. Também utensílios domésticos. Roupas e o serviço na roça nunca acabava. Também havia a escola. Minha mãe foi matricular os filhos na escola mais próxima, que ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Eu freqüentava as aulas no período da manhã, o que foi uma benção, achando que aprendia melhor. Morávamos na cidade de Guaramirim, no distrito de Guamiranga. Não havia ônibus e quando precisávamos se deslocar até a cidade, ou fazíamos o percurso a pé ou de carroça.
Mudamos-nos para Guamiranga em março de 1970. Eu estava com 11 anos e comecei a freqüentar a quinta série primária. As aulas pareciam mais interessantes, porém havia uma cobrança maior. Os quatro anos que passei nessa escola foram longos e pouco agradáveis. Talvez por minha culpa, já que não conseguia fazer amigos ou me enturmar com os meninos. Chorei no dia em que Tea foi embora da escola e de casa. Ela tinha sido prometida por minha mãe para Deus. Ela fora estudar com as freiras e só voltava no fim do ano. Com isso senti certa tristeza, mas logo passou, já que no final daquele ano de 1970 minha irmã Nina havia nascido. Minhas irmãs e eu cuidamos dela, já que minha mãe parecia não estar disposta por um longo período.
Quando chegava a casa, já cansado de andar, almoçava e em seguia meu pai e irmãos seguiam para a roça. Voltávamos para casa já noite. Lavávamos num tanque de cimento nos fundos da casa, trocávamos de roupa, jantávamos e alguns seguiam para o quarto e outros para a sala. Havia um pequeno rádio, movido à pilha, já que a energia elétrica ainda não havia chegado ao local. Conversávamos sobre as músicas, notícias, ríamos alto até meu pai gritar para que todos fossem dormir. Em outras ocasiões falávamos sobre a roça, a escola e vez ou outra meus dois irmãos mais velhos faziam encenações engraçadas de meu pai.
Meu problema com a fala continuava. Muitas vezes gostava de falar alguma coisa, esquecia que tropeçava nas palavras, não conseguindo terminar de falar o que gostaria. Com isso, ficava nervoso acima da conta, meu rosto tomava a cor de um tomate maduro e vez ou outra chorava. Meus irmãos também riam de mim e meu pai não agüentava esperar até eu terminar de tropeçar nas palavras, me mandava parar com aquilo e falar como homem. Com tudo isso, me sentia distante de meu pai e de meus irmãos.
No ano de 1973 completei 14 anos e cursava o último ano do ensino fundamental. Havia muitos rapazes que saiam de casa para trabalhar em Guaramirim ou mesmo em Jaraguá do Sul. Esta cidade ficava a 10 quilômetros da primeira e oferecia mais oportunidades para os jovens. Conversando com outros rapazes da escola ou mesmo somente ouvindo suas conversas, tomei a decisão de sair de casa, morar em alguma pensão e trabalhar em uma fábrica. Mas era preciso tomar coragem e contar para meu pai. Primeiro fui falar com mamãe. Ela disse que seria melhor, pois assim poderia me instruir melhor e não sofrer com o trabalho árduo da roça.
Meu pai continuava com o hábito de nas sextas-feiras e sábados sair para um jogo de bocha, num bar que havia pelas redondezas. Ele voltava para casa bêbado, mas agora que dormia sozinho, não mais maltratava minha mãe. Aproveitei uma ocasião, num sábado, antes de ele sair para seu jogo e bebida. Minha mãe estava por perto e disse a ele de minhas pretensões. Ele olhou para minha mãe, como se ela estivesse de conluio comigo. Não disse nada, o que estranhei. Porém, antes de fechar a porta falou tão rápido que pouco entendi o que ele havia dito. Algo como “eu não servir para a roça mesmo” e também uma insinuação que não havia entendido naquele momento: “quem sabe encontre sua turma”.
Fiquei entusiasmado com esse resultado. Teria minha liberdade e viveria num mundo e lugar melhores que a casa de meu pai. Também o fato de ficar distante dele me deixou feliz. Tea já estava longe de casa. Em suas visitas anuais, estava entusiasmada com a vida que lhe fora imposta. Eu tinha muitas dúvidas sobre o que aconteceria e dúvidas também quanto a questões pessoais. Sentia que eu não pertencia àquela família humilde, já que meus gostos e comportamento não se adequavam a nenhum dos meus irmãos. Por alguns dias fiquei matutando se eu era realmente filho deles. Quem sabe tinha sido trocado no hospital ou qualquer outra coisa que pudesse ter acontecido. Ainda assim, sentia por deixar minhas irmãs e mais precisamente Nina a mais nova delas.
Numa semana daquele ano aconteceu algo que até hoje não entendo ao certo como tudo se deu. Nina havia ficado doente e minha irmã Fátima cuidou dela. Elas ficaram num quarto sozinhas, já que ela estava febril e chorava muito. Minha mãe disse para que eu dormisse no quarto com Túlia. Como havia apenas um colchão grande com palha de milho seca, nos deitávamos juntos. Não sei precisar como tudo se deu. Mas nossos corpos, no meio da noite, ficaram grudados e senti que meu sexo se intumesceu. Ficava me esfregando no corpo de minha irmã, e por duas ocasiões ela permitiu que eu introduzisse meu membro em sua vagina. Foi um ato rápido e sem noção. Mas aconteceu e esse segredo ficou entre nós por toda nossa vida. Mas, de forma ainda estranha, continuou por toda minha vida me perturbando, até em minha orientação sexual.
Eu nasci no dia da independência. Já tinha dois irmãos e vim num momento ruim. Mulher não era bem vinda, já que papai sempre preferia um filho homem para ajudar nos trabalhos da lavoura. Nasci numa casa simples de madeira, com as paredes feitas de tábuas grudadas uma nas outras, deixando gretas entre elas, e nos dias frios o vento gelava até os ossos. Eu nasci feia, com poucos cabelos. Havia uma mistura estranha em meu rosto. Algumas características masculinas, outras femininas. Nariz grande, orelhas de abano, olhos sem brilho, pouco peso e comprida. Meu pai disse que eu não serviria para nada, nem para o casamento. Já minha mãe me prometeu aos seus santos.
Logo em seguida ao meu nascimento, minha mãe Vanda ficou grávida novamente. Portanto, tive pouco menos de um ano de colo e atenção exclusiva de minha mãe. Depois disso, perambulava pela casa, quase sempre sozinha, ou quando meus dois irmãos chegavam do trabalho na roça, dando atenção de um minuto. Quando completei dois anos, tive como amigo um cachorro. Ele dormia no rancho, num ninho que se fez em cima de sacos velhos. Vez ou outra eu deitava ali com o animal, abraçada a ele e sentindo o calor dele. Quando meu pai me encontrava dormindo com o cachorro, pegava o animal e o surrava, até o pobre do cão sumir por dias seguidos.
Aos três anos ajudava minha mãe a cuidar de minha irmã Fátima. Minha mãe não podia, pois já estava para parir novamente. Assim, com quatro anos eu tinha como companhia duas irmãs e uma mãe se arrebentando no trabalho da casa e no período vespertino ajudava meu pai e meus dois irmãos mais velhos na lavoura. Meu pai plantava arroz. Era um trabalho pesado. Primeiro tinham que preparar a terra, revirando-a. Depois, os valos onde corria água eram limpos e tapumes em volta de pedaços enormes de terras precisavam ser arrumados, para que a água ficasse parada semanas, para em seguida semear o arroz. Minha mãe se queixava de dores nas pernas, já que permanecia na água e lodo grande parte do dia. Vinha completamente imunda para casa. Meus irmãos pareciam se divertir quando meu pai não estava por perto. Todos temiam o senhor Aléssio. Minha mãe também. Porém, minha mãe enfrentou meu pai numa ocasião. Disse que os dois meninos mais velhos precisavam ir para a escola. Meu pai não se convencia que a escola pudesse ensinar alguma coisa para os filhos e muito menos dar um futuro para eles. Depois da briga, no começo de um novo ano, ele disse para Macário, meu irmão mais velho, freqüentar a escola. A escola ficava a quase cinco quilômetros de nossa casa. Macário percorria todo o percurso a pé e quando voltava já no início da tarde, tinha que trabalhar na lavoura.
Vivíamos no interior de Massaranduba, município próximo a Blumenau. O lugar tinha sido colonizado por imigrantes poloneses e alemães. Alguns italianos apareceram por ali, mas a maioria se transferiu para o Rio Grande do Sul. Uma terra mais fria e melhor para o plantio da uva e sua conversão em vinho. Meu pai resolveu ficar ali mesmo e fez como os outros colonos. Além do arroz, havia toda uma atividade inerente de uma vida na roça. Plantava aipim, milho, verduras, além da criação de animais e galináceos. Havia leite em abundância e todos os derivados vindos dele.
O vizinho mais próximo ficava a mais de um quilômetro de distância. A terra de meu pai se encontrava numa pequena estrada, a mais de cinco quilômetros da principal. Nós éramos os últimos moradores daquela vila. A estrada acabava justamente na entrada de nossa casa. Depois dali, parte das terras pertencia a meu pai e o mato restante ninguém sabia quem era o dono. Vivíamos isolados e quase nunca aparecia ninguém para nos visitar. Não conhecia ninguém que não fosse de nossa família. Vez ou outra vinha alguém conversar com meu pai. Mas nessas ocasiões meu pai falava com o homem sem a presença de ninguém. Ouvia meu pai dizer para minha mãe que se tratava de um vizinho querendo emprestar alguma ferramenta.
- Tea gosta ficar no colo do papai? – Eu já sabia falar. Estava com cinco anos. Tentava procurar com os olhos alguém, mas nem meus irmãos e nem minha mãe estavam próximos. Ele estava sentado numa cadeira de madeira, próximo da mesa da cozinha. Eu pensava que papai queria me bater por alguma peraltice que eu havia cometido. Ou mesmo porque eu estivesse dormindo com o cachorro no rancho, mais uma vez.
- Tea gosta. – Foi o que consegui dizer. Meus olhos pareciam não enxergar nada, já que estavam cobertos de lágrimas. Minha visão ficou ofuscada e tremia toda vez que ele me apertava sobre seu colo. Alguma coisa me incomodava nesse ato. Em meus cinco anos, sabia que papai nunca fez carinho em filho algum. Nem sequer carregava os filhos ou mesmo os colocava em seu colo. Mas comigo foi diferente. Não porque ele gostasse de mim. Mas porque ele queria algo de mim. E eu não sabia o que.
- Papai quer que Tea pegue uma coisa. – Ele me colocou no chão. Fiquei parada frente a ele. Passei ambas as mãos sobre meu rosto e olhos para retirar as lágrimas que brotavam. Pensei que ele fosse me dar um presente, ou brinquedo quem sabe. Mas papai pegou minha mão pequena e posou sobre sua calça. Senti algo duro e quente. Somente isso. Ele pediu em seguida que eu passasse a mão sobre todo o local. Fiz isso devagar, sem pensar e nem imaginar o que estava acontecendo. De repente, vozes vindas de fora fizeram com que papai se levantasse e me desse um tabefe no meu rosto. Sai correndo da cozinha, sem lugar para me esconder. Fui parar no meio do mato, perto de um riacho.
Ele havia me batido. O que eu tinha feito para ele? Não era justo. Papai era malvado, pensei. Eu tinha feito tudo o que ele havia pedido. As lágrimas não vieram, mas sim, um sentimento de medo de meu pai. Não queria mais ficar sozinho com ele. Não sabia por quê. Foi a partir daquele dia que comecei a sentir raiva de meu próprio pai. Ele não era um pai carinhoso e quando foi me bateu sem que eu soubesse o que estava acontecendo. Fiquei próxima do rio por algum tempo. Quando voltei para casa, minha mãe havia feito um escândalo, dizendo que nunca mais maltratasse meu pai. Não respondi nada, pois não sabia o que dizer. Assim, meu martírio havia apenas iniciado.
Agora eu tinha dois irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. Cinco filhos e três mulheres. O desgosto de meu pai era imenso. Novamente minha mãe ficou grávida e meu pai esperava que dessa vez viesse um rapaz. Ainda bem que isso havia acontecido, pois meu pai não queria mais saber de filha que não tinha serventia nenhuma para ele. Carlo, meu irmão mais novo, nasceu bonito e com os cabelos um pouco crespos na cor castanha. Como eu era a mais velha das irmãs, cuidei do meu irmão, com a ajuda de Fátima e Túlia, minhas irmãs mais novas.
Achei engraçada a forma como meus pais davam os novos aos filhos. As meninas foi minha mãe que deu os nomes. Ela dizia, numa dessas conversas antes de dormir com os filhos, que quando era nova, ela não tinha trinta anos ainda, havia conhecido famílias que tinham filhos com os nomes de suas filhas. Já meu pai disse que nomes italianos de seus antepassados davam nomes aos seus filhos. Depois de Carlo, minha mãe ficou grávida de seu sétimo e último filho. Bento havia nascido com o rosto inchado e um pequeno corte no lábio superior. Ficou no hospital mais tempo do que todos. Havia algum problema. Ninguém conseguia explicar direito. Tinham que fazer uma operação nele. Mas depois de algumas semanas, Bento veio para casa e novamente às três filhas tomaram conta do irmão mais novo.
Naqueles dias que minha mãe havia ficado no hospital com meu irmão Bento, eu e minhas irmãs fazíamos o almoço e cuidávamos da casa. O hospital ficava distante, na cidade e meu pai reclamava o tempo todo que aquela criança podia ter morrido, já que estava causando despesa desnecessária. Nós não tínhamos como argumentar ou dizer qualquer coisa para ele. Meu pai apenas desabafava, já que nossa opinião a respeito não contava.
Quando mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, notei que ela havia feito um pequeno altar. Havia posto ali uma santa de barro, um terço, flores. Ajoelhava-se no chão e rezava. Também acendia uma vela, deixando-a bem próxima da santa de barro. Minha mãe nunca convidou meu pai para rezar com ela. Nem os filhos foram incentivados. Vez ou outra eu ficava ao lado dela. Ajoelhava e via os lábios de minha mãe se mexer. Eram rápidos. Um zunido vinha deles. Mas não entendia nada. Também não conseguia ficar ajoelhada muito tempo. Meus joelhos doíam. Então eu me levantava e ficava em frente a minha mãe, no pequeno espaço entre ela e seu altar. Minha mãe parava de mexer com os lábios e me olhava com seriedade. Eu me sentia expulsa dali. Saia para brincar com o cachorro ou com as minhas irmãs.
Nas semanas seguintes da volta de minha mãe para casa, ela parecia ter se tornado uma mulher estranha. Estava indiferente com os filhos e com o marido. Também em se tratando da casa e de seus afazeres, mamãe ficou num limbo. Seus olhos estavam sempre parados e contemplando o nada. Meu pai não notava esse tipo de coisas, pois as três filhas mulheres cuidavam para que tudo na casa fosse feito e com isso papai nada percebia. O diálogo entre eles nunca foi um forte. Nas noites de final de semana, que começava na sexta-feira, meu pai saia. Havia um bar a uma boa distância de nossa casa. Era freqüentado por colonos para jogar bocha, beber e encontrar os amigos. Na sua volta para casa, sempre de madrugada, ele mal conseguia entrar na casa. Muitas vezes eu com meus irmãos o carregávamos para dentro da casa e jogávamo-lo sobre a cama. Cheirava a bebida e ao palheiro, que nunca largava da boca. Mamãe não acordava ou fazia de conta que estava dormindo. Depois que mamãe voltou do hospital com meu irmão Bento, eles dormiam em quartos separados. Mamãe dizia que precisava se recuperar do parto e isso ficou como definitivo em suas vidas.
Fui surpreendida certo dia em que meu pai decretou que eu estava com idade para ajudá-lo na roça. Até então eu estava com uma vida boa e confortável em casa. Apesar de sempre estar ocupada com serviços domésticos, eu gostava de ficar com meus irmãos. Criei afinidade com meu irmão Carlo. Não sei explicar o porquê desta nossa ligação. O destino nos reservaria destinos opostos, porém extremamente ligados um no outro. Quanto eu brincava de boneca ele me ajudava e fazia de conta que era o pai delas. Minha única boneca era de pano, feita por minha mãe em sua máquina de costura. Carlo também cuidava dos arredores da casa. Em sua pouca idade, limpava o mato ao redor de pé de rosas e outras flores que minha mãe havia plantado. Quando fui pela primeira vez trabalhar na lavoura, chorei pelo afastamento que teria da casa e de minhas irmãs. Também, claro, por ficar distante de meu irmão Carlo.
Ajudei a carpir o mato de plantações de meu pai. A enxada que ele havia me dado era grande. Eu ainda pequena, parecia uma anã perante aquele instrumento de limpeza. O peso da enxada fazia com que eu me cansasse muito rapidamente. O sol me castigava e suava o tempo todo. Depois de terminar o serviço, voltava para casa, me lavava, jantava a mesa com todo mundo, ajudava minhas imãs a lavar a louça e logo em seguida me jogava na cama. No outro dia toda a rotina se repetia e assim todos os dias da semana. Descansávamos apenas no domingo e parecia um alívio ficar em casa, apesar de ajudar no almoço e limpeza.
Foi num dia de pouco sol, com nuvens encobrindo todo o céu, aconteceu o avanço de meu pai sobre mim. Eu estava sozinha, no meio de uma roça de aipim. Havia parado para descansar. Deixei a enxada de lado e sentei no chão. Brincava com alguns gravetos, jogando-os, ora empilhando ao meu lado. Como num assombro, de repente vi meu pai na minha frente. Fiquei com medo. Pensei que ele me bateria, já que não estava trabalhando. Mas ele disse para eu me levantar. Depois ele se abaixou, para ficar na minha altura. Deu-me um abraço e logo em seguida ele se deitou, me levando junto com ele. Não dizia nada. Pegava em meu corpo com suas mãos grossas e ásperas. Eu não gostava. Parecia que aquelas mãos me feriam ao invés de me agradarem. Ele levantou meu vestido e depois passou as mãos sobre minha calça comprida. A abaixou e então eu senti que as mãos de meu pai ficaram entre minhas pernas. Ele abaixou suas calças e deitou-se sobre mim. Eu estava sufocando, não conseguia respirar. Num repente, algo atingiu minha intimidade que, com medo, reprimi o grito e apenas lágrimas saiam do meu rosto. Não me permitia chorar. A vontade era imensa. Alguma coisa me rasgava. Sentia ardume e dor. Foram não mais que dois minutos. Meu pai se levantou e disse que aquilo seria nosso segredo. Quando ele se afastou, comecei a chorar. Não conseguia enxergar mais nada devido às lágrimas que encobriam meus olhos. Depois que cessei o choro e lágrimas, olhei entre minhas pernas. Havia sangue, suor e algo mais. Senti-me desesperada. O que meu pai tinha feito que houvesse saído sangue, me perguntava. O que faria? Será que teria que contar a minha mãe? Eu tinha muitas perguntas. Peguei uma parte da calça e passei sobre o local. Havia dor e ardia muito. Não conseguia ficar de pé. Permaneci sentada, às vezes me deitava no chão. Depois de um longo tempo, fiquei de pé, me limpei num córrego próximo. Joguei água sobre meu rosto, levantei a cabeça, fitando o céu. Fiquei imaginando se Deus aprovava aquilo que havia acontecido. Em meus sete anos de idade eu sabia que havia algo de errado. Talvez nem todos os pais fizessem aquilo com suas filhas. Mas agora não importava mais. Retirei o excesso de água do rosto, voltei ao trabalho. Quando retornei para casa, não encontrei meu pai. Já tarde da noite, ouvi vozes e um barulho. Meus irmãos estavam ajudando meu pai a entrar na casa. Ele estava bêbado e praticamente, inconsciente.
Aos oito anos fui estudar. A primeira coisa que aprendemos na escola foi rezar. Foi um momento glorioso. Dizer a Ave Maria e depois o Pai Nosso, todos ajoelhados, com as mãos em cruz e cabeça baixa em contrição. Acreditava que Deus havia entrado em meu corpo. Minha alma resplandecia de um torpor que me elevava de forma a ter finalmente encontrado a felicidade. Isso com oito anos de idade. Depois vieram outras disciplinas que me fizeram cair numa outra realidade. Gostava do português, porém as matérias exatas não queriam se fazer entender com minha cabeça. Voltava para casa infeliz. Quando acordava cedo para seguir para a escola, ficava contente por poder ficar longe de minha casa e encontrar outras pessoas e poder conversar e ouvir coisas diferentes.
Andava quase uma hora para chegar até a escola. Meu irmão mais velho, Macário, me acompanhava. Meu outro irmão, Aristeu freqüentava a escola na parte vespertina. O nosso material consistia num caderno e um lápis. Com o tempo, conseguia com que algumas colegas de escola me dessem outros materiais. Dessa forma consegui um outro caderno, uma caneta tinteiro usada e vários lápis de cor. As aulas de desenho não me empolgavam. Mas os de literatura pareciam que abriam minha cabeça para algo que desconhecia.
Logo aprendi a ler e escrever. Como os livros eram escassos, peguei a bíblia de minha mãe. Não compreendia quase nada do que lia. Mas as palavras eram bonitas e parecia que tinham alma quando lida em voz alta. Quando minha mãe descobriu que pegava a bíblia dela, brigou e disse para nunca mais tocar naquele livro santo. Certo dia, falei para uma das irmãs catequistas da escola, que também eram professoras, que gostaria de ganhar uma bíblia. Ela disse que conseguiria uma para mim. Seria usada. Não me importei. Quando semanas depois ela me deu a bíblia, foi como uma semente nova que havia brotado em mim. Levava o livro para todo lugar, inclusive na roça. Nas paradas ocasionais para descansar, lia o livro sagrado em voz alta, já que não havia ninguém por perto. Parecia que minha vida se enchia de felicidade.
Quando completei os quatro primeiros anos de escola, já era amiga das Irmãs professora e dizia a elas que um dia também seguiria o caminho delas. Havia certo ciúme de outras alunas, já que eu sempre estava conversando com uma das professoras Irmãs. Com isso, minha vida na escola começou a azedar de forma a ficar a maior parte do tempo sozinha. Ainda assim gostava de freqüentar a escola e começar as aulas com orações. A vida na casa de meus pais parecia que não existia. Esquecia que eles existiam. Quando estava em casa não me sentia feliz. Mas assim que recordava que no dia seguinte voltaria para a escola, me sentia animada e um sorriso leve fazia com que a situação ficasse mais branda. Encontraria novamente as pessoas e as Irmãs professoras e poderia ouvir suas vozes diferentes daquelas da minha família. Os finais de semana não eram tão agradáveis assim. Porém, quando havia alguma folga, me entocava no quarto lendo o livro sagrado ou andava pela roça lendo-o em voz alta, apenas para poder ouvir minha voz, com aquelas palavras que me pareciam mágicas.
A primeira lembrança de minha infância são as orações de minha mãe. Os lábios se mexendo com sofreguidão, um zumbido saindo de sua boca e olhos fixos em sua santa de barro à sua frente. Algumas vezes a imitava, porém depois ela me recriminava, dizendo que sua Nossa Senhora me amaldiçoava por esse ato. Sou o sexto filho de uma família com sete filhos. Somos quatro rapazes e três moças. Os homens sempre foram os mais cobrados, devido ao trabalho da roça. Mas, nem por isso, meu pai deixava as mulheres da casa fora do trabalho na lavoura.
Depois que comecei a andar e discernir as pessoas da minha família, havia algo em meu pai que me desafiava. Respeito misturado com medo. Seu modo de falar e tratar minha mãe e meus irmãos me amedrontava. Havia ainda a forma como ele se alimentava à mesa. Por fim, sua constante bebedeira demonstrava um ser repugnante. Mas era meu pai. Mas no fundo de minha alma, não queria que fosse. Ele demonstrava tudo o que eu rejeitava numa pessoa.
Já mais crescido, via meu pai convidar meus irmãos Macário e Aristeu para jogar bocha com ele. Certo dia, com cinco anos de idade, ele me convidou. Mas achei melhor ficar perto de minha mãe. Sentia-me mais seguro. Com isso, fez com que ele nunca mais me convidasse para lugar nenhum. Dizia que eu não prestava para a lavoura e muito menos para jogar bocha com ele. Sentia-me rejeitado. E isso fez com que um ódio prematuro começasse a vingar. Porém houve momentos bastante agradáveis em minha infância.
Tinha muita afinidade com minhas irmãs. Principalmente Túlia, dois anos mais velha e bonita como ela só. Também Fátima e Tea, que cuidava dos irmãos mais novos como fosse nossa própria mãe. A pequena distância que se fazia entre mim e meus dois irmãos mais velhos fizeram com que eu me aproximasse de minhas irmãs. Elas se mostravam carinhosas e me tratavam bem. Talvez elas vissem que meu pai me tratava como a elas e isso nos aproximava. Não havia raiva ou revolta dos filhos contra o próprio pai. Porém uma distância se fez, junto com o medo, que ficávamos isolados dele, e com isso, também de meus irmãos.
Descobríamos plantas e flores, próximo de nossa casa. Algumas delas plantávamos nos arredores da casa. Em outras ocasiões percorríamos todos os ninhos das galinhas, para ver quem conseguia trazer mais ovos. Ajudava nos afazeres da casa, como lavar louça e também, depois que as roupas estavam lavadas, ajudava a pendurá-las. Gostava quando mamãe se postava frente a sua santa e rezava. Achava bonito aquele ato, sem saber ao certo o seu significado. Dava a impressão de certa santidade. Apesar de ela brigar comigo vez ou outra, via aquela mulher além das possibilidades dela.
Aos cinco anos papai disse para acompanhar meus irmãos na roça. Fui com certa apreensão, já que me achava impotente para um trabalho daquela envergadura. Magro e alto demais para a minha idade, meu pai dizia que eu precisava começar a pagar pela comida e cama que dormia. Não sabia exatamente o que ele queria dizer com isso, mas essas palavras ficaram martelas em minha mente. Meus irmãos não tinham pena de mim. Davam enxada e diziam para carpir. Comecei a tirar o matagal e as plantações também. Não tinha me dito o que teria que carpir. Apanhei de meu pai por destruir um pedaço de suas plantações. Tive que aprender a diferenciar um pé de aipim do mato, como descobrir a cebola, a couve, cenoura e outras culturas que plantávamos para nossa sobrevivência.
Acredito que uma das conseqüências do medo que tinha do meu pai foi minha fala. Não conseguia pronunciar palavra sem atropelar nelas mesma. Engasgava de tal forma, que ficava vermelho e logo chorava. A cada dia que tinha mais consciência desse problema, preferia ficar calado a ver os outros zombando de mim. Principalmente meu pai e meus irmãos. Minha mãe vinha em minha defesa, mas também evitava qualquer atrito com seu marido. Já minhas irmãs compreendiam melhor esse pormenor de minha vida. Esse trauma ficou mais acentuado, quando aos sete anos fui para a escola. Havia certo terror em abrir a boca para responder a chamada ou falar qualquer coisa. O nervosismo se apoderava de mim de tal forma que me fechava cada dia mais. Eu sempre imaginei que seria uma pessoa expansiva e de alguma fama. Minha mente fervilhava com essa possibilidade sendo tirada de mim. Ademais, eu tinha somente sete anos de idade.
Na escola os alunos de minha sala caçoavam de mim. Um ódio crescendo tomava conta que desejava as piores coisas para aqueles colegas de escola. A situação chegou a tal ponto, que sofria até pelo caminho da escola. Tínhamos que passar por uma imensa curva, cheia de mato. Essa curva era conhecida por volta fria, já que nenhum sol chegava ao local. Quase sempre eu caminhava sozinho em direção a escola. Meus irmãos partiam mais cedo ou estudavam no período vespertino. Alguns alunos de minha classe me esperavam na volta fria para literalmente, me ferir. Havia um arbusto, de caule da cor rocha e firme, que passavam sobre minhas pernas, deixando uma marca sobre a pele, como fosse um aranhão. Além disso, sangrava e ardia. Chegava à escola, nessas ocasiões, chorando. Uma das Irmãs professoras se condoia por mim. Entrou na sala de aula exigindo que os causadores daquelas marcas em meu corpo se apresentassem. Como ninguém se delatava, eu apontei os três meninos. Eles foram castigados. Depois daquele dia, minha vida piorou. Eles faziam aquilo vestindo uma touca ou uma camisa qualquer sobre o rosto. Portanto, eu não tinha como confirmar se eram as mesmas pessoas ou não. Além disso, um outro grupo me parou certo dia e me deram uma surra de eu ficar naquele dia sem ir para a escola. No outro dia a professora pediu o porquê de minha falta. Disse a ela que estava doente.
Mesmo assim meu aprendizado foi bom. Tive momentos interessantes, já que gostava de freqüentar a escola ou invés de carpir a terra. Vez ou outra esquecia de minha gagueira e falava atropeladamente. Meu nervosismo nessas ocasiões sempre me deixava pior, já que meu rosto fica rubro e vez ou outra também chorava. A leitura me deixava pior ainda. Quando iniciamos o período de leitura em voz alta, meu sofrimento parecia se tornar pior. A professora insistia e quando os colegas de classe riam de mim, ela ralhava com eles e insistia para que eu continuasse a ler. De quando em vez ela perguntava se eu não tinha como parar de gaguejar. Eu não conseguia responder, já que não sabia o que dizer. Por isso mesmo fiz poucas amizades. Conversava com um ou outro, também algumas meninas, mas sempre sem entusiasmo. Preferia ficar mais sozinho a ter que aturar brincadeiras que me deixavam irado.
Meus pais nunca perguntavam nada da escola. Apenas em algumas ocasiões especiais, levava um bilhete para eles da professora. Alguma homenagem ou o resultado do final do ano. Mesmo assim, eles achavam uma situação chata ter que se deslocar até a escola e parar com suas atividades. Nas ocasiões de festas, meu pai e minha mãe tomavam banho, colocavam roupas limpas e acompanhadas dos filhos, se dirigiam para a escola. Essas festas, duas por ano, sempre religiosas, havia barracas com comida, pescaria e um churrasco com pão e maionese. Sentia-me envergonhado. Achava meus pais pessoas pouco refinadas. Não que eu fosse. Mas eu percebia como o comportamento deles me constrangia. Tanto assim, que ficava distante deles o máximo que podia. Zanzava pelas barracas, observando e vendo famílias felizes e melhor vestidas.
Por vezes, conversava com um primo meu. Acho que era de terceiro grau. Baixinho, cabelos curtos e com um rosto bonito, porém parecia que sempre queria chorar. Tinha minha idade e usava roupas melhores. Mesmo assim, parecia tão infeliz quanto eu me sentia. Caminhei próximo da igreja e o padre da paróquia local diz que queria conversar comigo.
- Por que você não brinca com os outros rapazes? – Não entendi a pergunta do padre. Será que ele havia percebido que eu andava o tempo todo sozinho?
- Não sei. – Minha resposta também fora estranha, já que o padre foi adiante com seu interrogatório. Além disso, as duas palavras saíram sem eu gaguejar.
- Você gosta de ficar sozinho, não é mesmo Carlo?
- Sim, padre. – Novamente consegui falar sem atropelos, mas meu nervosismo estava num crescendo.
- Já havia observado. Então fiquei pensando com meus botões. Será que você gostaria de entrar para um convento e se tornar um religioso?
Aquele padre queria que eu fosse padre! Mãe de Deus. Nunca! Meu pai também não deixaria, já que precisava de mim na roça.
- Não! – Foi à única coisa que consegui pronunciar sem me engasgar todo. Será que ele sabia que eu não conseguia falar direito?
Deixei-o e fui em busca de minha família, que estava sentada em bancos improvisados, comendo alguma coisa. Sentia-me pegando fogo. Meu rosto devia estar vermelho e eu tremia todo. Não sei se de nervoso ou por ter falado com um padre e conseguido falar algumas frases. Sentei-me ao lado de minha irmã Tea. Ela parecia calada, já que todos os outros meus irmãos falavam pelos cotovelos. Minha mãe parecia contente e meu pai todo prosa, contando que pretendia se mudar para uma cidade maior. Fiquei interessado naquela conversa, mas não conseguia entender tudo. Fiquei sonhando como seria morar numa casa bonita, grande, sem aquela roça para cuidar e muito menos arrozais para plantar. A escola seria melhor, com professores diferentes e faria muitos novos amigos. Já via minha mãe com um vestido, deixando sua cintura marcada, perfumada, andando elegante de mãos dadas comigo. Fui desperto daquele sonho, quando Tea me disse que iríamos embora. Dei um sorriso, mas de satisfação. Dentro em pouco tempo ficaria longe daquele lugar.
Soube que naquele ano meu primo se mudou para outra cidade. Não sabia qual. Apenas que haviam vendido suas terras e foram morar na cidade. Mas minha família também se mudaria, pensei. Só que demorou dois anos para isso acontecer. Eu já estava no final da quarta série inicial de estudos e meu pai disse numa noite para aprontarmos todos nossos pertences que faríamos à mudança na semana seguinte. Fiquei feliz, mas minha mãe não. Ela gostava daquelas terras distantes e longe de todas as pessoas. Não sabia o motivo exato dessa mudança. Sempre pensei que meu pai jamais se mudaria dali. Em todo caso, apreciei essa decisão de meu pai.
Arrumamos nossas coisas em três carroças e seguimos com nossa mudança. Naquele dia acordamos numa madrugada fria. Quando o sol começou a se mostrar, já estávamos a caminho de nossa nova casa. Minha mãe havia preparado pão com queijo, lingüiça e também café com leite já com açúcar. Paramos duas vezes para comer e fazer as necessidades físicas no mato. Meu pai não cobrava dos cavalos e eles trotavam devagar, puxando uma carga pesada. Eu estava na última carroça, com Tea e meu irmão Aristeu com as rédeas, conduzindo os animais. No meio daquela tarde, paramos, pois uma parte de um armário havia caído na estrada. Meu pai soltou impropérios furiosos para todos. Macário, meu irmão mais velho e Aristeu o ajudaram e repor as madeiras sobre a carroça novamente. Em seguida continuamos devagar seguindo para nossa nova casa.
No final da tarde, passando por poucas casas e muito mato, chegamos à nova casa. Fiquei decepcionado. Nossa nova casa não ficava na cidade. Estava isolada, pois não consegui enxergar vizinho algum. Era toda de tijolos, com piso de tábuas grossas e um sótão. Havia muito mato em volta, com muitas arrozeiras nos fundos. Naquele dia, já noite, não conseguimos descarregar tudo. Ajeitamos o que foi possível mamãe preparou um jantar improvisado, com aipim, arroz e galinha frita. Depois nos acomodamos nos quartos. Havia quatro quartos. Eu fiquei com Bento num dos quartos, meus irmãos mais velhos em outro, as meninas no quarto do meio, e meus pais no quarto da frente. Os colchões de palha de arroz haviam sido jogados no chão e de tão cansados nos deitamos. Adormeci logo e somente acordei com as vozes de minha mãe e meu pai, um falava mal do outro num tom acima do normal. A partir daquele dia, minha mãe deixou meu pai no quarto sozinho. Ela dormiria no quarto das filhas.
Dois meses depois, ouvi minha mãe dizer para Tea que estava esperando outro filho. Os primeiros meses na nova casa foram difíceis. Precisávamos de armários para a cozinha, quartos, mesa, cadeiras. Nunca havia o suficiente. Também utensílios domésticos. Roupas e o serviço na roça nunca acabava. Também havia a escola. Minha mãe foi matricular os filhos na escola mais próxima, que ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Eu freqüentava as aulas no período da manhã, o que foi uma benção, achando que aprendia melhor. Morávamos na cidade de Guaramirim, no distrito de Guamiranga. Não havia ônibus e quando precisávamos se deslocar até a cidade, ou fazíamos o percurso a pé ou de carroça.
Mudamos-nos para Guamiranga em março de 1970. Eu estava com 11 anos e comecei a freqüentar a quinta série primária. As aulas pareciam mais interessantes, porém havia uma cobrança maior. Os quatro anos que passei nessa escola foram longos e pouco agradáveis. Talvez por minha culpa, já que não conseguia fazer amigos ou me enturmar com os meninos. Chorei no dia em que Tea foi embora da escola e de casa. Ela tinha sido prometida por minha mãe para Deus. Ela fora estudar com as freiras e só voltava no fim do ano. Com isso senti certa tristeza, mas logo passou, já que no final daquele ano de 1970 minha irmã Nina havia nascido. Minhas irmãs e eu cuidamos dela, já que minha mãe parecia não estar disposta por um longo período.
Quando chegava a casa, já cansado de andar, almoçava e em seguia meu pai e irmãos seguiam para a roça. Voltávamos para casa já noite. Lavávamos num tanque de cimento nos fundos da casa, trocávamos de roupa, jantávamos e alguns seguiam para o quarto e outros para a sala. Havia um pequeno rádio, movido à pilha, já que a energia elétrica ainda não havia chegado ao local. Conversávamos sobre as músicas, notícias, ríamos alto até meu pai gritar para que todos fossem dormir. Em outras ocasiões falávamos sobre a roça, a escola e vez ou outra meus dois irmãos mais velhos faziam encenações engraçadas de meu pai.
Meu problema com a fala continuava. Muitas vezes gostava de falar alguma coisa, esquecia que tropeçava nas palavras, não conseguindo terminar de falar o que gostaria. Com isso, ficava nervoso acima da conta, meu rosto tomava a cor de um tomate maduro e vez ou outra chorava. Meus irmãos também riam de mim e meu pai não agüentava esperar até eu terminar de tropeçar nas palavras, me mandava parar com aquilo e falar como homem. Com tudo isso, me sentia distante de meu pai e de meus irmãos.
No ano de 1973 completei 14 anos e cursava o último ano do ensino fundamental. Havia muitos rapazes que saiam de casa para trabalhar em Guaramirim ou mesmo em Jaraguá do Sul. Esta cidade ficava a 10 quilômetros da primeira e oferecia mais oportunidades para os jovens. Conversando com outros rapazes da escola ou mesmo somente ouvindo suas conversas, tomei a decisão de sair de casa, morar em alguma pensão e trabalhar em uma fábrica. Mas era preciso tomar coragem e contar para meu pai. Primeiro fui falar com mamãe. Ela disse que seria melhor, pois assim poderia me instruir melhor e não sofrer com o trabalho árduo da roça.
Meu pai continuava com o hábito de nas sextas-feiras e sábados sair para um jogo de bocha, num bar que havia pelas redondezas. Ele voltava para casa bêbado, mas agora que dormia sozinho, não mais maltratava minha mãe. Aproveitei uma ocasião, num sábado, antes de ele sair para seu jogo e bebida. Minha mãe estava por perto e disse a ele de minhas pretensões. Ele olhou para minha mãe, como se ela estivesse de conluio comigo. Não disse nada, o que estranhei. Porém, antes de fechar a porta falou tão rápido que pouco entendi o que ele havia dito. Algo como “eu não servir para a roça mesmo” e também uma insinuação que não havia entendido naquele momento: “quem sabe encontre sua turma”.
Fiquei entusiasmado com esse resultado. Teria minha liberdade e viveria num mundo e lugar melhores que a casa de meu pai. Também o fato de ficar distante dele me deixou feliz. Tea já estava longe de casa. Em suas visitas anuais, estava entusiasmada com a vida que lhe fora imposta. Eu tinha muitas dúvidas sobre o que aconteceria e dúvidas também quanto a questões pessoais. Sentia que eu não pertencia àquela família humilde, já que meus gostos e comportamento não se adequavam a nenhum dos meus irmãos. Por alguns dias fiquei matutando se eu era realmente filho deles. Quem sabe tinha sido trocado no hospital ou qualquer outra coisa que pudesse ter acontecido. Ainda assim, sentia por deixar minhas irmãs e mais precisamente Nina a mais nova delas.
Numa semana daquele ano aconteceu algo que até hoje não entendo ao certo como tudo se deu. Nina havia ficado doente e minha irmã Fátima cuidou dela. Elas ficaram num quarto sozinhas, já que ela estava febril e chorava muito. Minha mãe disse para que eu dormisse no quarto com Túlia. Como havia apenas um colchão grande com palha de milho seca, nos deitávamos juntos. Não sei precisar como tudo se deu. Mas nossos corpos, no meio da noite, ficaram grudados e senti que meu sexo se intumesceu. Ficava me esfregando no corpo de minha irmã, e por duas ocasiões ela permitiu que eu introduzisse meu membro em sua vagina. Foi um ato rápido e sem noção. Mas aconteceu e esse segredo ficou entre nós por toda nossa vida. Mas, de forma ainda estranha, continuou por toda minha vida me perturbando, até em minha orientação sexual.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Manchetes!
Vários flagrantes! Vejam imagens captadas pela minha lente (ou de amigos), de toda uma turma que me cercou durante o último ano. São imagens que dariam uma boa manchete de jornal. Além de reviver toda uma história, são momentos para que todos se lembrem da importância de sempre estarmos juntos.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Belas mulheres!
STEPHENIE MEYER, ainda jovem, mas com talento excepcional. Os críticos a abominam, mas é preciso levar em consideração que a literatura de hoje trouxe elementos apropriados para um mundo totalmente digital. Melhor livro: CREPÚSCULO.
ROSAMUNDE PILCHER é daquelas escritoras em extinção. Toca o fundo da alma em suas histórias e as conta de forma devagar e detalhes que parecem sem importância, mas que fazem a diferença. Melhor livro: SETEMBRO.
RACHEL DE QUEIROZ possui uma escrita por vezes difícil, já que trata de assuntos distantes de nós (aqui do sul, claro), porém com firmeza e com conhecimento. Melhor livro: MEMORIAL DE MARIA MOURA.
NORA ROBERTS. Muitos não a consideram escritora, mas sim uma lapidadora de eventos que põe em palavras. Escreveu mais de uma centena de livros. Seus livros são leves e sempre românticos. Melhor livro: CONCERTO INACABADO.
MARY HIGGINS CLARK. Tenho todos seus livros. Sua histórias são policiais, mas o que atrai é que ela consegue inserir dramas pessoais e familiares, que são o forte de seus livros. Melhor livro: LEMBRE-SE DE MIM.
JUDITH KRANTZ. Sempre fico esperando uma nova história dela. Mas já se aposentou. Está com 82 anos. Suas histórias se passam no mundo da alta costura, com egos e intrigas em alta. Foi, por muitos anos, executiva das melhores revistas de moda do mundo. Melhor livro: LUXÚRIA.
JANE AUSTEN. Ainda hoje é reverenciada, já que suas histórias resumem a forma de viver num mundo que hoje já não existe mais. Melhor livro: ORGULHO E PRECONCEITO.
JACQUELINE SOUSAN. A história dessa mulher é incrível. Lutou nos anos 1950 e 1960 pela liberdade da mulher e sua própria, para conseguir se tornar escritora. Melhor livro: O VALE DAS BONECAS.
J.K.ROWLING. Esta mulher trouxe para o mundo dos livros os jovens. Pena que os filmes nem sempre foram a essência dos livros. E também porque muitos preferiam ver na tela sua histórias e não saborear suas histórias no papel. Melhor livro: HARRY POTTER.
COLLEEN MCCULLOUGH. O sorriso desta senhora é excepcional. Seus livros possuem paixão e sempre uma forte dose de altruísmo, além de seus personagens lutarem pela sobrevivência. Melhor livro: PÁSSAROS FERIDOS.
CLARICE LISPECTOR. Penso que talvez seja a melhor escritora brasileira. Suas histórias são complexas, porém de uma paixão pela vida e pelo significado dela. Melhor livro: A PAIXÃO SEGUNDO G.H.
CECÍLIA MEIRELLES. As poesias dessa mulher encantam até hoje. A forma como ela escrevia tocam a alma e dão um sabor especial a cada palavra escrita. Melhor livro: FLOR DE POEMAS.sábado, 25 de dezembro de 2010
Passos do Destino
Um - Junho, 1908
Era um dia de inverno amen
o. O sol começava a despontar entre pinheiros centenários e outras árvores menores. O frio ainda não se mostrava rigoroso, mas uma brisa leve fazia com que a sensação de frio se acentuasse. Antonio Dias havia acordado cedo naquele dia de final de junho. Pegou a lenha que estocava ao lado do fogão, acendeu o fogo. Pegando uma panela, foi até os fundos externos da casa, sentindo mais frio do que supunha. Encheu a panela com água, voltou para dentro da cozinha, colocando-a sobre o fogo que já estava crepitando. Retornou ao único quarto da casa para pegar um agasalho mais grosso. Em um canto, num colchão feito de palha de milho, dormia sua esposa Sibila e sua filha menor de dois anos, Bárbara. Num outro canto do mesmo quarto, porém num colchão menor, seus dois outros filhos jaziam inocentes adormecidos. Antonio se sentiu orgulhoso pela sua família. A casa era pequena, mas com a colheita que prometia ser boa naquele ano, construiria mais um quarto. Aqueles segundos pareciam preciosos para ele. Mas, como fosse despertar de um sonho, pegou seu agasalho, saindo do quarto.
Antonio Dias contava com 30 anos. Tinha orgulho de sua família, principalmente dos dois filhos homens. O mais velho, Mateus, já tinha 10 anos e o segundo Davi com 8. A pequena Bárbara viera muito tempo depois, mas também cresceria. Mateus já o ajudava na roça como Sibila. Davi ficava em casa para cuidar da irmã menor. Dessa forma Antonio conseguiu cultivar uma quantidade enorme de suas terras e teria uma boa colheita neste ano.
Abrindo a porta da frente da casa, Antonio se deparou com a visão de um pequeno jardim que sua mulher cultivava. Havia algumas rosas, mas a maioria das flores provinha do mato, onde Sibila vez ou outra achava algo para trazer e plantar ao redor da casa. Antonio achou estranho que naquele dia ele tivesse saído pela porta da frente. Normalmente sempre o fazia pelos fundos, já que precisava tratar dos animais. Depois quando terminasse, voltaria para a cozinha faria o café, acordaria os filhos e a esposa, para começarem um novo dia de trabalho. Gostou do sol despontando junto com o frio e o vento que soprava levemente. Faria um dia bonito, pensou Antonio, pois sempre o inverno trazia dias bonitos, porém frios. Também vez ou outra a chuva castigava, mas Antonio imaginava que Deus assim o fazia para que suas plantações pudessem se erguer e dar bons frutos.
Andou alguns metros, parando no meio do jardim de sua esposa. Alguns hibiscos numa cerca mal construída. Num canto contemplou a espada-dourada. Sibila dizia que espantava mal olhado. Uma palmeira também enfeitava o local e alguns pinheiros já altos próximos da estrada. Havia algum mato tomando conta de tudo. Precisava deixar um dia desses a mulher em casa para ela poder se dedicar ao seu jardim. Mas Antonio não tinha mais tempo. Foi para os fundos da casa para cuidar de seus afazeres. Tinha dois porcos. Na noite anterior havia separado aipim e milho. Jogou no chiqueiro e os animais gruniram para atacar sua alimentação. Esvaziou o coxo com a água suja e trouxe baldes que encheu com água limpa. Foi até o galinheiro, recolheu os ovos numa cesta pequena, jogando ao chão milho. Mais tarde Mateus abriria a porta para as galinhas ciscarem ao redor da casa. Providenciava para que as galinhas ficassem presas a noite, pois havia muitos bichos que poderiam dar cabo de sua criação. Foi ver seu cavalo. Era um animal bonito e forte. Mais tarde o deixaria próximo de onde iriam trabalhar para ele comer o seu capim. Por fim, as duas vacas. Apenas uma estava dando leite. A outra estava prenha. Seu amigo e vizinho de alguns quilômetros, deixou que o seu touro fizesse a monta de sua vaca. Antonio pegou um balde, passou água limpa nele e foi ordenhar a vaca. Assim que terminou, estava se encaminhando para entrar na cozinha pelos fundos. Como o dia estava se mostrando bonito demais, deu a volta pelo jardim. Queria novamente apreciar a vista de sua casa.
- Bom dia! – Antonio ouviu uma voz se pronunciar num tom alto e irritado. Havia muitos homens montados em seus cavalos e um quê de coisa ruim que se anunciava.
- Sim, é bom dia. – disse Antônio, num tom de ironia, o que não era próprio dele. O homem que estava a sua frente se anunciou.
- Meu nome é Pedro Vasquez. Sou da Companhia Brazil Railway...
- Da estrada de ferro. – completou Antonio.
- Essas terras pertencem a Companhia.
- Estou aqui há mais tempo que a Companhia. – Antonio apertou a mão na alça do balde, prevendo algo inesperado que poderia acontecer. Se sua mulher ouvisse a conversa devia ter acordado.
- O governo determinou que estas terras são da Companhia. – Pedro Vasquez permanecia sério e o único que falava. Vez ou outra um cavalo relinchava, mas o resto era apenas o toque do vento.
- Senhor Pedro Vasquez – Antonio foi cerimonioso, apesar de o homem rude ter a mesma idade que a sua. – Desça do cavalo, vamos entrar que preparo um café...
- Qual o seu nome?
- Antonio Dias.
- Muito bem Antonio Dias. Não tenho tempo a perder com café e conversa. Vim aqui para se certificar de que você e sua família saiam das terras da Companhia.
- Já disse que estas terras são minhas. Tenho documentos que comprovam isso.
Nesse momento Pedro Vasquez fez um sinal com as mãos. Os outros cavaleiros se adiantaram e pisaram nas espadas-douradas, deixando-as caídas e amassadas.
- Entre na casa, pegue sua esposa e filho se tiver, e não volte mais.
- Eu posso ir até o escritório da Companhia...
- Você não tem tempo Antonio Dias. As ordens que recebi são para ser cumpridas. Agora! – a última palavra soou mais alta, como uma ordem expressa.
- Se eu sair daqui, para onde vou?
- É problema seu.
- Eu tenho mulher e três filhos, senhor Vasquez. Não posso sair sem um lugar para acomodá-los.
Novamente Pedro Vasquez levantou a mão e agora apareceram armas nas mãos dos cavaleiros. Antonio ficou assustado. Apertou ainda mais a mão sobre a alça do balde. Brotou desespero em seu rosto.
- A Companhia vai dar outra casa e terras?
- Acho que você está surdo Dias! – Neste momento Vasquez pegou sua espingarda e deu um tiro, acertando no balde que Antonio segurava. Assim que a explosão fez um buraco, escorrendo o leite pelo buraco da arma, Antonio soltou o balde, o leite derramando sobre o capim crescido.
- Entre nesta merda de casa, pegue suas coisas, ponha numa carroça e vá embora. Não tenho o dia todo para expulsa-lo daqui.
Antonio teve ímpeto de saltar sobre o cavalo de Pedro Vasquez e dar-lhe uma boa lição. Mas, com certeza, os outros cavaleiros atirariam nele antes. Pensou na esposa e nos filhos, que deviam estar desesperados no interior da casa. Soltou um olhar de desaprovação para o senhor Vasquez e entrou na casa.
Encontrou a esposa e os filhos chorando. Bárbara estava no colo de Sibila. Os dois meninos próximos da mãe, com lágrimas e medo em seus rostos.
- O que vamos fazer? – perguntou Sibila. Mas Antonio não respondeu de imediato. Foi até o quarto, pegou suas duas armas. Deu uma ao filho mais velho e ficou com a outra.
- Vamos resistir. Eles não podem nos tirar daqui!
- Eu sabia que essa estrada de ferro era do demônio. Eu sabia!
- Não é hora para isso, mulher. Pare de chorar e faça com que Bárbara se cale.
Antonio não tratava a família desse modo. Mas ele não tinha tempo para cortesia e precisava agir. Ficou alguns minutos aguardando.
- Pai... – Mateus quis saber algo do pai, porém Antonio mandou que ele se calasse.
- Agora não Mateus. Preciso de silêncio para ouvir o que eles planejam.
- Querem nos matar – Sibila disse a frase num desespero. – Vamos embora Antonio. Depois a gente volta.
- Não e não! Se a Companhia quer minhas terras tem que pagar. Como o governo pode dar terras dos outros para a Companhia? Isso é coisa de jagunço ou de algum fazendeiro. Tá errado.
- Antonio, quantos eles são?
- Não sei. Mas um bando grande.
Ouviram barulho. Antonio notou que os cavalos estavam se movimentando. Suas janelas eram de madeira, portanto não conseguiam ver o que se passava. Mas algumas gretas entre as tábuas da parede faziam com que enxergasse. Pouca coisa, mas Antonio viu que os cavalos com seus cavaleiros estavam bem próximos das paredes da casa.
- Pai? – gritou Davi, chorando.
Ouviram um barulho forte. Houve uma batida numa das paredes da casa e a voz de Pedro Vasquez.
- Seu tempo acabou Antonio Dias. Ou você sai agora com suas coisas ou invadimos sua casa.
- Estou armado.
Antonio a esposa e filhos ouviram uma risada estridente. Depois vários cavaleiros riam junto com Vasquez.
Num minuto posterior, o silêncio tomou conta. Antonio sentiu apenas o vento cortar seu rosto pelas frestas. Olhou para a esposa, deu um meio sorriso, mas logo a seguir seu coração parecia querer pular fora de seu corpo, quando Mateus anunciou num grito.
- Fogo!
O inferno havia começado ali mesmo, pensou Sibila. Ela agarrou ainda mais seu bebê, que iniciou um choro contínuo. Foi até o quarto, juntou algumas coisas, ajudada por Davi que a seguia por todo lado. Mateus e Antonio tentaram apagar com panos e cobertores trazidos por Sibila. O relincho do cavalo se fez ouvir, como as galinhas se debatendo e os porcos grunindo. O fogo tomou conta do telhado e de uma parede lateral. Antonio olhou em desespero para os filhos e depois para Sibila.
- Vamos sair pelos fundos – ordenou ele.
Antonio deu um chute na porta, que se abriu, caindo ao chão.
- Corram para o mato. Depressa. Não olhem para trás. Apenas corram.
Antonio viu alguns cavaleiros rindo, postados nos fundos de sua casa. Deram tiros para o alto. Cada tiro que davam, parecia acertar o coração de Antonio. Ele vendo sua família fugir de sua própria casa, assaltada e destruída de sua habitação. Depois de muitos metros adiante, já próximos da mata, Antonio, com lágrimas nos olhos, ainda correndo, olhou para trás, vendo que o fogo já tinha consumido sua casa. Os cavaleiros ainda permaneciam no local, provavelmente ficariam vigiando por algum tempo. Talvez dias até. Passou o braço com sua blusa de lã sobre o rosto, para limpar as lágrimas que não queriam ceder. Olhou para sua família, a sua frente, agora caminhando, com a dor de uma faca cravada em seu coração a expulsar o sangue devagar e sempre. Teve um impulso de voltar a sua casa, a sua roça, mas antes de entrar na mata, viu os cavaleiros destruindo toda sua plantação. Talvez fosse melhor se tivesse morrido, pensou Antonio. Ele e toda sua família.
Dois
Era um dia de inverno amen
o. O sol começava a despontar entre pinheiros centenários e outras árvores menores. O frio ainda não se mostrava rigoroso, mas uma brisa leve fazia com que a sensação de frio se acentuasse. Antonio Dias havia acordado cedo naquele dia de final de junho. Pegou a lenha que estocava ao lado do fogão, acendeu o fogo. Pegando uma panela, foi até os fundos externos da casa, sentindo mais frio do que supunha. Encheu a panela com água, voltou para dentro da cozinha, colocando-a sobre o fogo que já estava crepitando. Retornou ao único quarto da casa para pegar um agasalho mais grosso. Em um canto, num colchão feito de palha de milho, dormia sua esposa Sibila e sua filha menor de dois anos, Bárbara. Num outro canto do mesmo quarto, porém num colchão menor, seus dois outros filhos jaziam inocentes adormecidos. Antonio se sentiu orgulhoso pela sua família. A casa era pequena, mas com a colheita que prometia ser boa naquele ano, construiria mais um quarto. Aqueles segundos pareciam preciosos para ele. Mas, como fosse despertar de um sonho, pegou seu agasalho, saindo do quarto.Antonio Dias contava com 30 anos. Tinha orgulho de sua família, principalmente dos dois filhos homens. O mais velho, Mateus, já tinha 10 anos e o segundo Davi com 8. A pequena Bárbara viera muito tempo depois, mas também cresceria. Mateus já o ajudava na roça como Sibila. Davi ficava em casa para cuidar da irmã menor. Dessa forma Antonio conseguiu cultivar uma quantidade enorme de suas terras e teria uma boa colheita neste ano.
Abrindo a porta da frente da casa, Antonio se deparou com a visão de um pequeno jardim que sua mulher cultivava. Havia algumas rosas, mas a maioria das flores provinha do mato, onde Sibila vez ou outra achava algo para trazer e plantar ao redor da casa. Antonio achou estranho que naquele dia ele tivesse saído pela porta da frente. Normalmente sempre o fazia pelos fundos, já que precisava tratar dos animais. Depois quando terminasse, voltaria para a cozinha faria o café, acordaria os filhos e a esposa, para começarem um novo dia de trabalho. Gostou do sol despontando junto com o frio e o vento que soprava levemente. Faria um dia bonito, pensou Antonio, pois sempre o inverno trazia dias bonitos, porém frios. Também vez ou outra a chuva castigava, mas Antonio imaginava que Deus assim o fazia para que suas plantações pudessem se erguer e dar bons frutos.
Andou alguns metros, parando no meio do jardim de sua esposa. Alguns hibiscos numa cerca mal construída. Num canto contemplou a espada-dourada. Sibila dizia que espantava mal olhado. Uma palmeira também enfeitava o local e alguns pinheiros já altos próximos da estrada. Havia algum mato tomando conta de tudo. Precisava deixar um dia desses a mulher em casa para ela poder se dedicar ao seu jardim. Mas Antonio não tinha mais tempo. Foi para os fundos da casa para cuidar de seus afazeres. Tinha dois porcos. Na noite anterior havia separado aipim e milho. Jogou no chiqueiro e os animais gruniram para atacar sua alimentação. Esvaziou o coxo com a água suja e trouxe baldes que encheu com água limpa. Foi até o galinheiro, recolheu os ovos numa cesta pequena, jogando ao chão milho. Mais tarde Mateus abriria a porta para as galinhas ciscarem ao redor da casa. Providenciava para que as galinhas ficassem presas a noite, pois havia muitos bichos que poderiam dar cabo de sua criação. Foi ver seu cavalo. Era um animal bonito e forte. Mais tarde o deixaria próximo de onde iriam trabalhar para ele comer o seu capim. Por fim, as duas vacas. Apenas uma estava dando leite. A outra estava prenha. Seu amigo e vizinho de alguns quilômetros, deixou que o seu touro fizesse a monta de sua vaca. Antonio pegou um balde, passou água limpa nele e foi ordenhar a vaca. Assim que terminou, estava se encaminhando para entrar na cozinha pelos fundos. Como o dia estava se mostrando bonito demais, deu a volta pelo jardim. Queria novamente apreciar a vista de sua casa.
- Bom dia! – Antonio ouviu uma voz se pronunciar num tom alto e irritado. Havia muitos homens montados em seus cavalos e um quê de coisa ruim que se anunciava.
- Sim, é bom dia. – disse Antônio, num tom de ironia, o que não era próprio dele. O homem que estava a sua frente se anunciou.
- Meu nome é Pedro Vasquez. Sou da Companhia Brazil Railway...
- Da estrada de ferro. – completou Antonio.
- Essas terras pertencem a Companhia.
- Estou aqui há mais tempo que a Companhia. – Antonio apertou a mão na alça do balde, prevendo algo inesperado que poderia acontecer. Se sua mulher ouvisse a conversa devia ter acordado.
- O governo determinou que estas terras são da Companhia. – Pedro Vasquez permanecia sério e o único que falava. Vez ou outra um cavalo relinchava, mas o resto era apenas o toque do vento.
- Senhor Pedro Vasquez – Antonio foi cerimonioso, apesar de o homem rude ter a mesma idade que a sua. – Desça do cavalo, vamos entrar que preparo um café...
- Qual o seu nome?
- Antonio Dias.
- Muito bem Antonio Dias. Não tenho tempo a perder com café e conversa. Vim aqui para se certificar de que você e sua família saiam das terras da Companhia.
- Já disse que estas terras são minhas. Tenho documentos que comprovam isso.
Nesse momento Pedro Vasquez fez um sinal com as mãos. Os outros cavaleiros se adiantaram e pisaram nas espadas-douradas, deixando-as caídas e amassadas.
- Entre na casa, pegue sua esposa e filho se tiver, e não volte mais.
- Eu posso ir até o escritório da Companhia...
- Você não tem tempo Antonio Dias. As ordens que recebi são para ser cumpridas. Agora! – a última palavra soou mais alta, como uma ordem expressa.
- Se eu sair daqui, para onde vou?
- É problema seu.
- Eu tenho mulher e três filhos, senhor Vasquez. Não posso sair sem um lugar para acomodá-los.
Novamente Pedro Vasquez levantou a mão e agora apareceram armas nas mãos dos cavaleiros. Antonio ficou assustado. Apertou ainda mais a mão sobre a alça do balde. Brotou desespero em seu rosto.
- A Companhia vai dar outra casa e terras?
- Acho que você está surdo Dias! – Neste momento Vasquez pegou sua espingarda e deu um tiro, acertando no balde que Antonio segurava. Assim que a explosão fez um buraco, escorrendo o leite pelo buraco da arma, Antonio soltou o balde, o leite derramando sobre o capim crescido.
- Entre nesta merda de casa, pegue suas coisas, ponha numa carroça e vá embora. Não tenho o dia todo para expulsa-lo daqui.
Antonio teve ímpeto de saltar sobre o cavalo de Pedro Vasquez e dar-lhe uma boa lição. Mas, com certeza, os outros cavaleiros atirariam nele antes. Pensou na esposa e nos filhos, que deviam estar desesperados no interior da casa. Soltou um olhar de desaprovação para o senhor Vasquez e entrou na casa.
Encontrou a esposa e os filhos chorando. Bárbara estava no colo de Sibila. Os dois meninos próximos da mãe, com lágrimas e medo em seus rostos.
- O que vamos fazer? – perguntou Sibila. Mas Antonio não respondeu de imediato. Foi até o quarto, pegou suas duas armas. Deu uma ao filho mais velho e ficou com a outra.
- Vamos resistir. Eles não podem nos tirar daqui!
- Eu sabia que essa estrada de ferro era do demônio. Eu sabia!
- Não é hora para isso, mulher. Pare de chorar e faça com que Bárbara se cale.
Antonio não tratava a família desse modo. Mas ele não tinha tempo para cortesia e precisava agir. Ficou alguns minutos aguardando.
- Pai... – Mateus quis saber algo do pai, porém Antonio mandou que ele se calasse.
- Agora não Mateus. Preciso de silêncio para ouvir o que eles planejam.
- Querem nos matar – Sibila disse a frase num desespero. – Vamos embora Antonio. Depois a gente volta.
- Não e não! Se a Companhia quer minhas terras tem que pagar. Como o governo pode dar terras dos outros para a Companhia? Isso é coisa de jagunço ou de algum fazendeiro. Tá errado.
- Antonio, quantos eles são?
- Não sei. Mas um bando grande.
Ouviram barulho. Antonio notou que os cavalos estavam se movimentando. Suas janelas eram de madeira, portanto não conseguiam ver o que se passava. Mas algumas gretas entre as tábuas da parede faziam com que enxergasse. Pouca coisa, mas Antonio viu que os cavalos com seus cavaleiros estavam bem próximos das paredes da casa.
- Pai? – gritou Davi, chorando.
Ouviram um barulho forte. Houve uma batida numa das paredes da casa e a voz de Pedro Vasquez.
- Seu tempo acabou Antonio Dias. Ou você sai agora com suas coisas ou invadimos sua casa.
- Estou armado.
Antonio a esposa e filhos ouviram uma risada estridente. Depois vários cavaleiros riam junto com Vasquez.
Num minuto posterior, o silêncio tomou conta. Antonio sentiu apenas o vento cortar seu rosto pelas frestas. Olhou para a esposa, deu um meio sorriso, mas logo a seguir seu coração parecia querer pular fora de seu corpo, quando Mateus anunciou num grito.
- Fogo!
O inferno havia começado ali mesmo, pensou Sibila. Ela agarrou ainda mais seu bebê, que iniciou um choro contínuo. Foi até o quarto, juntou algumas coisas, ajudada por Davi que a seguia por todo lado. Mateus e Antonio tentaram apagar com panos e cobertores trazidos por Sibila. O relincho do cavalo se fez ouvir, como as galinhas se debatendo e os porcos grunindo. O fogo tomou conta do telhado e de uma parede lateral. Antonio olhou em desespero para os filhos e depois para Sibila.
- Vamos sair pelos fundos – ordenou ele.
Antonio deu um chute na porta, que se abriu, caindo ao chão.
- Corram para o mato. Depressa. Não olhem para trás. Apenas corram.
Antonio viu alguns cavaleiros rindo, postados nos fundos de sua casa. Deram tiros para o alto. Cada tiro que davam, parecia acertar o coração de Antonio. Ele vendo sua família fugir de sua própria casa, assaltada e destruída de sua habitação. Depois de muitos metros adiante, já próximos da mata, Antonio, com lágrimas nos olhos, ainda correndo, olhou para trás, vendo que o fogo já tinha consumido sua casa. Os cavaleiros ainda permaneciam no local, provavelmente ficariam vigiando por algum tempo. Talvez dias até. Passou o braço com sua blusa de lã sobre o rosto, para limpar as lágrimas que não queriam ceder. Olhou para sua família, a sua frente, agora caminhando, com a dor de uma faca cravada em seu coração a expulsar o sangue devagar e sempre. Teve um impulso de voltar a sua casa, a sua roça, mas antes de entrar na mata, viu os cavaleiros destruindo toda sua plantação. Talvez fosse melhor se tivesse morrido, pensou Antonio. Ele e toda sua família.
Dois
Apesar do frio ameno que fazia, Pedro Sanches estava suando. Ele e outros trabalhadores estavam assentando dormentes na construção da estrada de ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande. Primeiro preparavam o terreno, depois assentavam as madeiras e por fim os trilhos. Um trabalho pesado e que rendia devido a grande quantidade de trabalhadores que estavam desenvolvendo o serviço. Sanches, como era conhecido, tinha pouco mais de 30 anos, alto, pele branca e sempre usava chapéu. Na verdade, era um costume de todos os homens usarem chapéu. O vento que estava brando, por vezes fazia com que Sanches sentisse um arrepio em seu corpo. Esperava não ficar doente, pois seria deixado de lado e não receberia o seu pagamento. Precisava de todos os réis que conseguisse, pois tinha mulher e filhos para sustentar. Eles não estavam ali com ele. Ficaram em São Paulo. Quando fora recrutado, Sanches disse ser solteiro e desimpedido de viajar. Precisa do serviço. Portanto, conversou com a mulher e disse que voltaria quando tivesse terminado o trabalho e com muito dinheiro.
Sanches soube que havia trabalhadores de várias partes do país. Segundo colegas seus de trabalho, falaram que até em prisões foram buscar homens fortes para que a estrada de ferro fosse construída. A Brazil Ralway prometia salários compensadores e corria o boato de que mais de 8 mil homens estavam agora assentando dormentes. Porém Sanches sabia que os trabalhos da construção da estrada de ferro haviam sido divididos em várias turmas. Cada uma dessas turmas tinha como responsável um taifeiro, ou feitor. Este taifeiro recebia um determinado trecho da ferrovia por empreitada e se responsabilizava pelo trabalho, pelos homens que ali estavam e pelo pagamento deles. Sanches sabia que esses taifeiros eram homens duros, malandros e muitas vezes maltratavam os trabalhadores.
Algumas estações, entre os trechos, eram construídas com armazéns anexos da Companhia. Desta forma, para os trabalhadores adquirirem os mantimentos necessários a sua sobrevivência, compravam nos armazéns da Companhia. Sanches já presenciou muita briga nesses armazéns, pois eles sempre roubavam dos que trabalhavam para embolsar ainda mais os cofres da Companhia. Claro, os trabalhadores não tinham voz. Havia homens bem armados, fazendo de corpo de segurança, para eliminar focos de descontentamento que vez ou outra apareciam. Mas as brigas maiores que Sanches presenciou foram por falta de pagamento. Nesses conflitos Sanches presenciou até homem ser degolado pelos homens da Companhia. Mas isso acontecia vez ou outra. Falava-se também que havia um foragido de outra guerra, Sanches não se lembrava de qual, mas parecia ser do sul do país, que agora tinha virado bandido e que estava roubando os comboios que vinham com o pagamento dos trabalhadores da estrada de ferro.
Passando a mão sobre a testa e o rosto, e depois retirando o chapéu, Sanches notou o sinal sonoro para o almoço. Havia um descanso de 30 minutos para comerem e descansar. Voltou o chapéu à cabeça. Passou suas mãos sobre a roupa suja. Apesar de Sanches ser um homem alto, não era gordo nem magro. Porém forte, com olhos verdes e a pele já queimado pelo vento e sol. Estava na região já um ano, quando começou a estrada. Na verdade, conversando com o rapaz que servia a comida, Sanches soube que oficialmente haviam iniciado a construção em 02 de janeiro de 1907, ou um ano e meio antes. Miro o rapaz da cozinha, sempre aberto a qualquer diálogo e, principalmente a homens fortes como Sanches, dava um jeito de colocar mais comida no prato e falar tanto como uma mulher.
- Posso fazer um curativo no seu braço – dizia Miro, tocando o braço de Sanches, com um leve filete e sangue, já seco, no local. Estavam sentados, após todos terem se servido. Além deles dois, havia outros ao redor.
- Também preciso de curativo Miro. – dizia outro trabalhador, dando risada.
- Não trato de curativo pequeno, se é que me entende.
- Ta com saudade de mulher não é mesmo Sanches? – perguntou um homem já mais velho, com vinco no rosto e queimado de sol.
- Da minha mulher.
- Então, posso conseguir uma quase por nada.
- Miro pode ser tua mulher de graça Sanches – interveio um trabalhador.
- Até amanhã Miro – enquanto Sanches se retirava, Miro foi junto do trabalhador que fez a graça, simulando careta e trejeitos. Virou-se de sopetão, caminhando para seu trabalho na cozinha, com as risadas dos homens atrás dele.
Enquanto caminhava ao setor de seu trabalho, Sanches olhava a mata ao lado daqueles trilhos que começavam a formar a ferrovia. Não entendia até então nada de ferrovia e agora sabia que ainda não conseguia compreender tudo. Havia muitas perguntas que ainda estavam presas em sua garganta, mas que não ousava nem perguntar para Miro. Havia muitas reclamações sobre a Companhia. Sabia que era uma companhia dos Estados Unidos. Sabe deus onde esses Estados Unidos ficava, pensava Sanches com seus botões. Mas essa companhia de nome difícil parece que conseguiu fazer um bom negócio com o governo. Sanches soube que a Companhia tinha ganhado do governo 30 quilômetros quadrados de terras para a construção da ferrovia. Certo dia o cozinheiro Miro havia explicado melhor.
- São 15 quilômetros de cada lado da estrada de ferro. São deles.
- Mas deve ter gente morando ali, com casa e plantação.
- Ouvi dizer, Sanches, que o governo não quer saber. Deu para a Companhia, ou a Companhia exigiu como pagamento parece. Mas ainda vou saber direitinho essa história.
- E o governo dá novas terras e casas para essas pessoas que estão nestes 15 quilômetros dos dois lados?
- Dá nada! O governo disse para a Companhia expulsar eles e que eles se virassem.
- Não é justo.
- E o que é justo Sanches?
A última pergunta de Miro parecia ainda tocar em sua mente. A justiça ali parecia não existir. Ganhavam um bom dinheiro pelo trabalho. O melhor trabalhador ganhava até 4 mil réis por dia. Sanches ainda não tinha alcançado esse estágio, mas em breve pretendia ganhar essa quantia. Miro tinha lhe contado que ninguém da região pagava tanto por algum trabalho. Em geral, segundo Miro contou a Sanches, essa quantia ficava em trinta por cento menores que os trabalhadores da Companhia recebiam.
Enfim, o trabalho teve início. Sanches pegou um dormente com suas mãos grossas e calejadas. Ninguém usava luvas. A Companhia não fornecia e mesmo que o fizesse, refletiu Sanches, ninguém as usaria. Não sabiam utiliza-las e também atrapalharia mais o serviço do que ajudaria.
- Isso aqui não ta no nível. – Havia dito Johannes, um rapaz jovem, não mais que 18 anos. Ele trabalhava ao lado de Sanches, como seu companheiro, já que muitas vezes era preciso ter preciso ter alguém para ficar no outro lado do trilho para que o assentamento fosse feito corretamente. Todo o trabalho de assentar dormente e trilhos dependiam de muitos homens. Ninguém trabalhava sozinho. Mas Johannes foi designado como sendo seu par no trabalho. Conversava pouco. De pele morena, com um chapéu pequeno, porém com braços fortes e dentes brancos. Sanches soube que ele vinha de um lugar distante. Não sabia se tinha família ou se já estava casado. Mas Sanches já conseguiu tirar umas risadas de Johannes devido seu sotaque, que parecia ser nordestino.
- O pessoal que cuidou das pedras anda fazendo um serviço de porco.
- Veja Sanches, parece que alguns metros adiante estão abaixo do restante.
Os dois homens pararam o que estavam fazendo e foram olhar se era mesmo isso. Levaram consigo o nível e uma enxada.
- O que está acontecendo? – quis saber o capataz, um homem na faixa dos 50 anos, com uma barriga saliente.
- Senhor Martim, acho que esse terreno está alguns centímetros fora do nível. Veja o senhor mesmo.
- Isso não é trabalho seu Sanches.
- Mas os dormentes vão ficar fora de nível.
- Volte ao seu trabalho.
Sanches sabia que não adiantava discutir. Já houve em outras ocasiões briga e desentendimentos quanto a algum aspecto da obra. Johannes já estava com o dormente em mãos e não quis saber de discutir. Sanches sabia que Martim até tinha razão. Cada trabalhador queria ser um engenheiro com opiniões e discordando disso ou daquilo. Mas aquela inclinação até cego veria.
No final daquele dia, uma sexta-feira, haveria o pagamento. Um dia bom, já que o final de semana chegava com dinheiro e descanso. O tempo da escravidão havia acabado. Agora os trabalhadores descansavam no final da tarde de sábado e o domingo inteiro. Sempre havia alguém na obra, mas apenas para averiguações e muito pouco do trabalho pesado.
Ao anoitecer, no acampamento, todos os trabalhadores formavam fila para assinar o recibo e receber o seu dinheiro. Quando chegou a vez de Sanches, o capaz Martim falou:
- No próximo pagamento você ganhará como profissional.
- Obrigado senhor Martim.
Sanches explodiu por dentro. Ganharia o salário de um trabalhador profissional. E Sanches sabia por quê. Depois que ele e Johannes verificaram o desnível do terreno para o assentamento dos dormentes, Martim chamou o pessoal que havia feito o serviço e pediu que consertassem. Outros trabalhadores fariam o serviço assim mesmo, com o desnível do terreno. Mas depois dos testes que faziam com a máquina de trilho, tinham que arrebentar o que já tinha sido construído e refazer o serviço.
Sanches pegou a maior parte do dinheiro e colocou numa meia entre suas roupas de baixo. Sabia que havia muitos assaltos e roubos nessas ocasiões. Deixou algumas notas no seu bolso. Foi com Johannes ao mercado e comprou umas coisas para beliscar e também pagou para seu colega de trabalho uma bebida.
- O que você faz com seu dinheiro, Sanches?
- Guardo Johannes.
- Não tem medo de roubo?
- Todos têm medo de roubo Johannes. Mas guardo o meu num lugar inacessível para os outros. E você Johannes. Manda para alguém ou guarda?
- Guardo também. Mas não sei onde esconder direito o dinheiro.
- Bem, eu poderia lhe dar umas sugestões.
- Então fale Sanches.
Os dois homens já estavam fora da mercearia e estavam caminhando para o acampamento. A noite estava um breu. Eles viam homens caminhando para o lugarejo mais próximo. Quem sabe Calmon. Até os convidaram. Com certeza estavam atrás de mulher, bebida e encrenca, ponderou Sanches.
- É melhor deixar sempre com você. Não há lugar seguro, sabe?
Johannes meneou a cabeça, não entendendo o que Sanches estava dizendo.
- Os bolsos é o primeiro lugar que os ladrões procuram. Talvez na meia da bota seria um bom lugar.
- É gostei. Mas vai sujar.
- Enleia o dinheiro num plástico Johannes. Assim não suja e nem molha nos dias de chuva. Mas também podia costurar um bolso na parte interna da calça. Um bom lugar também.
- E você guarda assim seu dinheiro Sanches?
A pergunta de Johannes o deixou intrigado. Poderia confiar em Johannes? Não sabia. Ou melhor, pouca coisa sabia a respeito daquele rapaz jovem e ambicioso. Se ele não tinha confiado nele para contar mais detalhes sobre sua vida, Sanches também imaginou que não poderia confiar inteiramente nele.
- Isso e outras mais. Mas agora quero descansar. Você vai pra cidade?
- Não. Acho que vou beber mais uma cerveja.
- Não exagere Johannes. Você é fraco para bebidas.
- Como você sabe?
- Basta observar ao redor. Boa noite.
Sanches foi para sua barraca, deixando o rapaz no escuro e sozinho. Os galpões eram improvisados ao longo da ferrovia, já que era o tipo de trabalho que todo dia estava mais distante do dormitório. Era um barracão grande. Alguns de lona, outros de madeira, que depois serviriam de depósito de material para a Companhia. Ou simplesmente abandonados e depois algum trabalhador o utilizava como moradia, até que um dia a Companhia vinha e tomava de volta que o que lhe pertencia. O interior do barracão estava com pouca gente, já que muitos ficariam fora a noite toda, gastando todo o dinheiro que haviam ganhado. Sanches foi logo se deitar. Sua cama ficava num canto e suas poucas coisas debaixo da cama ou sobre ela. Seu corpo grande rangeu o colchão fino de palha de milho sobre as tábuas que o sustentavam. Sentiu-se melhor, depois que tirou as botas e a roupa de trabalho. Dormia apenas com uma ceroula e nos dias mais frios punha um casaco velho. Não gostava muito de roupa sobre ele, principalmente cobertores. Logo fechou os olhos e pensou naquilo que o trabalhador havia falado sobre ele sentir falta de mulher. O rapaz tinha razão, refletiu Sanches. Ele precisava de uma mulher logo. Já não estava se agüentando em si de aflição e desejoso de possuir uma carne jovem e tenra. Ele soltou uma risada enquanto seus pensamentos se devaneavam sobre como o corpo possuía desejos que às vezes lhe pareciam incontroláveis. Sanches precisava mostrar-se fiel a esposa. O que nunca foi. Ele sabia que não era o santo e o homem correto como as pessoas pensavam dele. Mas tinha que mostrar o tempo todo isso para os trabalhadores, mesmo que ele fosse completamente diferente. Logo Sanches adormeceu, com seu sexo em estado de ereção. Não teve sonhos, porém no meio da noite fora despertado por barulho e tiros. Ele tentou vestir sua roupa, mas foi contido. Jogado sobre o colchão, alguém sobre ele, com um revólver apontado para sua cabeça, disse:
- Onde está seu dinheiro?
Três
Sanches soube que havia trabalhadores de várias partes do país. Segundo colegas seus de trabalho, falaram que até em prisões foram buscar homens fortes para que a estrada de ferro fosse construída. A Brazil Ralway prometia salários compensadores e corria o boato de que mais de 8 mil homens estavam agora assentando dormentes. Porém Sanches sabia que os trabalhos da construção da estrada de ferro haviam sido divididos em várias turmas. Cada uma dessas turmas tinha como responsável um taifeiro, ou feitor. Este taifeiro recebia um determinado trecho da ferrovia por empreitada e se responsabilizava pelo trabalho, pelos homens que ali estavam e pelo pagamento deles. Sanches sabia que esses taifeiros eram homens duros, malandros e muitas vezes maltratavam os trabalhadores.
Algumas estações, entre os trechos, eram construídas com armazéns anexos da Companhia. Desta forma, para os trabalhadores adquirirem os mantimentos necessários a sua sobrevivência, compravam nos armazéns da Companhia. Sanches já presenciou muita briga nesses armazéns, pois eles sempre roubavam dos que trabalhavam para embolsar ainda mais os cofres da Companhia. Claro, os trabalhadores não tinham voz. Havia homens bem armados, fazendo de corpo de segurança, para eliminar focos de descontentamento que vez ou outra apareciam. Mas as brigas maiores que Sanches presenciou foram por falta de pagamento. Nesses conflitos Sanches presenciou até homem ser degolado pelos homens da Companhia. Mas isso acontecia vez ou outra. Falava-se também que havia um foragido de outra guerra, Sanches não se lembrava de qual, mas parecia ser do sul do país, que agora tinha virado bandido e que estava roubando os comboios que vinham com o pagamento dos trabalhadores da estrada de ferro.
Passando a mão sobre a testa e o rosto, e depois retirando o chapéu, Sanches notou o sinal sonoro para o almoço. Havia um descanso de 30 minutos para comerem e descansar. Voltou o chapéu à cabeça. Passou suas mãos sobre a roupa suja. Apesar de Sanches ser um homem alto, não era gordo nem magro. Porém forte, com olhos verdes e a pele já queimado pelo vento e sol. Estava na região já um ano, quando começou a estrada. Na verdade, conversando com o rapaz que servia a comida, Sanches soube que oficialmente haviam iniciado a construção em 02 de janeiro de 1907, ou um ano e meio antes. Miro o rapaz da cozinha, sempre aberto a qualquer diálogo e, principalmente a homens fortes como Sanches, dava um jeito de colocar mais comida no prato e falar tanto como uma mulher.
- Posso fazer um curativo no seu braço – dizia Miro, tocando o braço de Sanches, com um leve filete e sangue, já seco, no local. Estavam sentados, após todos terem se servido. Além deles dois, havia outros ao redor.
- Também preciso de curativo Miro. – dizia outro trabalhador, dando risada.
- Não trato de curativo pequeno, se é que me entende.
- Ta com saudade de mulher não é mesmo Sanches? – perguntou um homem já mais velho, com vinco no rosto e queimado de sol.
- Da minha mulher.
- Então, posso conseguir uma quase por nada.
- Miro pode ser tua mulher de graça Sanches – interveio um trabalhador.
- Até amanhã Miro – enquanto Sanches se retirava, Miro foi junto do trabalhador que fez a graça, simulando careta e trejeitos. Virou-se de sopetão, caminhando para seu trabalho na cozinha, com as risadas dos homens atrás dele.
Enquanto caminhava ao setor de seu trabalho, Sanches olhava a mata ao lado daqueles trilhos que começavam a formar a ferrovia. Não entendia até então nada de ferrovia e agora sabia que ainda não conseguia compreender tudo. Havia muitas perguntas que ainda estavam presas em sua garganta, mas que não ousava nem perguntar para Miro. Havia muitas reclamações sobre a Companhia. Sabia que era uma companhia dos Estados Unidos. Sabe deus onde esses Estados Unidos ficava, pensava Sanches com seus botões. Mas essa companhia de nome difícil parece que conseguiu fazer um bom negócio com o governo. Sanches soube que a Companhia tinha ganhado do governo 30 quilômetros quadrados de terras para a construção da ferrovia. Certo dia o cozinheiro Miro havia explicado melhor.
- São 15 quilômetros de cada lado da estrada de ferro. São deles.
- Mas deve ter gente morando ali, com casa e plantação.
- Ouvi dizer, Sanches, que o governo não quer saber. Deu para a Companhia, ou a Companhia exigiu como pagamento parece. Mas ainda vou saber direitinho essa história.
- E o governo dá novas terras e casas para essas pessoas que estão nestes 15 quilômetros dos dois lados?
- Dá nada! O governo disse para a Companhia expulsar eles e que eles se virassem.
- Não é justo.
- E o que é justo Sanches?
A última pergunta de Miro parecia ainda tocar em sua mente. A justiça ali parecia não existir. Ganhavam um bom dinheiro pelo trabalho. O melhor trabalhador ganhava até 4 mil réis por dia. Sanches ainda não tinha alcançado esse estágio, mas em breve pretendia ganhar essa quantia. Miro tinha lhe contado que ninguém da região pagava tanto por algum trabalho. Em geral, segundo Miro contou a Sanches, essa quantia ficava em trinta por cento menores que os trabalhadores da Companhia recebiam.
Enfim, o trabalho teve início. Sanches pegou um dormente com suas mãos grossas e calejadas. Ninguém usava luvas. A Companhia não fornecia e mesmo que o fizesse, refletiu Sanches, ninguém as usaria. Não sabiam utiliza-las e também atrapalharia mais o serviço do que ajudaria.
- Isso aqui não ta no nível. – Havia dito Johannes, um rapaz jovem, não mais que 18 anos. Ele trabalhava ao lado de Sanches, como seu companheiro, já que muitas vezes era preciso ter preciso ter alguém para ficar no outro lado do trilho para que o assentamento fosse feito corretamente. Todo o trabalho de assentar dormente e trilhos dependiam de muitos homens. Ninguém trabalhava sozinho. Mas Johannes foi designado como sendo seu par no trabalho. Conversava pouco. De pele morena, com um chapéu pequeno, porém com braços fortes e dentes brancos. Sanches soube que ele vinha de um lugar distante. Não sabia se tinha família ou se já estava casado. Mas Sanches já conseguiu tirar umas risadas de Johannes devido seu sotaque, que parecia ser nordestino.
- O pessoal que cuidou das pedras anda fazendo um serviço de porco.
- Veja Sanches, parece que alguns metros adiante estão abaixo do restante.
Os dois homens pararam o que estavam fazendo e foram olhar se era mesmo isso. Levaram consigo o nível e uma enxada.
- O que está acontecendo? – quis saber o capataz, um homem na faixa dos 50 anos, com uma barriga saliente.
- Senhor Martim, acho que esse terreno está alguns centímetros fora do nível. Veja o senhor mesmo.
- Isso não é trabalho seu Sanches.
- Mas os dormentes vão ficar fora de nível.
- Volte ao seu trabalho.
Sanches sabia que não adiantava discutir. Já houve em outras ocasiões briga e desentendimentos quanto a algum aspecto da obra. Johannes já estava com o dormente em mãos e não quis saber de discutir. Sanches sabia que Martim até tinha razão. Cada trabalhador queria ser um engenheiro com opiniões e discordando disso ou daquilo. Mas aquela inclinação até cego veria.
No final daquele dia, uma sexta-feira, haveria o pagamento. Um dia bom, já que o final de semana chegava com dinheiro e descanso. O tempo da escravidão havia acabado. Agora os trabalhadores descansavam no final da tarde de sábado e o domingo inteiro. Sempre havia alguém na obra, mas apenas para averiguações e muito pouco do trabalho pesado.
Ao anoitecer, no acampamento, todos os trabalhadores formavam fila para assinar o recibo e receber o seu dinheiro. Quando chegou a vez de Sanches, o capaz Martim falou:
- No próximo pagamento você ganhará como profissional.
- Obrigado senhor Martim.
Sanches explodiu por dentro. Ganharia o salário de um trabalhador profissional. E Sanches sabia por quê. Depois que ele e Johannes verificaram o desnível do terreno para o assentamento dos dormentes, Martim chamou o pessoal que havia feito o serviço e pediu que consertassem. Outros trabalhadores fariam o serviço assim mesmo, com o desnível do terreno. Mas depois dos testes que faziam com a máquina de trilho, tinham que arrebentar o que já tinha sido construído e refazer o serviço.
Sanches pegou a maior parte do dinheiro e colocou numa meia entre suas roupas de baixo. Sabia que havia muitos assaltos e roubos nessas ocasiões. Deixou algumas notas no seu bolso. Foi com Johannes ao mercado e comprou umas coisas para beliscar e também pagou para seu colega de trabalho uma bebida.
- O que você faz com seu dinheiro, Sanches?
- Guardo Johannes.
- Não tem medo de roubo?
- Todos têm medo de roubo Johannes. Mas guardo o meu num lugar inacessível para os outros. E você Johannes. Manda para alguém ou guarda?
- Guardo também. Mas não sei onde esconder direito o dinheiro.
- Bem, eu poderia lhe dar umas sugestões.
- Então fale Sanches.
Os dois homens já estavam fora da mercearia e estavam caminhando para o acampamento. A noite estava um breu. Eles viam homens caminhando para o lugarejo mais próximo. Quem sabe Calmon. Até os convidaram. Com certeza estavam atrás de mulher, bebida e encrenca, ponderou Sanches.
- É melhor deixar sempre com você. Não há lugar seguro, sabe?
Johannes meneou a cabeça, não entendendo o que Sanches estava dizendo.
- Os bolsos é o primeiro lugar que os ladrões procuram. Talvez na meia da bota seria um bom lugar.
- É gostei. Mas vai sujar.
- Enleia o dinheiro num plástico Johannes. Assim não suja e nem molha nos dias de chuva. Mas também podia costurar um bolso na parte interna da calça. Um bom lugar também.
- E você guarda assim seu dinheiro Sanches?
A pergunta de Johannes o deixou intrigado. Poderia confiar em Johannes? Não sabia. Ou melhor, pouca coisa sabia a respeito daquele rapaz jovem e ambicioso. Se ele não tinha confiado nele para contar mais detalhes sobre sua vida, Sanches também imaginou que não poderia confiar inteiramente nele.
- Isso e outras mais. Mas agora quero descansar. Você vai pra cidade?
- Não. Acho que vou beber mais uma cerveja.
- Não exagere Johannes. Você é fraco para bebidas.
- Como você sabe?
- Basta observar ao redor. Boa noite.
Sanches foi para sua barraca, deixando o rapaz no escuro e sozinho. Os galpões eram improvisados ao longo da ferrovia, já que era o tipo de trabalho que todo dia estava mais distante do dormitório. Era um barracão grande. Alguns de lona, outros de madeira, que depois serviriam de depósito de material para a Companhia. Ou simplesmente abandonados e depois algum trabalhador o utilizava como moradia, até que um dia a Companhia vinha e tomava de volta que o que lhe pertencia. O interior do barracão estava com pouca gente, já que muitos ficariam fora a noite toda, gastando todo o dinheiro que haviam ganhado. Sanches foi logo se deitar. Sua cama ficava num canto e suas poucas coisas debaixo da cama ou sobre ela. Seu corpo grande rangeu o colchão fino de palha de milho sobre as tábuas que o sustentavam. Sentiu-se melhor, depois que tirou as botas e a roupa de trabalho. Dormia apenas com uma ceroula e nos dias mais frios punha um casaco velho. Não gostava muito de roupa sobre ele, principalmente cobertores. Logo fechou os olhos e pensou naquilo que o trabalhador havia falado sobre ele sentir falta de mulher. O rapaz tinha razão, refletiu Sanches. Ele precisava de uma mulher logo. Já não estava se agüentando em si de aflição e desejoso de possuir uma carne jovem e tenra. Ele soltou uma risada enquanto seus pensamentos se devaneavam sobre como o corpo possuía desejos que às vezes lhe pareciam incontroláveis. Sanches precisava mostrar-se fiel a esposa. O que nunca foi. Ele sabia que não era o santo e o homem correto como as pessoas pensavam dele. Mas tinha que mostrar o tempo todo isso para os trabalhadores, mesmo que ele fosse completamente diferente. Logo Sanches adormeceu, com seu sexo em estado de ereção. Não teve sonhos, porém no meio da noite fora despertado por barulho e tiros. Ele tentou vestir sua roupa, mas foi contido. Jogado sobre o colchão, alguém sobre ele, com um revólver apontado para sua cabeça, disse:
- Onde está seu dinheiro?
Três
- Pra onde a gente vai marido? – perguntou Sibila.
Antonio Dias estava sentado numa clareira, com um graveto nas mãos e o chapéu ao seu lado. Os dois meninos estavam brincando perto de uma árvore e a mulher segurava a filha no colo. A pergunta de Sibila precisava de uma resposta, mas Antonio não sabia qual a resposta dar para a mulher e muito menos para si mesmo. O seu mundo havia acabado! Se ele estivesse sozinho não haveria problema, mas ele tinha três filhos e uma mulher para cuidar. O dia já estava no seu final. Andaram mata adentro por alguns quilômetros, até a mulher se cansar e os filhos pedirem por água e comida. Encontraram um riacho onde mataram a sede. Comeram algumas frutas e Antonio conseguiu matar um coelho. Acendeu o fogo com os fósforos que abasteciam seu palheiro e assaram o coelho. Foi pouco pelo que já tinham, mas naquele momento era o que podia dispor.
Sibila conseguiu reunir, antes de a casa arder em chamas, algumas roupas num lençol. Com a saída do sol e a mata ao seu redor, o frio parecia aumentar de tamanho. Ele poderia agüentar, pensou Antonio, mas seus filhos não saberiam até quando poderiam viver da privação de roupas quentes e comida.
- Vamos passar a noite aqui. – determinou ele.
- No relento?
- Mateus? – chamou Antonio pelo filho mais velho. Ele pegou seu facão que estava na bota, quando calçou pela manhã. Andou alguns metros na mata, trouxe uns tocos de árvores menores e algumas folhas de palmeiras. Fez uma pequena barraca improvisada com esse material e colocou a família ali.
- E você Antonio? – perguntou a mulher.
- Vou ficar aqui fora vigiando. Além dos soldados, pode haver algum bicho por aqui.
- Não pensei nisso. Mas você precisa dormir. Como vai fazer amanhã?
- Deixe o Mateus dormir um pouco. Depois chamo ele para ficar uma hora aqui de vigia.
Ela concordou. Antonio estava agora com seu chapéu, para que o sereno não caísse direto sobre sua cabeça. Estava com um casaco que ainda agüentaria o frio por algum tempo. Mas ele sabia que sem se movimentar, o corpo ficaria com a temperatura menor, o frio bateria também sobre ele. Ouvia uivos e vários sons vindos da floresta escura e sem qualquer claridade. Ainda alguns últimos galhos crepitavam na fogueira que haviam acendido. Mas Antonio sabia que fogo no meio do escuro poderia atrair algum homem perdido ou mesmo os muitos ladrões que rondavam sempre na mata.
O tempo passava devagar. Ele já estava se acostumando com o barulho da mata e ficou contente por ver sua família que dormia na tranqüilidade momentânea. Porém, seus pensamentos retornavam a todo instante naqueles homens que invadiram sua casa e expulsaram sua família. Tocaram fogo na casa, destruindo suas plantações e nem deu tempo de ver o que havia acontecido com seus animais. Ele estava pensando em retornar e reconstruir. Seria uma possibilidade. Mas o medo e a forma como o expulsaram, sem dar chances para eles arrumarem suas coisas, os homens a mando da Companhia não queriam saber para onde ele fosse. Não era justo! Antonio queria gritar e protestar. Poderia ir até a Companhia e pedir que dessem a ele novas terras e construíssem uma nova casa. Mas sabia que a possibilidade disso acontecer eram nulas.
Antonio, vez ou outra, já tinha ouvido falar que aquelas terras o governo tinha dado para a Companhia que estava construindo a estrada de ferro. Mas nunca acreditou. Nem mesmo levou a sério quando alguém se referia na forma como haviam expulsado alguém. Sempre achava que era mais uma história, das tantas, pensou ele, que sempre contavam naquele sertão de Deus. Mas agora essa história estava acontecendo com ele. Uma realidade distante da qual sempre imaginou para si e sua família.
O sono se apossou de Antonio, apesar do frio que ficou mais forte na madrugada. Ele foi desperto pela manhã pelo filho Mateus. Nos primeiros segundos não conseguiu compreender onde estava ou que estava se passando. Mas logo a seguir o turbilhão da revolta se apossou de Antonio novamente. Não havia leite, pão ou café. Não tinha qualquer alimento que pudesse oferecer aos filhos e a esposa. Ouviu uma tosse. Viu a esposa aconchegar a filha pequena em seu colo, tentando fazer com que a menina parecesse de chorar. Havia alguma névoa na mata. Tudo estava úmido e o frio parecia ser maior naquele momento.
Antonio chamou o filho Mateus e providenciavam lenha seca. A seguir conseguiram ascender o fogo e a família ficou reunida à volta das chamas. Antonio foi com o filho pela mata procurar alimento. Encontrou um pé de banana. Colhei algumas frutas, mas estas ainda não estavam maduras. Mesmo assim poderiam ser mastigadas ou cozidas. Se houvesse uma panela para isso, pensou.. Depois prosseguiu com o filho, encontrando outras frutas. Verdes ou maduras demais. Voltou com o filho para o acampamento improvisado. Os raios de sol tentavam entrar pelas árvores dentro da floresta. Ainda tímidos, tinham que transpor também a névoa daquela manhã de inverno. Antonio tentou conter as lágrimas. Num dia desses, poderia trabalhar muito em suas terras. Mas agora não as tinha e se lamentava por isso.
Ofereceu aos membros da família o que tinha conseguido como alimento. Depois, junto com os dois filhos, juntou o que possuíam, e seguiram pela mata. Sem destino aparente. Mas Antonio começava a delinear um objetivo. Tinha algum conhecimento da mata e onde ela daria em seu final. Encontrariam uma estrada secundária. Seguiriam mais dois dias de viagem e encontrariam a estrada principal onde havia alguns colonos com suas fazendas. Encontraria algum conhecido seu e pediria abrigo até decidir o que faria depois. Parava vez ou outra na caminhada, pois a mulher se sentia cansada. Apesar de ela também ter trabalhado na roça e ser forte, havia um misto de cansaço físico e mental. Além disso, sua filha os atrasava. Todos a carregavam por algum tempo. Antonio tinha que seguir na frente, já que precisava desbastar a mata para abrir caminho para passarem.
No final da tarde conseguiram chegar a estrada secundária. O que se via lembrava pouco de uma estrada. Era, sim, um corredor estreito entre a mata, onde viajantes cortavam caminho, normalmente montados em cavalos. Mas Antonio sabia que seria melhor andar por ali do que seguir sem rumo pela mata fechada e cheia de perigos maiores. O sol já estava se escondendo e a luz do dia daria lugar ao breu da noite. Teria que pensar onde acampariam com segurança naquela noite. Antonio fitava os dois lados. Seguiriam para o norte. Eles andavam alguns metros para poder encontrar uma clareira ou quem sabe uma caverna de pedras. Mas a seguir o medo novamente tomou conta de Antonio. Ele e sua família ouviram cavalos trotando e em alta velocidade. Poderiam ser os soldados. Mas agora eles não tinham nada mais a perder, a não ser a vida. Antonio entrou na mata. A mulher e os filhos o seguiram com dificuldade. Mas não tiveram sorte. Ouviram o silêncio das patas dos cavalos, porém vozes de homens dando ordens.
Antonio parou e um frio na espinha o percorreu quando seu filho Davi chamou por ele. Voltando pela mata cheia de empecilhos, constatou que um homem tinha agarrado seu filho e este se debatia. Viu dois outros homens alcançados sua mulher. Esta caiu e sua filha de dois anos gritou quando atingiu o chão. Antonio chegou perto, olhou para os dois homens e se atirou sobre eles. Conseguiu atingi-los, já que estavam próximos. Os três homens caíram e começaram uma luta corporal. Antonio fora dominado rapidamente, já que havia brigado pouco na vida. Logo os dois homens pegaram o cinto de suas calças e amarravam os braços e pernas de Antonio. Este se debatia, vendo que aqueles homens pareciam ter prazer naquilo. Antonio ouviu o choro da filha e um grito de Mateus. Tentou enxergar alguma coisa, mas o mato não deixava. Aqueles homens não estavam mais ali com ele. Antonio sentiu novamente seu coração ficar apertado e lágrimas rolavam de seus olhos. Ouviu os filhos gritarem e o choro da filha persistia. Debatendo-se, Antonio feriu seu rosto numa pedra e num soco que havia recebido de um daqueles seus algozes. Parou de respirar por alguns segundos quando ouviu a voz de sua mulher.
- Deixe meus filhos em paz.
Depois um homem falou.
- Não queremos seus filhos. Queremos você.
Antonio soltou um grito na noite que se avizinhava.
Antonio Dias estava sentado numa clareira, com um graveto nas mãos e o chapéu ao seu lado. Os dois meninos estavam brincando perto de uma árvore e a mulher segurava a filha no colo. A pergunta de Sibila precisava de uma resposta, mas Antonio não sabia qual a resposta dar para a mulher e muito menos para si mesmo. O seu mundo havia acabado! Se ele estivesse sozinho não haveria problema, mas ele tinha três filhos e uma mulher para cuidar. O dia já estava no seu final. Andaram mata adentro por alguns quilômetros, até a mulher se cansar e os filhos pedirem por água e comida. Encontraram um riacho onde mataram a sede. Comeram algumas frutas e Antonio conseguiu matar um coelho. Acendeu o fogo com os fósforos que abasteciam seu palheiro e assaram o coelho. Foi pouco pelo que já tinham, mas naquele momento era o que podia dispor.
Sibila conseguiu reunir, antes de a casa arder em chamas, algumas roupas num lençol. Com a saída do sol e a mata ao seu redor, o frio parecia aumentar de tamanho. Ele poderia agüentar, pensou Antonio, mas seus filhos não saberiam até quando poderiam viver da privação de roupas quentes e comida.
- Vamos passar a noite aqui. – determinou ele.
- No relento?
- Mateus? – chamou Antonio pelo filho mais velho. Ele pegou seu facão que estava na bota, quando calçou pela manhã. Andou alguns metros na mata, trouxe uns tocos de árvores menores e algumas folhas de palmeiras. Fez uma pequena barraca improvisada com esse material e colocou a família ali.
- E você Antonio? – perguntou a mulher.
- Vou ficar aqui fora vigiando. Além dos soldados, pode haver algum bicho por aqui.
- Não pensei nisso. Mas você precisa dormir. Como vai fazer amanhã?
- Deixe o Mateus dormir um pouco. Depois chamo ele para ficar uma hora aqui de vigia.
Ela concordou. Antonio estava agora com seu chapéu, para que o sereno não caísse direto sobre sua cabeça. Estava com um casaco que ainda agüentaria o frio por algum tempo. Mas ele sabia que sem se movimentar, o corpo ficaria com a temperatura menor, o frio bateria também sobre ele. Ouvia uivos e vários sons vindos da floresta escura e sem qualquer claridade. Ainda alguns últimos galhos crepitavam na fogueira que haviam acendido. Mas Antonio sabia que fogo no meio do escuro poderia atrair algum homem perdido ou mesmo os muitos ladrões que rondavam sempre na mata.
O tempo passava devagar. Ele já estava se acostumando com o barulho da mata e ficou contente por ver sua família que dormia na tranqüilidade momentânea. Porém, seus pensamentos retornavam a todo instante naqueles homens que invadiram sua casa e expulsaram sua família. Tocaram fogo na casa, destruindo suas plantações e nem deu tempo de ver o que havia acontecido com seus animais. Ele estava pensando em retornar e reconstruir. Seria uma possibilidade. Mas o medo e a forma como o expulsaram, sem dar chances para eles arrumarem suas coisas, os homens a mando da Companhia não queriam saber para onde ele fosse. Não era justo! Antonio queria gritar e protestar. Poderia ir até a Companhia e pedir que dessem a ele novas terras e construíssem uma nova casa. Mas sabia que a possibilidade disso acontecer eram nulas.
Antonio, vez ou outra, já tinha ouvido falar que aquelas terras o governo tinha dado para a Companhia que estava construindo a estrada de ferro. Mas nunca acreditou. Nem mesmo levou a sério quando alguém se referia na forma como haviam expulsado alguém. Sempre achava que era mais uma história, das tantas, pensou ele, que sempre contavam naquele sertão de Deus. Mas agora essa história estava acontecendo com ele. Uma realidade distante da qual sempre imaginou para si e sua família.
O sono se apossou de Antonio, apesar do frio que ficou mais forte na madrugada. Ele foi desperto pela manhã pelo filho Mateus. Nos primeiros segundos não conseguiu compreender onde estava ou que estava se passando. Mas logo a seguir o turbilhão da revolta se apossou de Antonio novamente. Não havia leite, pão ou café. Não tinha qualquer alimento que pudesse oferecer aos filhos e a esposa. Ouviu uma tosse. Viu a esposa aconchegar a filha pequena em seu colo, tentando fazer com que a menina parecesse de chorar. Havia alguma névoa na mata. Tudo estava úmido e o frio parecia ser maior naquele momento.
Antonio chamou o filho Mateus e providenciavam lenha seca. A seguir conseguiram ascender o fogo e a família ficou reunida à volta das chamas. Antonio foi com o filho pela mata procurar alimento. Encontrou um pé de banana. Colhei algumas frutas, mas estas ainda não estavam maduras. Mesmo assim poderiam ser mastigadas ou cozidas. Se houvesse uma panela para isso, pensou.. Depois prosseguiu com o filho, encontrando outras frutas. Verdes ou maduras demais. Voltou com o filho para o acampamento improvisado. Os raios de sol tentavam entrar pelas árvores dentro da floresta. Ainda tímidos, tinham que transpor também a névoa daquela manhã de inverno. Antonio tentou conter as lágrimas. Num dia desses, poderia trabalhar muito em suas terras. Mas agora não as tinha e se lamentava por isso.
Ofereceu aos membros da família o que tinha conseguido como alimento. Depois, junto com os dois filhos, juntou o que possuíam, e seguiram pela mata. Sem destino aparente. Mas Antonio começava a delinear um objetivo. Tinha algum conhecimento da mata e onde ela daria em seu final. Encontrariam uma estrada secundária. Seguiriam mais dois dias de viagem e encontrariam a estrada principal onde havia alguns colonos com suas fazendas. Encontraria algum conhecido seu e pediria abrigo até decidir o que faria depois. Parava vez ou outra na caminhada, pois a mulher se sentia cansada. Apesar de ela também ter trabalhado na roça e ser forte, havia um misto de cansaço físico e mental. Além disso, sua filha os atrasava. Todos a carregavam por algum tempo. Antonio tinha que seguir na frente, já que precisava desbastar a mata para abrir caminho para passarem.
No final da tarde conseguiram chegar a estrada secundária. O que se via lembrava pouco de uma estrada. Era, sim, um corredor estreito entre a mata, onde viajantes cortavam caminho, normalmente montados em cavalos. Mas Antonio sabia que seria melhor andar por ali do que seguir sem rumo pela mata fechada e cheia de perigos maiores. O sol já estava se escondendo e a luz do dia daria lugar ao breu da noite. Teria que pensar onde acampariam com segurança naquela noite. Antonio fitava os dois lados. Seguiriam para o norte. Eles andavam alguns metros para poder encontrar uma clareira ou quem sabe uma caverna de pedras. Mas a seguir o medo novamente tomou conta de Antonio. Ele e sua família ouviram cavalos trotando e em alta velocidade. Poderiam ser os soldados. Mas agora eles não tinham nada mais a perder, a não ser a vida. Antonio entrou na mata. A mulher e os filhos o seguiram com dificuldade. Mas não tiveram sorte. Ouviram o silêncio das patas dos cavalos, porém vozes de homens dando ordens.
Antonio parou e um frio na espinha o percorreu quando seu filho Davi chamou por ele. Voltando pela mata cheia de empecilhos, constatou que um homem tinha agarrado seu filho e este se debatia. Viu dois outros homens alcançados sua mulher. Esta caiu e sua filha de dois anos gritou quando atingiu o chão. Antonio chegou perto, olhou para os dois homens e se atirou sobre eles. Conseguiu atingi-los, já que estavam próximos. Os três homens caíram e começaram uma luta corporal. Antonio fora dominado rapidamente, já que havia brigado pouco na vida. Logo os dois homens pegaram o cinto de suas calças e amarravam os braços e pernas de Antonio. Este se debatia, vendo que aqueles homens pareciam ter prazer naquilo. Antonio ouviu o choro da filha e um grito de Mateus. Tentou enxergar alguma coisa, mas o mato não deixava. Aqueles homens não estavam mais ali com ele. Antonio sentiu novamente seu coração ficar apertado e lágrimas rolavam de seus olhos. Ouviu os filhos gritarem e o choro da filha persistia. Debatendo-se, Antonio feriu seu rosto numa pedra e num soco que havia recebido de um daqueles seus algozes. Parou de respirar por alguns segundos quando ouviu a voz de sua mulher.
- Deixe meus filhos em paz.
Depois um homem falou.
- Não queremos seus filhos. Queremos você.
Antonio soltou um grito na noite que se avizinhava.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Castelos na Alemanha
RESIDENZ, Munique. Fica ao lado da Marienplatz, no coração da cidade alemã. Impressiona pelos mais de cem quartos.
NYMPHENBURG, Munique. Fica na parte antiga da cidade, o monumental palácio barroco levou 120 anos pra ser terminado. O destaque deste Castelo é o quarto em que nasceu o rei Ludwig II.
LINDERHOF, Ettal. Rebuscado, porém um pouco menor que outros Castelos. Cada ambiente é minuciosamente ornamentado em ouro, prata, cristais e porcelanas.terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Bom Cinema 3
Premonição 4
Uma das franquias de maior sucesso dos últimos anos chega ao quarto longa-metragem com muito fôlego. Nick e seus amigos vão assistir a uma corrida de carros, quando um deles, a quase 300 km/h, bate e explode na platéia causando a morte de dezenas de pessoas. Nick percebe que isso foi uma de suas premonições e terá que fazer de tudo para salvar sua vida. Afinal, a morte já foi enganada três vezes e agora ela não dará trégua, será mais brutal do que nunca! Para quem gosta de muitas mortes e surpresas. Algumas nem tanto assim.
Nicolas Cage parece se especializar neste tipo de filme. Agora o ator interpreta Balthazar, um feiticeiro que reside em Manhattan. Ele recruta o jovem Dave Stuller (Jay Baruchel), como seu aprendiz, para defender a cidade de seu maior inimigo, Maxim Horvarth (Alfred Molina). Balthazar inicia um curso com o jovem Dave para ensiná-lo nas habilidades da ciência da magia. O Plano de Balthazar é unir poderes para proteger a todos e desta forma, o jovem terá um papel importante na luta contra seu inimigo. Aventura com muitos efeitos especiais.
Chico Xavier
Chico Xavier é uma adaptação para o cinema que descreve a trajetória do médium Chico Xavier, que viveu 92 anos desta vida terrena desenvolvendo importante atividade mediúnica e filantrópica. Vida conturbada, com lutas e amor. Seus mais de 400 livros psicografados consolaram os vivos, pregaram a paz e estimularam caridade. Fenômeno? Fraude? Os Espíritos existem? Para os admiradores mais fervorosos, foi um santo. Para os descrentes, no mínimo, um personagem intrigante. Baseado em um livro escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior, publicado no ano de 2003, é considerado como uma das melhores biografias do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Mas o filme ficou a desejar em várias questões, pois não as responde e nem dá um caminho real.
Onde Andará Dulce Veiga? É um filme que foi pouco divulgado, mas que merece ser assistido. Alcançou o status de Cult, pois é uma história bem contada e que ousou arriscar e quebrar algumas regras. Maitê Proença interpreta uma diva, Dulce Veiga. Carolina Dieckmann dá vida a uma roqueira lésbica e drogada. Vemos ainda um ardente beijo entre Carmo Dalla Vecchia e Eriberto Leão. Eriberto faz um jornalista obcecado por encontrar uma diva desaparecida. A história é baseada no livro de Caio Fernando Abreu, num projeto do diretor Guilherme de Almeida. O filme se passa nos anos 1980. Há um desfile de vários personagens secundários, num quebra-cabeça que se acompanha com interesse. O filme conquista por resgatar uma história saudosista, pela trilha sonora pontual, elenco afinado, ritmo e o processo que se dá na condução da história. Há várias presenças de atores e atrizes que dão brilho ao filme. Porém Maitê Proença brilha toda vez que aprece em cena. A Dulce Veiga que Maitê dá vida, atesta que muitas vezes as respostas não precisam ser óbvivas ou terem razões plausíveis. Em outras, não precisam nem ao menos ser encontradas. WALK ON WATER. Eyal é um assassino profissional da Mossad, o serviço secreto israelense. A mais recente missão do atraente agente é localizar o ex-oficial Nazi, Alfred Himmelman, que ainda se crê estar vivo. Para tanto, ele é designado pelo seu chefe a acompanhar Axel, o neto do ex-oficial nazista em visita a Israel. Apesar das suas personalidades contrastantes, o insensível Eyal deixa-se tocar pelas opiniões liberais e pelo entusiasmo do jovem Axel. Mas a certa altura, Eyal, machista e conservador, se sente perturbado pela sinceridade de Axel, que lhe revela ser abertamente gay. Uma tensão desconfortável instala-se entre os dois jovens, Eyal se sente cada dia mais curioso em descobrir como é se relacionar com outro homem, já que sua mulher se suicidou faz pouco tempo. É uma história tocante, mas sem resvalar para o objetivo final, que é o de encontrar o ex-oficial nazista.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Bom cinema 2
Elvis & Anabelle O Desperta de Um Amor
Esta trama sensível me surpreendeu. A história quer mostrar, literalmente, que o amor pode ser maior que a vida. Annabelle, jovem cuja rotina é controlada pela ambiciosa mãe, viaja para receber um prêmio após ter vencido um concurso de miss. Contudo, acaba falecendo inesperadamente e seu corpo vai parar nas mãos de Elvis, um jovem agente funerário. E, quando a garota ressuscita, aparentemente sem motivo, ambos passam a viver um intenso amor. Max Minghella faz o jovem Elvis e Blake Lively dá vida a Anabelle.
Imagina eu e você
O executivo Heck e a bela Rachel formam um jovem casal prestes a dizer sim, quando um encontro inesperado vira o mundo dela de cabeça para baixo. Não culpe a moça! E se você descobrisse que a pessoa que foi feita para passar o resto da vida ao seu lado, não é aquela que está com você? Uma história hilária com um pitada de encontros e desencontros, bem comuns aqueles que já se aproximaram à primeira vista. O filme retrata que o caminho do amor nem sempre é aqueles que imaginamos. Mas é trocado de um jeito ou de outro. Divertido e instigante.
The Karate Kid
Este novo filme de ação, é uma refilmagem do longa homônimo de 1984. Dre (Jaden Smith) vai com sua mãe para a China contra a sua vontade para que ela possa trabalhar. Ele não conhece a língua e tem dificuldade de se relacionar com as crianças de lá. Ele sofre agressões verbais e psicológicas que não demoram para chegar a agressão física. Ele conhece Mr. Han (Jackie Chan) que se oferece para ensinar mandarim e artes marciais para o garoto.
Minhas mães e Meu Pai
Um título em português bobo (no original The Kids are all right). As lésbicas Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore) têm um casamento estável, mas a relação é virada de cabeça para baixo quando seus filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), resolvem trazer Paul (Mark Ruffalo), o pai, doador de esperma, de volta para suas vidas. As coisas, evidentemente, ficam cada vez mais complicadas quando Jules se envolve com Paul. Anette Benning está cotadissima para ser indicada ao Oscar de 2011 por este filme.
O Bem Amado
Baseado na obra de Dias Gomes, o filme conta a história do prefeito Odorico Paraguaçu, que tem como meta prioritária em sua administração na cidade de Sucupira a inauguração de um cemitério. É apoiado pelas irmãs Cajazeiras, com as quais o político viúvo mantém relações muito próximas. E tem em Vladimir (Tonico Pereira), dono do único jornal da cidade, seu principal opositor. A história passada no início dos anos 60 é narrada por Neco Pedreira (Caio Blat), um jovem que se apaixona por Violeta (Maria Flor), a filha do prefeito, moça moderna que estuda na capital. Os dois vivem um romance proibido enquanto Odorico sonha em abrir o cemitério municipal. Por falta de defunto, o prefeito nunca consegue realizar sua meta. Odorico arma situações para que alguém morra, inclusive importando um moribundo (Ernesto) que não morre e contratando Zeca Diabo, o matador responsável pela morte de seu antecessor.
Io Sono L´amore
Recebeu o título em inglês I Am Love. O filme retrata o patriarca da rica família Recchi, quando decide nomear um sucessor para sua indústria. Surpreendendo a todos, dividindo o poder entre seu filho Tancredi e seu neto Edo. Mas Edo sonha abrir um restaurante com seu amigo Antonio, um bonito e talentoso chef. O drama começa quando a esposa de Tancredi, Emma, se apaixona por Antonio, embarcando num tórrido romance que mudará a família Recchi para sempre. O longa promete muitas polêmicas envolvendo herança, homossexualidade e traição.
A Rede social
O filme que promete para o Oscar de 2011. Conta a historia do fundador do Facebook, o programador e bilionário Mark Zuckerberg . O filme associa o início do Facebook a uma série de traições entre amigos e retrata Mark Zuckerberg, agora um multimilionário de 26 anos, como uma espécie de anti-herói em busca de aceitação social. Relata episódios sórdidos da fundação do Facebook, que fizeram os executivos da empresa tentar modificar o roteiro, mas não obtiveram sucesso. Um dos casos relatados no filme se passa logo após a criação do Facebook, quando Mark Zuckerberg foi acusado de se apropriar da ideia da rede social, uma causa que terminou com um acordo extrajudicial.
Jacks é uma editora-assistente na Vogue britânica e a figura central do seu grupo de amigos que costuma bancar o cupido e gerenciar os desastrosos relacionamentos dos casais que forma. Seu amigo gay com quem mora Peter é um objeto frequente de suas repetitivas tentativas de ajudar a encontrar o amor verdadeiro. Mas Jacks deve perceber que precisa focar em sua vida amorosa nada saudável e Peter tem que evitar que seu ideal de amor atrapalhe a oportunidade de ser feliz na vida real. O filme é muito divertido e nos dá uma amostra divertida de um engraçado grupo de amigos e suas vidas em Londres, enquanto examina a diferença entre amor de cinema e amor na vida real. É um filme que toda mulher deveria ver.
A Morte e Vida de Charlie
Este drama/romance conta a história do jovem Charlie St. Cloud que precisa vencer a dor da morte de seu irmão mais novo. Tanto é assim que ele aceita um emprego como zelador do cemitério em que seu irmão está enterrado. Charlie tem uma ligação especial duradoura com seu irmão, porém, como ele pode vê-lo. Charlie se encontra com seu irmão (Sam) a cada noite para jogar e conversar. Então, uma menina entra na vida de Charlie e ele deve escolher entre manter uma promessa feita a Sam ou ir atrás da garota que ele ama.
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